Confesso: eu errei sobre Philippe Montanier em 2024. Quando seu nome voltou a circular nos corredores do futebol francês, meu reflexo foi o de quem carrega décadas de cobertura europeia como filtro — um nome familiar demais para provocar entusiasmo, experiente de mais para ser novidade, equilibrado demais para virar manchete. Hoje, acompanhando o que ele constrói no Auxerre, vejo o porquê do erro: confundi discrição com mediocridade, e solidez com falta de ambição.
O momento em que tudo balançou
Há um tipo de clube no futebol europeu — e o Auxerre é um deles — que carrega uma identidade histórica desproporcional ao seu tamanho atual. O AJA de Guy Roux dominou ciclos inteiros da Ligue 1 nas décadas de 1980 e 1990 com uma coerência de projeto que rivalizava com o que Lyon construiria nos anos 2000. Quando Montanier assumiu o comando, ele herdou não apenas um plantel — herdou o peso de um passado que a torcida nunca deixou de cobrar. Esse é o tipo de pressão silenciosa que destrói treinadores que não sabem separar herança de missão.
O momento de maior turbulência não foi um resultado isolado. Foi a sensação, que se instalou em determinado trecho da temporada 2025/2026, de que o time oscilava entre identidade e improvisação — às vezes jogando com a organização que Montanier preza, às vezes reagindo ao adversário sem um fio condutor claro. Nessas horas, o banco de reservas diz mais sobre um treinador do que qualquer prancheta: Montanier — que completou 61 anos em novembro passado — optou por manter a estrutura em vez de ceder ao pânico das substituições precoces, apostando que o sistema precisava de tempo, não de cirurgia de emergência.
O que ele mudou imediatamente
A resposta de Montanier à instabilidade foi cirúrgica em dois sentidos. Primeiro, ele reduziu a variação posicional dentro de semanas — algo que treinadores inseguros costumam fazer ao contrário, multiplicando experimentos quando o resultado aperta. Segundo, e isso é o que distingue um técnico de carreira longa de um recém-chegado ao cargo, ele mexeu no comportamento defensivo sem transição de bola, ajustando a altura do bloco sem alterar o esquema nominal. É uma decisão de banco que o torcedor raramente percebe, mas que muda o ritmo do jogo de forma estrutural.
Essa capacidade de intervir no detalhe sem desmontar o todo tem raízes em uma trajetória que, mesmo com dados limitados para reconstituição completa, revela um padrão: Montanier não é um treinador de ruptura. Ele é um treinador de ajuste fino — o tipo que funciona melhor quando o clube já tem uma cultura mínima instalada e precisa de alguém que saiba onde apertar o parafuso sem trocar o motor. Comparativamente, lembro de como Ottmar Hitzfeld fazia isso no Bayern dos anos 2000: não reinventava o clube a cada crise, calibrava.
A lógica tática que organiza tudo
Montanier trabalha, de maneira consistente, com estruturas que privilegiam largura no ataque e compactação no médio campo — um equilíbrio que exige disciplina posicional dos extremos e inteligência dos meias para cobrir espaços em transição. Não é um futebol de posse pela posse, tampouco um futebol de pressão alta como o que Klopp popularizou na última década. É, para usar um paralelo histórico que me parece preciso, algo próximo do que Didier Deschamps construiu no Marselha no começo dos anos 2000: funcional, difícil de desmontar, pouco espetacular para os olhos desatentos.
Como o time respondeu à mudança
A resposta do elenco foi — e isso importa mais do que qualquer esquema — de confiança crescente. Há um termômetro simples para medir se um treinador ganhou o vestiário: o time joga com a mesma identidade quando está perdendo e quando está vencendo. Um grupo que abandona o sistema ao primeiro gol sofrido é um grupo que não acredita no método; um grupo que mantém a postura é um grupo que foi convencido. No Auxerre de Montanier, a leitura que se faz das partidas recentes aponta para o segundo caso.
Há algo de particular na gestão de elenco que Montanier pratica — diferente, por exemplo, do que se via em treinadores da mesma geração que apostavam em hierarquia rígida de titulares. Ele parece trabalhar com o conceito de rotação por confiança: o jogador que entra não é o reserva que substitui o titular, é o jogador que o sistema demanda naquele momento. Essa distinção pode parecer semântica, mas muda a dinâmica do vestiário de forma concreta. Ninguém se sente descartado, e ninguém se sente insubstituível — o que, em um clube de orçamento limitado como o Auxerre, é um ativo tão valioso quanto qualquer contratação.

O que ficou de aprendizado para ele
Treinadores que chegam à sexta década de vida ainda ativos no futebol de alto nível — e Montanier é um deles — carregam uma característica que raramente aparece nas análises táticas: eles aprenderam a perder sem se perder. A pressão da Ligue 1 de 2025/2026, com o PSG consolidado no topo e clubes como Nice e Lille disputando os lugares europeus, empurra os times do meio da tabela para um território de sobrevivência constante. Nesse contexto, o aprendizado de Montanier parece ser o de que consistência supera inspiração — que uma campanha construída em pontos conquistados com método vale mais, a longo prazo, do que picos de resultado seguidos de colapso.
Esse é, historicamente, o tipo de treinador que os clubes franceses fora do eixo Paris-Lyon precisam — e raramente conseguem reter. Lembro de como o Auxerre da era Roux sustentou décadas de Ligue 1 justamente porque o método era mais forte do que qualquer jogador. Montanier não é Roux, e ninguém deveria esperar que fosse. Mas a lógica organizacional que ele aplica — sistema acima de talento individual, estabilidade acima de experimentação constante — ecoa algo daquela filosofia que fez do clube borgonhês uma referência continental.
O que ele deixa como legado imediato, independentemente de onde a temporada terminar, é a prova de que um treinador experiente, sem o brilho de uma contratação midiática, pode devolver identidade a um clube que havia perdido o fio da própria história. Isso não é pouca coisa — em um futebol europeu que frequentemente confunde novidade com qualidade, é, na verdade, uma raridade.
Se o Auxerre conseguir confirmar a permanência na Ligue 1 ao final desta temporada com Montanier no comando, a pergunta que fica é concreta: você acredita que o clube vai renovar com ele e apostar em um projeto de dois ou três anos, ou vai ceder à tentação de buscar um nome mais chamativo assim que a missão imediata estiver cumprida?












