977 dias. Esse é o intervalo entre o último jogo de Neymar pela Seleção Brasileira — outubro de 2023, nas Eliminatórias — e a estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026, marcada para 13 de junho contra Marrocos no MetLife Stadium. Quase três anos de espera, lesões e incerteza que agora se condensam numa ressonância magnética agendada para o dia 12 — véspera do jogo — para definir se o maior artilheiro da história da Seleção entra em campo ou assiste da arquibancada.
A CBF confirmou nesta quinta-feira (4) que o camisa 10 não viajará para Cleveland, onde o Brasil enfrenta o Egito no sábado (6) às 19h. O atacante permanece em New Jersey realizando fisioterapia, tratando uma lesão grau 2 na panturrilha direita — diagnóstico mais grave do que o edema inicialmente identificado pelo Santos, clube onde Neymar se machucou na derrota por 3 a 0 para o Coritiba, em 17 de maio, pelo Brasileirão.
A lesão que chegou na hora errada e o que os exames vão revelar
Uma lesão grau 2 em panturrilha, para quem conhece a fisiologia do futebol de alto rendimento, raramente se resolve em menos de três semanas. Neymar se machucou em 17 de maio. A ressonância de controle está marcada para 12 de junho — exatamente 26 dias depois. O prazo é apertado, mas não impossível. O problema é que o atacante chegará à Copa sem um único minuto jogado sob o comando de Carlo Ancelotti, sem ter participado de nenhum treino coletivo com o grupo. Seria a estreia mais delicada de um craque brasileiro em Copa desde Ronaldo em 2002 — que, mesmo após convulsão às vésperas da final contra a França em 1998, voltou para decidir o título quatro anos depois.
Nos bastidores, segundo apuração da ESPN reproduzida em matéria do SportNavo, Neymar tem surpreendido positivamente a comissão técnica com postura discreta e comprometida — bem diferente de ciclos anteriores, quando costumava interferir em decisões sobre rotina, folgas e logística do grupo. A convocação, que até gerou dúvidas internas na CBF, foi defendida por Ancelotti com base em dados concretos: oito partidas pelo Santos após a Data Fifa de março, três gols e uma assistência, sequência que convenceu o italiano a incluí-lo na lista final no lugar de João Pedro, artilheiro do Chelsea no ciclo eliminatório.
"No momento em que ele começou a jogar com regularidade no Campeonato Brasileiro. No último período, depois da data Fifa de março, em abril, jogou com continuidade e em um bom nível", explicou Ancelotti ao ex-jogador Falcão, em entrevista ao canal de Duda Garbi no YouTube.
Paquetá e Igor Thiago testam o Brasil que pode estrear sem o camisa 10
Quem não tem cão caça com gato — e Ancelotti, veterano de quatro títulos de Champions League, não é homem de esperar destino. Com Neymar fora do amistoso contra o Egito, o treinador italiano promoveu mudanças na escalação e testou Lucas Paquetá e Igor Thiago entre os titulares. A movimentação é significativa: representa o ensaio mais próximo do que pode ser o Brasil na fase de grupos caso o camisa 10 não esteja disponível para a estreia.
Paquetá, que completou 28 anos em agosto de 2025, carrega a função de organizador pelo lado esquerdo do meio-campo — papel que já exerceu em diferentes configurações sob Tite e Fernando Diniz. Igor Thiago, por sua vez, chegou à Copa com 19 gols na Premier League nesta temporada 2025/2026, números que nenhum centro-avante brasileiro havia alcançado na elite inglesa desde a era de Diego Costa com passaporte espanhol. A combinação dos dois entre os titulares esboça um Brasil mais vertical no corredor central, menos dependente da genialidade individual do camisa 10.
"Você aproveita o talento só se tem uma equipe sólida e compacta. O aspecto mental é muito importante, os jogadores precisam ser altruístas, humildes, trabalhar forte", disse Ancelotti ao detalhar a filosofia que pretende aplicar no Mundial.
O Grupo C e o que Ancelotti já sabe sobre Marrocos, Haiti e Escócia
O Brasil está no Grupo C ao lado de Marrocos, Haiti e Escócia. Ancelotti já mapeou os adversários com clareza: Marrocos é o obstáculo mais sofisticado — organização defensiva sólida, difícil de ser vazada, uma das seleções mais consistentes da África nos últimos ciclos, incluindo a semifinal da Copa de 2022 no Catar. Haiti e Escócia, na avaliação do técnico, têm perfil mais físico e menos qualidade individual. Fazer gol no Marrocos na estreia, portanto, exige um Brasil que crie coletivamente, não um que espere por um lampejo de gênio isolado.
Historicamente, o Brasil sempre enfrentou estreias de Copa com algum grau de tensão interna. Em 2014, jogou sem Neymar em Belo Horizonte apenas nas semifinais — e o resultado foi o 7 a 1. Em 2002, Ronaldo entrou em campo carregando o peso de Yokohama 1998 e marcou dois gols na final. A história da Seleção é feita de adaptações forçadas que viraram lendas. A diferença agora é que Ancelotti tem nove dias entre o amistoso contra o Egito e a estreia contra Marrocos para afinar a engrenagem — com ou sem o camisa 10 disponível após o exame do dia 12.
"Acho que sim [vamos ganhar]. Quero criar uma expectativa alta nos meus jogadores. Quando a expectativa é alta, a motivação é maior", afirmou o técnico.
Se Neymar for liberado pelo departamento médico após a ressonância de 12 de junho, Ancelotti terá menos de 24 horas para decidir se arrisca escalar um jogador sem ritmo de jogo numa partida contra uma defesa marroquina entre as mais organizadas do mundo. Se o exame não der o sinal verde, o Brasil que Paquetá e Igor Thiago constroem contra o Egito no sábado deixa de ser plano B e vira o único cardápio disponível — como uma receita que precisa sair perfeita mesmo sem o ingrediente principal.









