— Você viu o que tá acontecendo com o Parreira?
— Vi. Fiquei mal. Esse cara é o tetra, meu.
— Não é só o tetra. É o cara que entendeu o futebol antes de todo mundo.

Essa conversa, repetida em botequins do Rio ao interior do Paraná neste sábado (27), diz mais sobre Carlos Alberto Parreira do que qualquer nota oficial. O Hospital Samaritano Barra, na zona Sudoeste do Rio, confirmou que o ex-técnico apresentou piora clínica decorrente de inflamação pulmonar e precisará ser submetido a um procedimento cirúrgico na via aérea superior. Parreira, internado na UTI desde 16 de junho, voltou a ser sedado e retomou a respiração com auxílio de aparelhos — uma reversão do quadro de melhora registrado em 23 de junho, quando ele já respirava de forma espontânea.

A batalha de Parreira dentro e fora do campo

O diagnóstico de linfoma de Hodgkin, confirmado em 2023, é o pano de fundo desta internação. O linfoma de Hodgkin é um câncer que se origina no sistema linfático e tem como característica a disseminação ordenada entre grupos de linfonodos — uma doença que, quando detectada em estágio avançado, exige tratamento prolongado e deixa o organismo vulnerável a complicações respiratórias, exatamente o quadro que hoje preocupa os médicos. Parreira tem 83 anos e, segundo o hospital, encontra-se estável no momento, embora sem previsão de alta.

Reparemos no detalhe que muitos esquecem: Parreira não apareceu do nada em 1994. Sua trajetória começou nos gramados do Fluminense nos anos 1970, quando atuou como preparador físico — a mesma função que exerceu na campanha do tricampeonato em 1970, ao lado de Zagallo e Mário Américo. Quatorze anos depois, em 1984, ele já era o técnico que conduziu o Tricolor Carioca ao segundo título do Campeonato Brasileiro da história do clube. São mais de cinco décadas de contribuição direta ao futebol nacional.

Como o tetra de 1994 redefiniu o futebol brasileiro

A Copa do Mundo de 1994 nos Estados Unidos foi, do ponto de vista tático, uma ruptura. Parreira abandonou o romantismo do 4-2-4 que encantou o mundo em 1970 e o arrojo do 4-3-3 de 1982 — seleção de Zico, Sócrates e Falcão que perdeu para a Itália por 3 a 2 numa das maiores tragédias do futebol brasileiro — e apostou em equilíbrio. A base era sólida: Taffarel no gol, Marcio Santos e Aldair na zaga, Mazinho e Mauro Silva no meio como escudeiros, e Romário e Bebeto na frente, com 9 gols combinados no torneio.

O Brasil passou por seis jogos sem sofrer derrota: 2 a 0 na Rússia, 3 a 0 no Camarões, 1 a 1 com a Suécia na fase de grupos, 1 a 0 nos Estados Unidos nas oitavas, 3 a 2 na Holanda nas quartas e 1 a 0 na Suécia na semifinal. A decisão contra a Itália, em Pasadena, terminou 0 a 0 após prorrogação e o Brasil venceu nos pênaltis por 3 a 2 — Baggio chutou para fora e a espera de 24 anos chegou ao fim. Parreira havia construído uma seleção que priorizava não perder antes de querer ganhar. À época, foi criticado. Com o tempo, virou referência.

"Parreira entendeu que o futebol moderno exigia equilíbrio antes de beleza. E foi ele quem trouxe isso para o Brasil antes de qualquer outro técnico nacional."

Nenhum técnico brasileiro havia comandado o país em oito edições de Copa do Mundo em funções distintas. Em 1982, Parreira estava no banco do Kuwait. Em 1990, dos Emirados Árabes. Em 1998, da Arábia Saudita. Em 2006, voltou ao Brasil e chegou às quartas de final, eliminado pela França de Zidane por 1 a 0. Em 2010, comandou a África do Sul, o país-sede. Em 2014, foi coordenador técnico da Seleção. Oito Copas. Dois títulos — 1970 como preparador, 1994 como técnico. Não existe currículo comparável no futebol brasileiro.

O legado que permanece enquanto o Brasil torce pela recuperação

A influência de Parreira no futebol brasileiro vai além dos troféus. Sua gestão de grupo em 1994 — equilibrando egos como os de Romário e Mazinho, administrando a pressão de uma nação que não vencia a Copa desde 1970 — tornou-se estudo de caso em cursos de treinadores. A ideia de que uma seleção campeã precisa primeiro ser difícil de ser batida, para depois ser irresistível no ataque, ecoou em Luiz Felipe Scolari em 2002 e ressurge nos debates táticos atuais sobre a seleção de Carlo Ancelotti.

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Parreira também deixou marca nos clubes. Além do Brasileiro de 1984 pelo Fluminense, passou por Corinthians, São Paulo, Atlético-MG e Santos ao longo de décadas. Sua última passagem pelo Fluminense foi em 2009. São histórias que pertencem a pelo menos três gerações de torcedores.

"Em 1994, todo mundo falava que o Brasil jogava feio. Mas era o Brasil que estava levantando a taça", disse Parreira em entrevista concedida anos após o título, resumindo sua filosofia com a objetividade de quem nunca precisou se justificar pelo resultado.

O Brasil inteiro torce agora por uma recuperação que vai além do futebol. Parreira está estável, segundo o Samaritano Barra, mas a cirurgia na via aérea superior programada para este sábado é um passo delicado num quadro que oscilou rapidamente nos últimos dias. Para quem quiser acompanhar a evolução do estado de saúde, os boletins médicos têm sido divulgados diretamente pelo hospital — vale acompanhar as atualizações nas próximas horas, quando os resultados do procedimento devem ser comunicados à imprensa.