"Só a vitória está na minha mente. Se abordarmos a partida com a mentalidade acomodada de que um empate é aceitável, poderemos enfrentar grandes dificuldades." A frase não é de Gustavo Alfaro, técnico do Paraguai, que entra em campo desesperado por uma vitória. Quem disse isso foi Hong Myung-bo, treinador da Coreia do Sul — e ela serve como espelho perfeito para o dilema que a Austrália vai viver nesta quinta-feira (25) no Levi's Stadium, em Santa Clara, Califórnia.

Paraguai e Austrália chegam à última rodada do Copa do Mundo 2026 com 3 pontos cada. A Albirroja tem saldo de gols negativo: menos dois. Os Socceroos estão em zero. Um empate classifica a Austrália em segundo lugar no Grupo D. O Paraguai precisa vencer — sem essa condição, está eliminado, independente do que aconteça no outro jogo da chave, entre Estados Unidos e Turquia, no SoFi Stadium em Los Angeles.

O que os números revelam sobre Paraguai e Austrália até aqui

A derrota por 4 a 1 para os Estados Unidos na estreia foi o balde de água fria que o Paraguai não esperava. Mas o que veio depois foi revelador. Contra a Turquia, com Miguel Almirón expulso ainda no primeiro tempo, a Albirroja segurou o resultado com dez jogadores durante toda a segunda etapa e venceu por 1 a 0. O gol foi de Matías Galarza, marcado com 64 segundos de bola rolando — o mais rápido desta edição do torneio. Uma equipe que sobrevive com um a menos durante 45 minutos em Copa do Mundo não é frágil. É uma muralha.

Os números das Eliminatórias Sul-Americanas reforçam essa leitura. O Paraguai cedeu apenas dez gols em 18 partidas — a melhor marca defensiva entre todos os classificados da CONMEBOL. A equipe venceu cinco jogos consecutivos em casa durante a fase classificatória, incluindo triunfos sobre Argentina e Brasil. Esse DNA defensivo é o que Alfaro vai mobilizar nesta quinta, mas com uma exigência nova: atacar.

A Austrália chegou ao Mundial com moral elevada e sem precisar de repescagem pela primeira vez desde 2014. Tony Popovic estreou com uma vitória por 2 a 0 sobre a Turquia, com gols de Nestory Irankunda e Connor Metcalfe. A derrota por 2 a 0 para os Estados Unidos em Seattle foi um ajuste de realidade — mas os Socceroos não desmoronaram defensivamente. Perderam para uma seleção anfitriã em noite inspirada. A estrutura coletiva do grupo permanece intacta.

As vozes dos vestiários e o que elas entregam sobre a estratégia

Alfaro não precisa dizer nada para que o plano fique claro: o Paraguai vai para cima desde o primeiro minuto. A lógica é simples e brutal. Um empate não serve. Qualquer esquema defensivo é suicídio. A Albirroja vai pressionar alto, tentar marcar cedo — como fez contra a Turquia — e torcer para que a Austrália, confortável com o empate, recue e abra espaço.

Do lado australiano, a questão é mais sutil. Popovic sabe que um empate classifica. Mas uma equipe que se fecha demais convida o adversário a crescer. O equilíbrio entre segurar o resultado e não virar um alvo é a linha tênue que os Socceroos vão caminhar nos 90 minutos em Santa Clara. Conforme apurado em matéria do SportNavo, a dinâmica de um time que joga pelo empate contra outro que precisa vencer tende a criar um jogo travado no início — e explosivo no segundo tempo.

"A escalação titular vai mudar", declarou o técnico Hong Myung-bo antes do jogo da Coreia do Sul — uma postura que reflete o nervosismo generalizado entre as seleções que chegam à última rodada sem a classificação garantida.

Almirón, expulso contra a Turquia, cumpriu a suspensão e está liberado para jogar. O retorno do meia do Newcastle é o maior reforço do Paraguai para esta decisão. Ele é o jogador com maior capacidade de criar desequilíbrio individual na equipe de Alfaro — e sua ausência foi sentida na segunda etapa contra os turcos, quando o Paraguai precisou se defender com unhas e dentes.

O Levi's Stadium, o calor da Califórnia e o peso de uma eliminatória antecipada

Santa Clara, no coração do Vale do Silício, não é exatamente um caldeirão de futebol. O Levi's Stadium, casa do San Francisco 49ers da NFL, tem capacidade para mais de 68 mil pessoas. O calor seco da Califórnia em junho — temperaturas que podem passar dos 30 graus no período da tarde — é um fator físico real para duas seleções que chegam ao jogo com desgaste acumulado de duas partidas em menos de dez dias.

A torcida paraguaia, que viajou em peso para os Estados Unidos aproveitando a proximidade com comunidades latinas espalhadas pela costa oeste, deve fazer barulho desproporcional ao tamanho do país. O Paraguai voltou à Copa do Mundo após 16 anos de ausência — a última participação foi na África do Sul 2010, quando chegou às quartas de final. Esse peso histórico está nas costas de cada jogador que entrar em campo.

A Austrália, por sua vez, joga com a frieza de quem tem a vantagem. Os Socceroos sabem que não precisam marcar. Precisam não perder. Essa diferença psicológica é enorme em eliminatórias — e tende a favorecer quem tem menos pressão nos últimos minutos, quando as pernas pesam e as decisões precisam ser tomadas em frações de segundo.

O jogo entre Paraguai e Austrália acontece na quinta-feira (25), às 22h (horário de Brasília), no Levi's Stadium. Quem perder vai para casa. Quem empatar ou vencer avança para as oitavas de final da Copa do Mundo 2026, onde vai encontrar o líder de outro grupo — provavelmente uma das potências europeias ou sul-americanas que já estão classificadas. O Paraguai sabe que este é o jogo da vida. A Austrália sabe que não pode dormir.

Uma seleção avança. A outra encerra a Copa mais curta de sua história.