"Não precisamos discutir substitutos porque Max está aqui." A frase, atribuída ao chefe de equipe Laurent Mekies em conversas no paddock de Miami, soou mais como gerenciamento de crise do que convicção real — porque, ao mesmo tempo em que a Red Bull sustentava a narrativa oficial, múltiplas fontes confirmavam ao Motorsport.com que Oscar Piastri já foi identificado internamente como o nome preferido para substituir Max Verstappen, caso o tetracampeão decida encerrar seu vínculo com a equipe austríaca após 2027.

O que a Red Bull viu em Piastri que ainda não é óbvio para o mercado

A escolha de Piastri não é aleatória. O australiano de 24 anos acumula, em sua primeira temporada e meia completa na McLaren, uma consistência que poucos pilotos exibiram nessa fase da carreira — incluindo dados de telemetria que impressionam engenheiros rivais: entradas de curva com frenagem tardia e manutenção de velocidade mínima que rivalizam com os melhores índices do grid. No GP do Japão de 2025, Piastri terminou a 1,8 segundo de Verstappen após gerenciar pneus médios por 34 voltas sem degradação acima de 0,04 segundo por volta — um número que a maioria dos engenheiros de pit wall considera excepcional para um piloto com menos de três anos na categoria.

Chasing The Dream | 2026 Miami Grand Prix | F2 Behind The Scenes

Para entender o tamanho do que está sendo cogitado, basta olhar para o que aconteceu quando a Williams contratou Nigel Mansell em 1985 — um piloto que o mercado subestimava e que, ao encontrar o carro certo, venceu 9 corridas em uma única temporada dois anos depois. A Red Bull parece estar fazendo a mesma leitura sobre Piastri: o talento está lá, falta apenas o ambiente técnico que o maximize.

O obstáculo contratual existe, mas não é intransponível. Piastri foi formado pela Academia Alpine, o que historicamente implica cláusulas de preferência — as mesmas que a McLaren navegou com habilidade em 2022 para contratá-lo. Segundo apuração do SportNavo, a Red Bull avalia que, dependendo do desfecho da temporada 2026 e das negociações com Verstappen, uma janela de movimentação pode se abrir antes do prazo que o mercado imagina.

Verstappen sob contrato, mas o paddock não acredita no roteiro oficial

Max Verstappen tem contrato com a Red Bull até o final de 2027 — isso é fato documentado. O que circula nos bastidores de Miami, porém, é que o holandês de 28 anos avalia seu futuro com um pragmatismo que vai além do vínculo assinado. A Red Bull de 2026 ainda busca o equilíbrio aerodinâmico que o novo regulamento técnico exige, e Verstappen — acostumado a ter o carro mais rápido do grid entre 2022 e 2024 — demonstra sinais de impaciência que pessoas próximas à equipe descrevem como "diferente do que víamos há dois anos".

Oliver Mintzlaff, CEO do grupo Red Bull, participou de conversas em Miami que, segundo fontes ouvidas pelo Motorsport.com, incluíram avaliações sobre o plantel de pilotos para além de 2027. A presença do executivo nessas discussões — normalmente reservadas ao lado esportivo da operação — indica que a decisão sobre o futuro do cockpit já subiu de nível hierárquico dentro da organização.

"Queremos avaliar esta medida em um fim de semana real, com todas as equipes na pista. Um teste é uma situação controlada, mas a competição oferece uma visão muito mais completa." — Simone Berra, engenheiro-chefe da Pirelli

A Pirelli em Miami e o laboratório invisível que ninguém discutiu

Enquanto o paddock fervia com rumores sobre pilotos, a Pirelli conduzia em Miami um experimento técnico que passará a influenciar o regulamento de pneus da F1 nos próximos anos. A fornecedora italiana elevou a temperatura dos cobertores térmicos dos pneus intermediários de 60°C para 70°C — uma resposta direta ao feedback de pilotos sobre dificuldades de aquecimento da borracha em condições de pista molhada.

O que a Red Bull viu em Piastri que ainda não é óbvio para o mercado Piastri na
O que a Red Bull viu em Piastri que ainda não é óbvio para o mercado Piastri na

O timing não foi coincidência. Miami foi escolhida pela constante ameaça de chuva durante o fim de semana, o que criava o cenário ideal para coletar dados representativos. Os únicos testes anteriores com compostos de chuva — em Barcelona na pré-temporada, em Fiorano e no Japão — ocorreram em condições de temperatura baixa ou sessões isoladas, longe do ambiente competitivo que gera dados realmente úteis. A corrida de domingo aconteceu com pista seca, mas as sessões anteriores forneceram leituras suficientes para a Pirelli avançar na análise.

Os testes em Miami também ocorreram em paralelo a outras alterações técnicas voltadas para 2026, incluindo a redução da potência do MGU-K de 350 kW para 250 kW e a eliminação do sistema de boost — mudanças que alteram o comportamento dos pneus em aceleração e, consequentemente, o perfil de desgaste. Simone Berra não descartou elevar os cobertores a 80°C em etapas futuras, mas optou por cautela nesta primeira fase de coleta.

O efeito cascata no mercado de pilotos para 2027

Se Piastri deixar a McLaren — seja para a Red Bull ou por qualquer outro movimento de mercado —, a reação em cadeia seria imediata. A equipe de Woking precisaria de um nome à altura para manter a competitividade construída desde 2023, e o mercado disponível para 2027 não é vasto: Lando Norris está contratado, Charles Leclerc tem vínculo de longo prazo com a Ferrari, e nomes da nova geração — como Gabriel Bortoleto na Sauber/Audi — ainda acumulam experiência na categoria.

A movimentação em torno de Piastri também pressiona Sergio Pérez, que divide o cockpit da Red Bull com Verstappen e cuja permanência em 2027 já era questionada antes de qualquer rumor envolvendo o australiano. Com a equipe austríaca potencialmente remodelando toda a sua filosofia de dupla de pilotos, o cenário competitivo da F1 pode chegar a 2027 com uma redistribuição de talentos que não se via desde a grande migração de 2014 — quando Hamilton foi para a Mercedes, Alonso voltou para a McLaren e Button ficou sem assento competitivo. A próxima rodada de negociações formais, segundo fontes do paddock, deve ganhar contornos mais definidos até o GP da Grã-Bretanha, em julho.