O paddock de Miami ainda vibrava quando a notícia vazou: Gianpiero Lambiase, o homem que sussurra no ouvido de Max Verstappen desde 2016, assinou com a McLaren para exercer o cargo de diretor de competição a partir de 2028. Em menos de 24 horas, as redes sociais já tinham montado o roteiro completo — Lambiase vai para Woking, Verstappen segue atrás. O problema é que esse roteiro ignora quase toda a evidência disponível.
A narrativa que tomou conta dos boxes em Miami
A lógica do rumor é sedutora como o trânsito da Avenida Paulista às 18h: parece inevitável até você olhar o mapa de verdade. Lambiase e Verstappen formam uma das duplas piloto-engenheiro mais longevas e bem-sucedidas da história recente da F1 — nove anos juntos, quatro títulos de construtores e quatro campeonatos de pilotos para a Red Bull entre 2021 e 2024. Quando um lado dessa equação se move, a narrativa popular assume que o outro lado segue.

Zak Brown, CEO da McLaren, cortou o assunto no GP de Miami com a objetividade de quem não tem tempo para especulação:
"Não poderia estar mais feliz com nossa dupla de pilotos. Ele [Verstappen] é um piloto incrível, claro. Mas estou muito feliz com o que temos hoje."
Brown foi além e elogiou outros nomes do grid — Charles Leclerc, Lewis Hamilton, George Russell e Andrea Kimi Antonelli — sem alimentar qualquer negociação implícita. A mensagem foi calibrada para encerrar o assunto, não para abrir portas.
O que Lambiase realmente representa para a McLaren
Contratar um engenheiro de pista de elite para um cargo de diretoria é uma movimentação de estrutura organizacional, não de elenco. A distinção importa. Lambiase chega para o cargo de diretor de competição — uma função de gestão estratégica e desenvolvimento de processos operacionais, não de relação direta com um piloto específico na garagem.
Para entender o valor dessa contratação, pense nela como uma empresa de tecnologia que recruta um VP de engenharia que passou nove anos construindo sistemas críticos num concorrente. O que se compra é o método, o repertório de decisões sob pressão e a capacidade de escalar processos. Segundo a avaliação do SportNavo, a McLaren está montando uma estrutura de liderança técnica para o ciclo regulatório que começa em 2026 e se estende até o final da década — e Lambiase é uma peça dessa arquitetura, não um sinal de mercado de pilotos.
Os números da McLaren em 2025 justificam o otimismo de Brown com o atual elenco:
- Lando Norris terminou o campeonato de 2025 como vice-campeão, com 7 vitórias — o melhor resultado de sua carreira até então.
- Oscar Piastri somou 4 vitórias em 2025, consolidando-se como um dos pilotos mais consistentes no segundo semestre da temporada.
- A McLaren encerrou 2025 com o título de construtores, interrompendo uma sequência de quatro anos de domínio da Red Bull.
- Ambos os pilotos possuem contratos de longo prazo com a equipe — Norris até pelo menos 2027, Piastri com extensão confirmada para o mesmo horizonte.
Por que Verstappen na McLaren não faz sentido neste momento
Verstappen tem contrato com a Red Bull até o fim de 2028 — exatamente o ano em que Lambiase começa em Woking. Coincidência de datas que alimentou o rumor, mas que também revela a impossibilidade prática de qualquer transição imediata. Romper um contrato desse porte envolveria cláusulas de rescisão estimadas em dezenas de milhões de euros, além de implicações de imagem para ambas as partes.
Há ainda a questão da dinâmica interna. A McLaren construiu sua recuperação — de nona colocada no campeonato de construtores em 2021 para campeã em 2025 — em cima de uma cultura de coesão entre Norris e Piastri. Inserir Verstappen, um piloto com histórico documentado de tensão com companheiros de equipe (vide os episódios com Ricciardo em 2019 e Pérez entre 2022 e 2024), seria introduzir uma variável de altíssima volatilidade numa equação que hoje funciona.
"A química dentro da garagem e o ambiente construído pela equipe são fatores fundamentais para os resultados da McLaren nos últimos anos", reforçou Brown na mesma entrevista ao site oficial da Fórmula 1.
No GP de Miami de 2026, com Norris e Piastri já em pista sob o novo regulamento técnico, a McLaren tem razões concretas para manter o que tem. Verstappen, por sua vez, disputa o campeonato de 2026 pela Red Bull, que recebeu o novo motor Honda e a parceria técnica com Adrian Newey na Aston Martin como pano de fundo de um grid completamente reconfigurado. O próximo capítulo da temporada europeia começa no GP da Espanha, em Barcelona, no dia 31 de maio — e a briga pelo título de 2026 já é o foco de todos os lados.










