Se a renovação de Mauricio Pochettino com a seleção dos Estados Unidos não tivesse saído, o futebol americano chegaria à Copa de 2030 sem o arquiteto do único ciclo que, nos últimos quatro anos, conseguiu transformar uma federação historicamente dispersa em algo que começa a se parecer com um projeto. A dúvida se dissipou nesta segunda-feira (3): Pochettino assinou a extensão de contrato e permanece no cargo até o encerramento do ciclo de 2030, com funções que ultrapassam a linha técnica.
A Copa do Mundo de 2026 — disputada em solo americano — foi o termômetro imediato. Os resultados de Pochettino à frente dos Stars and Stripes foram irregulares no começo: eliminação para o Panamá na Copa dos Campeões da Concacaf e vice-campeonato da mesma competição no ano anterior, com derrota para o México em casa. No Mundial, a seleção venceu Paraguai e Austrália com margem suficiente para liderar o grupo, depois despachou a Bósnia nas oitavas — mas caiu de forma contundente diante da Bélgica, por 4 a 1, em Seattle. Ciclo encerrado com um oitavo de final. Ainda assim, a federação viu algo mais valioso do que o resultado pontual: uma estrutura em construção.
O que Pochettino passa a fazer além de comandar a seleção principal
A renovação até 2030 não é apenas uma extensão de contrato — é uma redefinição de escopo. Segundo informações da federação americana, o argentino passará a atuar no desenvolvimento do futebol nos Estados Unidos de forma mais ampla, com envolvimento direto na formação de jogadores jovens, na capacitação de técnicos locais e no diálogo com as ligas domésticas. Trata-se de um modelo híbrido que algumas federações europeias já adotam há décadas, mas que a US Soccer nunca havia formalizado com um treinador de perfil tão alto.
A influência de Pochettino nos bastidores da federação já havia se materializado antes mesmo da renovação. Foi ele quem respaldou a contratação de Steve Cherundolo — campeão da MLS pelo LAFC — como técnico da seleção olímpica para o ciclo de Los Angeles 2028. A escolha de Cherundolo não é trivial: o ex-lateral direito tem familiaridade com o modelo europeu de formação (atuou por mais de uma década no Hannover 96, da Bundesliga) e, ao mesmo tempo, entende a dinâmica da MLS. A combinação é exatamente o tipo de perfil que a US Soccer precisava para a geração que vai disputar os Jogos em casa.
"Queríamos alguém que conhecesse o DNA do futebol americano, mas que trouxesse referências de fora", afirmou a federação ao anunciar Cherundolo — uma frase que resume, com clareza, o critério de Pochettino para a indicação.
O futebol dos EUA entre a Copa de 2026 e o ciclo de 2030
A Copa do Mundo de 2026 gerou para os Estados Unidos uma receita estimada de 5 bilhões de dólares em impacto econômico direto nas cidades-sede americanas, segundo projeções da FIFA. O futebol masculino profissional no país movimentou cerca de 1,3 bilhão de dólares em receitas combinadas da MLS na temporada 2025, um crescimento de 22% em relação a 2022. Esse dinheiro começa a circular de forma mais organizada, e a renovação de Pochettino é, em parte, uma aposta de que a estrutura técnica precisa acompanhar o crescimento econômico.
O que falta — e o contrato de Pochettino tenta endereçar — é a tradução desse dinheiro em desenvolvimento real. Hoje, a MLS tem 30 franquias, mas apenas 11 delas possuem academias com estrutura certificada pela US Soccer. A meta declarada da federação é dobrar esse número até 2028. Pochettino, ao assumir papel de supervisão no desenvolvimento, terá acesso direto a esse processo — algo que nenhum técnico da seleção americana havia feito antes com esse nível de formalização.
O que muda para a Copa de 2030 com Pochettino no comando do ciclo inteiro
A Copa do Mundo de 2030 será disputada em formato expandido e em múltiplos continentes — com jogos previstos para Espanha, Portugal, Marrocos e partidas comemorativas na América do Sul. Para os Estados Unidos, a competição representa a primeira vez em que o país chega a um ciclo completo com o mesmo técnico desde o início, sem a troca de comando que marcou os períodos anteriores a Jurgen Klinsmann e ao próprio Gregg Berhalter.
Pochettino terá quatro anos para consolidar um estilo de jogo reconhecível — algo que a seleção americana nunca teve de forma consistente. No PSG, ele trabalhou com elencos montados por outros e enfrentou limitações contratuais que reduziram seu espaço de influência. No Tottenham, construiu uma das equipes mais organizadas da Premier League entre 2014 e 2019, chegando à final da Champions League em 2019. Nos Estados Unidos, pela primeira vez, ele tem o poder de influenciar não apenas o time principal, mas a cadeia que o alimenta.
"Pochettino não veio para a Copa de 2026 — ele veio para o que vem depois dela", registrou uma análise publicada pelo SportNavo ainda durante o Mundial, quando a renovação já estava sendo negociada nos bastidores da federação.
A eliminação para a Bélgica em Seattle, por 4 a 1, foi o dado mais cruel do ciclo. Mas também foi o dado mais honesto: mostrou onde a seleção americana ainda não chegou em termos de qualidade técnica individual e gestão de pressão em mata-matas de alta intensidade. Pochettino tem quatro anos para trabalhar exatamente esse gap — e agora, pela primeira vez, tem contrato e estrutura para fazê-lo de forma orgânica.
A pergunta concreta que fica para as próximas semanas é esta: Pochettino vai convocar jogadores da geração sub-23 já para os amistosos de setembro, acelerando a transição para o ciclo olímpico de 2028, ou vai priorizar os titulares do Mundial para manter a identidade tática que construiu em 2026?








