A última vez que Raphael Claus esteve no centro de uma polêmica nacional de arbitragem com repercussão comparável foi na final da Copa Libertadores de 2023, quando conduziu o duelo entre Fluminense e Boca Juniors no Maracanã diante de 70 mil pessoas. Desta vez, o palco foi bem menor — Atlético-MG contra CRB pela Copa do Brasil —, mas a controvérsia gerada pelo pênalti que ele marcou aos 41 minutos do primeiro tempo ganhou proporção nacional graças à análise precisa do ex-árbitro e comentarista Paulo César de Oliveira.
O lance que dividiu o Atlético-MG e o CRB na Copa do Brasil
O jogo seguia com o CRB vencendo por 2 a 0 quando Alan Franco, zagueiro do Botafogo cedido ao Atlético-MG, disputou a bola dentro da área e caiu após contato com o adversário. Raphael Claus, depois de hesitar visivelmente, assinalou penalidade máxima. Paulinho foi à cobrança e converteu, diminuindo para 2 a 1. No segundo tempo, Gustavo Scarpa empatou e o Galo chegou a marcar o terceiro gol, mas o VAR anulou o lance — o que gerou mais debate sobre a atuação da arbitragem ao longo de toda a partida.
O pênalti marcado por Claus foi mantido pela revisão do VAR, mas a decisão não passou incólume pela análise técnica de Paulo César de Oliveira, referência em arbitragem no Brasil há mais de duas décadas como ex-árbitro FIFA e hoje consultor do Grupo Globo.
PC Oliveira aponta inconsistência no critério de Raphael Claus
No programa Troca de Passes, do SporTV, PC Oliveira foi categórico ao expor o que considera um desvio de padrão do árbitro paulista. A crítica não foi apenas ao lance em si, mas à incoerência com o perfil historicamente permissivo de Claus em situações de contato físico.
"O Claus teve um critério diferente do que ele adota em campo. Tem o contato, mas na minha opinião, o Alan Franco força essa queda. Não vejo um contato para marcação de pênalti. Ele demora para apitar e não marca com convicção", afirmou PC Oliveira.
A demora no apito, citada pelo comentarista, é um dado relevante do ponto de vista técnico. Em arbitragem moderna, o tempo de reação do árbitro principal é monitorado como indicador de convicção na decisão. Quando o árbitro hesita, abre espaço para que o VAR intervenha com mais peso — o que não aconteceu neste caso, já que a tecnologia referendou a marcação original.
"Foi uma decisão respeitada pelo VAR, mas para mim, teve uma valorização do Alan Franco. Não vejo impacto para pênalti, principalmente pelo critério que o Claus usa para apitar. Ele permite muito contato. Não marcou com a segurança costumeira", completou o ex-árbitro.
Errou. Essa é a conclusão de PC Oliveira, ainda que o VAR não tenha corrigido o lance — o que, por si só, abre outro debate sobre os limites da tecnologia no futebol brasileiro.
Um padrão que se repete no Brasileirão e na Copa do Brasil
A análise de PC Oliveira sobre o duelo Atlético-MG x CRB não é um episódio isolado nesta temporada. Segundo apuração do SportNavo, o comentarista também se debruçou sobre pelo menos dois outros pênaltis polêmicos nas últimas semanas: o lance de Matheus Martins no confronto entre Grêmio e Botafogo, pela 16ª rodada do Campeonato Brasileiro, e uma reclamação de penalidade na partida entre Internacional e Palmeiras.
No caso do jogo entre Grêmio e Botafogo, o árbitro Lucas Paulo Torezin não havia marcado nada em campo, mas foi chamado pelo VAR, comandado por Ilbert Estevam da Silva, e reverteu a decisão. PC Oliveira defendeu a marcação naquela ocasião, argumentando que a imagem de trás do gol revelou a mão esquerda de Matheus Martins aberta, ampliando o espaço do corpo — critério técnico consagrado nas regras do jogo desde a atualização da IFAB em 2019. A diferença de postura entre os dois casos ilustra exatamente o ponto central da crítica ao lance de Claus: não é o contato que define o pênalti, mas a consistência do critério aplicado.
No Brasileirão, a discussão sobre uniformidade de critérios entre os árbitros se arrasta desde pelo menos 2014, quando a CBF implantou o programa de desenvolvimento de árbitros em parceria com a FIFA. Doze anos depois, a percepção de que cada árbitro carrega seu próprio manual de bolso ainda domina o debate especializado.
O VAR como escudo e como espelho da arbitragem brasileira
O episódio do pênalti de Claus expõe uma tensão estrutural no uso do VAR no futebol brasileiro. A tecnologia foi concebida para corrigir erros claros e óbvios — não para ratificar decisões dúbias. Quando o sistema referenda um lance que o próprio árbitro marcou sem convicção, como descreveu PC Oliveira, o VAR deixa de ser ferramenta de correção e passa a funcionar como chancela institucional de uma decisão questionável.
Na Copa do Brasil de 2026, a arbitragem já acumulou polêmicas em rodadas consecutivas, com lances anulados pelo VAR nos minutos finais — como o terceiro gol do Atlético-MG neste mesmo jogo — e pênaltis que dividem especialistas. O modelo de transparência adotado por outras ligas, como a Premier League, que disponibiliza áudios de comunicação entre árbitro e VAR, ainda é uma demanda não atendida pela CBF no Brasil.
O Atlético-MG volta a campo pela Copa do Brasil na próxima rodada precisando administrar a classificação após a virada sobre o CRB — placar final de 3 a 2 pelo clube mineiro. Raphael Claus tem 44 anos e soma mais de 15 anos de carreira em jogos de alto nível; a longevidade não o isenta, como mostrou PC Oliveira, de inconsistências pontuais que pesam justamente porque o padrão geral é elevado.










