14 de novembro de 2022. Naquela data, a Itália confirmou pela segunda vez consecutiva que não estaria em uma Copa do Mundo — eliminada pela Macedônia do Norte na repescagem europeia. Quatro anos depois, o roteiro se repetiu: a Azzurra, tetracampeã mundial, caiu nos pênaltis para a Bósnia e Herzegovina e ficou fora da Copa do Mundo pela terceira edição seguida, fenômeno sem precedentes na história de uma das maiores seleções do futebol. E, diante do vazio deixado pela ausência italiana, uma pesquisa da SWG encomendada pela Deliveroo revelou para onde vai o coração de 15% dos italianos: para o Brasil.
O dado que explica uma geração inteira
O levantamento da SWG/Deliveroo não apenas identificou o Brasil como a seleção mais adotada pelos italianos — empatada com a Espanha, cada uma com 15% das preferências —, mas também revelou uma fratura geracional precisa. Entre os italianos com mais de 55 anos, o Brasil sobe para 18% de aprovação, tornando-se a escolha mais expressiva dessa faixa etária. A Espanha, por sua vez, domina entre os menores de 35 anos, impulsionada pela memória do tiki-taka que rendeu o título de 2010.
A explicação para essa divisão não é arbitrária. Quem tem mais de 55 anos em 2026 tinha entre 9 e 11 anos quando o Brasil de Pelé venceu a Itália por 4 a 1 na final de México-70 — um dos jogos mais assistidos da história da televisão europeia até aquele momento. Doze anos depois, em Espanha-82, a mesma geração, agora jovem adulta, viu a Seleção de Zico, Sócrates e Falcão ser eliminada pela própria Itália de Paolo Rossi em um dos duelos mais dramáticos do torneio. Dois encontros épicos em 12 anos formam memória afetiva, não apenas estatística esportiva.
A publicação italiana GQ Itália, que divulgou os resultados da pesquisa, sintetizou o fenômeno com precisão:
"O Brasil é o preferido entre os maiores de 55 anos (18%), a geração que viveu os grandes desafios entre a Azzurra e a seleção de Pelé e Zico nas Copas do México-70 e Espanha-82."
Careca e o diagnóstico de quem viveu os dois lados
Poucos personagens encarnam a conexão Brasil-Itália com tanta concretude quanto Antonio de Oliveira Filho, o Careca. O ex-centroavante — revelado pelo Guarani, ídolo do São Paulo e artilheiro do Napoli entre 1987 e 1993, com 96 gols em 221 partidas e três títulos conquistados ao lado de Diego Maradona — viveu na pele essa fusão de identidades. Hoje, ao observar a Itália fora de uma Copa do Mundo pela terceira vez consecutiva, ele não esconde o desconcerto.
"A ausência da Itália na Copa do Mundo continua sendo um mistério para mim. Não se classificar pela terceira vez não é compreensível. Talvez falte uma estratégia para substituir jogadores e desenvolver jovens talentos. O que é certo é que a Itália não tem mais aquela geração de grandes nomes e está lutando para encontrar soluções para a renovação", declarou Careca em entrevista à agência ANSA.
O diagnóstico do ex-atacante aponta para um problema estrutural que vai além de resultados pontuais: a Itália falhou três repescagens seguidas — Suécia em 2018, Macedônia do Norte em 2022 e agora Bósnia e Herzegovina em 2026 —, uma sequência que equivale a 12 anos consecutivos sem disputar um Mundial, intervalo maior do que o que separa qualquer dois títulos mundiais italianos. Careca ainda destacou Neymar como o atleta brasileiro com "maior potencial técnico", apostando que o camisa 10 pode ser decisivo sob o comando de Carlo Ancelotti, desde que supere os problemas físicos que o afastaram dos gramados.
Uma torcida construída por décadas de imigração e futebol
A preferência dos italianos pelo Brasil não nasce apenas das transmissões televisivas de Copas passadas. Ela tem raízes em um fluxo migratório que moldou o próprio futebol brasileiro: entre 1880 e 1930, mais de 1,5 milhão de italianos desembarcaram no Brasil, concentrados sobretudo em São Paulo e no Sul do país. Esse entrelaçamento humano produziu histórias como a de Nerina Bortoluzzi, italiana que deixou a Europa em 1949, após a destruição da Segunda Guerra Mundial, e construiu sua vida no Brasil. Aos 82 anos, ela resumiu com clareza a ambiguidade afetiva que muitos compatriotas compartilham:
"Quando eu estou na Itália, sou brasileira; quando estou no Brasil, sou italiana. Se a seleção brasileira joga com qualquer outro país do mundo, torço pelo Brasil."
Esse sentimento coletivo — que mistura nostalgia futebolística com laços familiares e culturais — explica por que a torcida italiana pelo Brasil não é um fenômeno de Copa, mas um vínculo de longa duração. Em 2018, quando a Itália ficou fora pela primeira vez desde 1958, Alessandro Labile, gerente de um pub em Turim, descreveu o impacto concreto da ausência: "Seria muito diferente se a Itália estivesse na Copa. Veríamos bandeiras nas janelas, camisas da seleção e, com certeza, os bares estariam bem mais cheios durante os jogos." Naquele torneio, a adoção de outras seleções foi espontânea e criativa — a Roma torceu pela Nigéria, a Gazzetta dello Sport escolheu a Islândia por votação dos leitores.
Em matéria do SportNavo, os dados da pesquisa SWG/Deliveroo ganham ainda mais peso quando confrontados com o contexto da Copa do Mundo 2026, que pela primeira vez contará com 48 seleções — formato que Careca admitiu não saber se representa uma melhora em relação ao modelo com 32 participantes. O ex-atacante elencou Brasil, França, Argentina e Espanha como favoritos ao título, com um alerta específico para as seleções africanas, que reúnem "elencos fisicamente muito fortes". A Copa começa em 11 de junho de 2026, com o Brasil estreando no Grupo D — e, nas arquibancadas e nas salas de estar italianas, ao menos 18% da geração que cresceu assistindo a Pelé e Zico já sabe para qual cor vai gritar.








