A última vez que a Colômbia entrou em campo em uma Copa do Mundo com real possibilidade de classificação antecipada foi em 2014, na fase de grupos disputada no Brasil — e naquela edição o time de José Pékerman venceu o Grupo C com sete pontos, perdendo apenas na semifinal para o Brasil. Doze anos depois, Néstor Lorenzo monta uma escalação que ecoa aquela lógica: prioridade ao equilíbrio, James Rodríguez no eixo criativo e um meia de contenção ao lado dele. Jorge Carrascal, do Flamengo, fica no banco.

O meio-campo que Lorenzo escolheu para fechar o grupo

A escalação confirmada pelo técnico argentino para o confronto desta terça-feira (23), às 23h (horário de Brasília), em Guadalajara, no México, é a mesma que derrotou o Uzbequistão por 3 a 1 na estreia da Copa do Mundo: Camilo Vargas; Daniel Muñoz, Davinson Sánchez, Jhon Lucumí e Johan Mojica; Jefferson Lerma e Gustavo Puerta; Jhon Arias, James Rodríguez e Luis Díaz; Luis Suárez. A dupla de volantes formada por Lerma e Puerta é a chave da leitura tática de Lorenzo — dois jogadores com perfil de marcação e recuperação de bola, o que libera James para atuar mais próximo da área adversária sem obrigações defensivas excessivas.

A escolha não é casual. A RD Congo empatou em 1 a 1 com Portugal na estreia, adotando um bloco defensivo compacto sob o comando do técnico Sébastien Desabre, que alterou o esquema tático habitual para neutralizar os portugueses. Lorenzo leu esse dado e optou por um time que não abre espaços — a Colômbia precisa apenas de um empate para garantir a classificação caso Portugal vença o Uzbequistão em paralelo, mas uma vitória sela a vaga de forma independente.

Carrascal entre o banco e a titularidade que o Flamengo conhece

O meia Jorge Carrascal atravessa uma das melhores fases de sua carreira no Flamengo, clube pelo qual acumula atuações decisivas no Campeonato Brasileiro de 2026. Sua característica principal — a condução em espaços reduzidos e a chegada ao ataque pela meia-esquerda — o torna um perfil diferente de tudo que Lorenzo tem disponível no elenco. Exatamente por isso, o técnico o preserva como carta a ser jogada quando o adversário já estiver aberto, cansado ou desequilibrado.

Segundo a lógica de Lorenzo, Carrascal não é titular porque o jogo de abertura de um grupo exige primeiro estabilidade. O técnico argentino, que assumiu a seleção colombiana em 2022 após a eliminação nas Eliminatórias Sul-Americanas, construiu uma identidade baseada em transições rápidas e pressão alta — e Lerma e Puerta executam essa função com mais consistência defensiva do que Carrascal. O meia do Flamengo entra quando o placar pede criatividade, não quando o jogo pede contenção.

"Nas palavras do próprio Lorenzo em entrevistas anteriores ao torneio, o objetivo é ter uma equipe que seja difícil de ser batida antes de ser uma equipe que encante."

O que a RD Congo representa como obstáculo real

A seleção congolesa não é um adversário decorativo. Wan-Bissaka, Chancel Mbemba e Yoane Wissa atuam em ligas europeias de alto nível, e Cédric Bakambu tem histórico de gols em competições continentais africanas. O empate com Portugal — seleção que chegou ao torneio como uma das favoritas do Grupo K — demonstra capacidade real de organização defensiva e aproveitamento de contra-ataques.

A RD Congo retorna a uma Copa do Mundo após 52 anos de ausência, e o técnico Desabre construiu uma equipe que não joga para não perder — joga para surpreender. O esquema com cinco defensores na estreia, que incluiu Wan-Bissaka, Mbemba, Axel Tuanzebe, Steve Kapuadi e Arthur Masuaku na linha de trás, criou uma muralha que Portugal não conseguiu romper além do 1 a 1. Contra a Colômbia, a expectativa é que Desabre mantenha a estrutura compacta, apostando em Wissa e Bakambu para explorar os espaços que Muñoz e Mojica deixam nas subidas pelos lados.

"A RD Congo provou contra Portugal que pode competir com qualquer seleção deste grupo", avaliou a cobertura da ESPN antes do confronto, sintetizando o que os dados de desempenho defensivo do time africano já indicavam.

Classificação em jogo e o peso histórico de uma vaga

Uma vitória da Colômbia nesta terça-feira garante a classificação antecipada ao mata-mata, independentemente do resultado entre Portugal e Uzbequistão. Seria apenas a quarta vez na história que os colombianos avançam da fase de grupos em Copas do Mundo — as anteriores foram em 1990 (oitavas de final), 2014 (quartas de final) e 2018 (oitavas de final). A campanha de 2014, sob Pékerman, permanece como o melhor desempenho histórico da seleção, e Lorenzo sabe que superar esse marco exige, antes de tudo, não tropeçar nos jogos que são considerados ganháveis.

A arbitragem do confronto ficará a cargo do italiano Maurizio Mariani, com assistentes Daniele Bindoni e Alberto Tegoni, e VAR conduzido por Marco Di Bello — equipe com experiência em jogos de alta tensão na Europa. A transmissão no Brasil será pela CazéTV, disponível sem custo adicional no Disney+.

Carrascal entre o banco e a titularidade que o Flamengo conhece Lorenzo escala m
Carrascal entre o banco e a titularidade que o Flamengo conhece Lorenzo escala m

Se a Colômbia confirmar a classificação ainda nesta rodada, Lorenzo terá a terceira rodada do grupo para testar Carrascal como titular e calibrar o time para o mata-mata. A pergunta que fica é: se o técnico precisar virar um placar adverso no segundo tempo desta noite, Carrascal entra — e se ele decidir o jogo saindo do banco, Lorenzo terá pressão suficiente para colocá-lo no time titular nas oitavas de final?