Diz-se que o Milan sabe contratar técnicos de alto nível. Na verdade, o clube rossonero acumula três trocas de comando em menos de 24 meses — e o histórico de salários e rescisões pagas nesse período ultrapassa €40 milhões só em indenizações contratuais. O número importa quando se coloca Mauricio Pochettino na equação.

Na manhã desta quinta-feira, 28 de maio de 2026, Pochettino foi visto em um hotel de luxo em Milão acompanhado por seus representantes e por diretores do clube. A informação foi divulgada pela ESPN. O argentino, que atualmente comanda a seleção dos Estados Unidos, acumula 13 vitórias, 7 empates e 2 derrotas à frente dos norte-americanos desde setembro de 2024.

O que levou o Milan a buscar Pochettino após Allegri

Massimiliano Allegri foi desligado do Milan após uma temporada marcada por altos e baixos que culminou com o clube fora da zona de classificação para a Champions League. Para a diretoria rossonera, a ausência da principal competição europeia representa uma perda estimada entre €60 milhões e €80 milhões em receitas de TV e premiações.

O perfil buscado pelo Milan é específico: um treinador com experiência em grandes ligas europeias e capacidade comprovada de desenvolver jovens talentos. Pochettino se encaixa nesse recorte. No Tottenham, entre 2014 e 2019, o argentino levou o clube a uma final de Champions League em 2019 com orçamento de elenco inferior ao de rivais como Manchester City e Liverpool. No PSG, entre 2021 e 2022, gerenciou um elenco avaliado em mais de €800 milhões sem conseguir título expressivo — o que também é parte do currículo.

Segundo fontes próximas às negociações, o salário anual proposto ao técnico gira em torno de €8 milhões brutos, com contrato de dois anos e cláusula de rescisão estimada em €5 milhões. Valores que ficam abaixo dos €10 milhões anuais pagos a Allegri em sua última passagem pela Juventus, mas compatíveis com o atual momento financeiro do Milan.

Brasileiros na Itália e as lições que o calcio ainda não absorveu

Reparemos no detalhe: a trajetória de brasileiros no futebol italiano, seja como jogadores ou como gestores, oferece um roteiro de adaptação que Pochettino faria bem em estudar antes de assinar qualquer contrato.

Felipe Luís, campeão da Copa do Mundo de Clubes com o Flamengo em 2025, iniciou sua carreira profissional na Europa pela Itália, passando pela Udinese entre 2007 e 2010. O lateral cearense aprendeu rapidamente que o calcio exige paciência tática e uma relação diferente com a imprensa local — dois fatores que, segundo ele mesmo declarou em entrevista ao portal GE em 2023, "levaram pelo menos dois anos para eu entender completamente".

"A Itália te ensina a defender antes de atacar. É um futebol de posicionamento, de leitura. Quem chega querendo impor um estilo diferente sem conhecer essa cultura, sofre", disse Felipe Luís em entrevista ao GE, em referência à sua passagem pela Udinese.

O caso de Felipe Luís não é isolado. Ronaldo Fenômeno chegou à Inter de Milão em 1997 por €27 milhões — recorde mundial na época — e enfrentou resistência da comissão técnica italiana ao seu estilo de jogo individualista. Mesmo sendo o melhor jogador do mundo naquele período, precisou ajustar a leitura tática ao esquema do técnico Luigi Simoni. A Inter chegou à final da Copa da UEFA naquela temporada.

Mais recentemente, o contexto de Thiago Silva na capital italiana entre 2009 e 2012, no Milan, é citado por analistas do SportNavo como exemplo de como um brasileiro conseguiu absorver a rigidez defensiva italiana sem perder as características de saída de bola que o destacavam. Silva foi eleito melhor defensor da Serie A em 2011 e 2012.

O que Pochettino precisa entender antes de entrar em campo em San Siro

A principal diferença entre o estilo de jogo que Pochettino aplicou no Tottenham — pressing alto, transições rápidas, liberdade posicional para meias — e o ambiente tático italiano é estrutural. A Serie A da temporada 2025/2026 registrou a menor média de gols por jogo entre as cinco grandes ligas europeias: 2,51 por partida, contra 2,83 na Premier League e 2,78 na La Liga, segundo dados da UEFA.

O elenco atual do Milan tem valor de mercado estimado em €520 milhões pelo Transfermarkt, com destaque para jogadores como Rafael Leão, avaliado em €80 milhões, e Tijjani Reijnders, em €65 milhões. Ambos se encaixam no perfil de atletas que Pochettino historicamente conseguiu potencializar — jovens com alto teto técnico que precisam de estrutura tática clara.

"Pochettino nunca escondeu o desejo de voltar a trabalhar no futebol europeu, principalmente na Premier League", destacou a ESPN ao noticiar a reunião em Milão.

A frase da ESPN revela um ponto de atenção real: o Milan pode estar contratando um técnico com o coração em outro endereço. Não seria inédito. Carlo Ancelotti assinou com o Everton em 2019 enquanto negociava com o Real Madrid, clube que assumiu menos de dois anos depois. A diferença é que Ancelotti conhecia a Itália de dentro — foi jogador e técnico do Milan por mais de uma década.

O desafio numérico que define o projeto rossonero

Para Pochettino, o Milan representa um projeto com prazo definido. A diretoria italiana, liderada pelo fundo RedBird Capital — que adquiriu o clube por €1,2 bilhão em 2022 — estabeleceu como meta o retorno à Champions League na temporada 2026/2027. Isso significa que o argentino terá, no máximo, uma janela de transferências de verão e uma de inverno para reformular o elenco antes de a pressão por resultado se tornar insuportável.

O histórico de brasileiros no calcio mostra que a adaptação ao ambiente italiano raramente acontece antes de seis meses. Pochettino terá exatamente 38 rodadas da Serie A para provar que aprendeu essa lição mais rápido do que qualquer brasileiro antes dele. O argentino completa 55 anos em março de 2027 — e o contrato proposto pelo Milan termina exatamente nessa janela.