A última vez que o Brasil chegou a uma Copa do Mundo sem ser apontado como favorito absoluto foi em 2010 — e mesmo assim, com Dunga no comando, a seleção entrou na África do Sul com o terceiro melhor coeficiente da FIFA. Agora, às vésperas da estreia contra Marrocos, no dia 13 de junho, em East Rutherford, o Brasil de Carlo Ancelotti ocupa a quarta posição no ranking probabilístico elaborado pela XP Investimentos, com apenas 6% de chances de levantar a taça. A França lidera com 9%, seguida de Espanha (6,4%) e Argentina (6,1%).
O que as 10 mil simulações da XP revelam sobre o Brasil
A metodologia da XP não é arbitrária. O estudo analisou mais de 3.300 partidas entre seleções nacionais — incluindo Copas anteriores, eliminatórias e competições continentais — para construir um modelo de desempenho capaz de identificar padrões de força e imprevisibilidade. Após rodar 10 mil simulações do torneio, o resultado foi consistente: o Brasil aparece em quarto lugar entre os candidatos ao título, com a Alemanha (5,9%) logo atrás.
O modelo, porém, reserva um dado interessante: o Brasil tem a maior probabilidade entre todas as seleções de alcançar as quartas de final, com 39,2%. A partir daí, as chances caem progressivamente — 19,7% nas semifinais, 10,1% na final e 6,0% no título. Caso chegue à decisão, entretanto, a seleção teria 59% de probabilidade de vencer o jogo, o segundo maior índice do torneio, atrás apenas da França. O gargalo, segundo a simulação, está exatamente nas quartas de final.
Esse padrão não é novo para quem acompanha a história recente do Brasil em Mundiais. De 2006 a 2022, a seleção foi eliminada nas quartas em três das cinco participações — 2006 (França, 1 a 0), 2010 (Holanda, 2 a 1) e 2022 (Croácia, nos pênaltis após empate em 1 a 1). A Copa de 2014, com o 7 a 1 sofrido da Alemanha na semifinal, e a de 2018, com a derrota para a Bélgica por 2 a 1 nas quartas, completam um ciclo de 16 anos sem passar das semifinais.
Bruno Guimarães e o argumento das cinco estrelas
Em entrevista coletiva nesta segunda-feira (8), no hotel The Ridge, em Basking Ridge, Nova Jersey, Bruno Guimarães foi direto ao confrontar as projeções externas. Questionado sobre a declaração de Hugo Sánchez — lenda do futebol mexicano que colocou o Brasil em sexto lugar entre os favoritos e criticou a escolha por Ancelotti —, o volante do Newcastle não recuou:
"Muita gente faz coisa para aparecer. O Brasil, em qualquer competição que vai, é um dos favoritos. Ninguém tem cinco estrelas no peito, a gente sabe que isso não entra em campo."
O argumento das cinco estrelas é historicamente correto, mas estatisticamente insuficiente para o debate atual. O Brasil soma cinco títulos mundiais: 1958 (Suécia), 1962 (Chile), 1970 (México), 1994 (Estados Unidos) e 2002 (Coreia/Japão). A Argentina, atual campeã com o título de 2022 no Qatar, tem três. A França tem dois. A Espanha, um. Mas o que o modelo da XP mede não é o passado — mede a forma recente, o coeficiente atual e os padrões de desempenho nas eliminatórias. Nesse recorte, a seleção brasileira não apresenta os mesmos índices de consistência ofensiva e defensiva que França e Espanha.
Bruno Guimarães também fez campanha, na mesma entrevista, pela manutenção de Lucas Paquetá no meio-campo, após a vitória por 2 a 1 sobre o Egito, em Cleveland, no último sábado (6). O volante comparou o esquema com três meias à formação com apenas dois utilizada no triunfo por 6 a 2 sobre o Panamá, no Rio de Janeiro, no dia 31 de maio.
"Na nossa dinâmica, ter um jogador a mais no meio foi muito interessante. Teve mais dinâmica de um-dois, tivemos chances para marcar mais gols, pecamos para aproveitar."
Hugo Sánchez, o simulador da Folha e o peso do ceticismo externo
Hugo Sánchez não é o único voz dissonante. Colunistas da Folha de S.Paulo fizeram simulações manuais dos 72 jogos da Copa do Mundo — torneio que pela primeira vez reúne 48 seleções, com uma fase eliminatória extra — e chegaram a conclusões distintas. Em ao menos um exercício publicado, o Brasil foi campeão, superando Suécia, Noruega, Inglaterra e Argentina até a decisão. O caminho traçado colocava a seleção frente à Suécia nos dezesseis-avos: adversário que o Brasil nunca derrotou menos do que ampla maioria das vezes, com cinco vitórias e dois empates em sete encontros em Mundiais.
A diferença entre a simulação manual e o modelo probabilístico da XP está na metodologia. O exercício da Folha é narrativo e intuitivo — parte de premissas como "a defesa da Inglaterra vai entregar" ou "o calor em Dallas beneficia o Brasil". O modelo da XP processa 3.300 partidas reais e distribui probabilidades estatísticas a cada confronto. São ferramentas distintas para perguntas distintas. Uma conta uma história possível; a outra calcula a frequência com que cada desfecho ocorre em dez mil histórias simultâneas.
O que une os dois exercícios é o reconhecimento de que o Brasil pode chegar longe — mas que o caminho até a taça passa por obstáculos concretos, especialmente a partir das quartas de final. Publicado em análise do SportNavo, o debate sobre o favoritismo brasileiro nesta Copa tem como pano de fundo exatamente essa tensão: entre a grandeza histórica da seleção e os dados que colocam França e Espanha à frente no momento presente.
O que os números de 2026 dizem sobre as chances reais do Brasil
Seria injusto chamar de crise o momento da seleção — mas é uma irregularidade em escala suficiente para justificar o quarto lugar no ranking da XP. Os amistosos recentes oscilaram entre a goleada por 6 a 2 sobre o Panamá e a vitória apertada por 2 a 1 sobre o Egito, time que não figura entre as 30 primeiras do ranking FIFA. A dupla de zaga formada por Marquinhos e Gabriel Magalhães ainda não foi testada contra um ataque de alto calibre. E o meio-campo, mesmo com a presença de Bruno Guimarães e Casemiro, carece do perfil de "ritmista" que o próprio ex-técnico Tite identificava como ausência recorrente.
A França de Deschamps, por sua vez, tem Mbappé em forma e uma estrutura tática que combinou defesa sólida com transições rápidas nas últimas três grandes competições. A Espanha de De la Fuente vem de um título na Eurocopa de 2024 com o índice de posse mais alto do torneio. A Argentina de Scaloni mantém o núcleo que foi campeão mundial em 2022, com Messi ainda em atividade e Di María substituído por um sistema coletivo mais maduro. O Brasil tem Vinicius Jr. e Raphinha brilhando nos maiores clubes do mundo — mas a diferença entre ter grandes jogadores e ter um sistema consolidado é exatamente o que as simulações tentam capturar.
É o mesmo cenário que a seleção viveu em 2006, quando chegou à Alemanha com Ronaldo, Ronaldinho e Adriano no ataque e caiu para a França de Zidane nas quartas, por 1 a 0 — só que agora a aposta é diferente: o técnico é europeu, o esquema ainda está sendo definido a quatro dias da estreia, e o Brasil joga sua primeira partida no sábado (13), às 19h (de Brasília), diante de Marrocos, em East Rutherford.








