Todo mundo sabe que a Argentina já está classificada. O que pouca gente parou para calcular é o preço silencioso que uma equipe paga quando decide, conscientemente, sair do ritmo de competição. Scaloni sabe disso. E é exatamente por isso que a decisão sobre a quinta-feira não é tão simples quanto parece.
Na manhã desta terça-feira, 23 de junho, o CT que abriga a Albiceleste na Copa do Mundo viu os titulares do triunfo sobre a Áustria — conquistado na segunda-feira, 22 — se dirigirem à academia para trabalho regenerativo. Quem treinou no campo foi o grupo alternativo, aquele que Scaloni cultiva com o mesmo cuidado que um jardineiro reserva para as mudas que ainda não floresceram. O sinal era claro: haverá rotação.
Os bastidores de uma escalação que mistura alívio e cautela
A expectativa, conforme apurado em matéria do SportNavo, é que a defesa argentina ganhe nova configuração. Gonzalo Montiel, Nicolás Otamendi, Marcos Senesi e Nicolás Tagliafico — este último recém-recuperado de lesão — devem formar a linha de quatro. No meio-campo, os nomes de Leandro Paredes, Exequiel Palacios e Ezequiel Barco circulam com mais consistência a cada hora que passa. No ataque, a expectativa aponta para Julián Álvarez e Nico González.
O único nome totalmente descartado é Cristian Cuti Romero. O zagueiro do Tottenham sofreu uma pancada no joelho direito durante o jogo contra a Áustria, saiu de campo aos 12 minutos do segundo tempo e foi substituído por Otamendi. Seu status para a fase eliminatória ainda gera preocupação na comissão técnica.
Segundo a comissão técnica argentina, Scaloni deve conversar diretamente com Lionel Messi para definir se o camisa 10 abre ou não o jogo contra a Jordânia. O capitão, que completa 39 anos em junho, tem o desejo declarado de iniciar todas as partidas que disputar nesta Copa — uma postura que mistura competitividade genuína com consciência de que cada minuto em campo pode ser um dos últimos numa fase de grupos de um Mundial.
Julián Álvarez na vitrine e o dilema de quem cresce na sombra de Messi
Quando Julián Álvarez joga com a liberdade que os titulares não permitem, ele revela camadas que o esquema titular frequentemente comprime. Quando joga como peça secundária ao lado de Messi, ele canaliza energia para criar espaço ao craque — e termina o jogo com estatísticas respeitáveis, mas invisíveis ao grande público.
O centroavante do Atlético de Madrid, que na temporada 2025/2026 consolidou sua condição de um dos melhores nove da Europa, precisa desta partida tanto quanto a partida precisa dele. Há na lógica do futebol de seleções um ciclo cruel: jogadores que não entram em ritmo de jogo durante a fase de grupos chegam ao mata-mata como espectadores bem-vestidos. Scaloni conhece esse risco de cor — foi assim que a Argentina de 2018 perdeu jogadores importantes para o peso da inatividade nos momentos decisivos.
No futebol, como diz o ditado, quem não tem cão caça com gato. A Argentina tem cachorros de raça no banco — e Scaloni precisa que eles também saibam caçar quando a hora chegar.
A mesa de decisão e o que o jogo contra a Jordânia realmente define
Nas eliminatórias e nos grupos de Copa, existe uma armadilha que times grandes frequentemente constroem para si mesmos: a gestão tão cirúrgica do elenco que, quando o mata-mata começa, ninguém além dos onze titulares está realmente afiado. A França de 2022 sofreu com isso. A Espanha de 2010 foi uma das poucas seleções a resolver o problema com profundidade real de banco.
Quando Scaloni opta por rodar o time, ele aposta que 90 minutos contra a Jordânia são suficientes para aquecer nomes como Paredes e Barco. Quando decide manter Messi em campo mesmo sem necessidade competitiva, ele reconhece que há um equilíbrio emocional no grupo que o camisa 10 sustenta só por estar presente.
Nas palavras do próprio Scaloni, em entrevista anterior ao torneio,
"O grupo está preparado. Temos jogadores que podem entrar e fazer a diferença em qualquer momento. Essa é a nossa força."A frase soa como protocolo de coletiva. Mas ela carrega uma responsabilidade concreta: se os reservas não confirmarem esse discurso contra a Jordânia, a pressão chegará ao mata-mata com uma pergunta sem resposta.
A Argentina enfrenta a Jordânia na última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo 2026. A partida define a posição final no grupo — e, consequentemente, o adversário nas oitavas de final. Classificada na liderança, a Albiceleste tem tudo para gerir o resultado com tranquilidade. O que Scaloni precisa garantir é que, ao final dos 90 minutos, seus reservas saiam do campo mais prontos do que entraram.








