— Esse 20 é bom mesmo, ou é impressão minha?
— Não é impressão não. Mas é o tipo de jogador que você precisa ver três, quatro vezes antes de entender o que ele faz.
— Pois é. Hoje eu entendi.
Esse tipo de conversa acontece nos bares ao redor da Arena da Baixada toda vez que Julimar tem uma noite em que o corpo de 188 centímetros decide que chegou a hora. Não é um jogador de primeiras impressões. É um jogador de segunda, terceira leitura — daqueles que exigem atenção sustentada para revelar o que têm dentro.
Onde ele está no jogo global
Julimar Silva Oliveira Júnior nasceu em 25 de janeiro de 2001, em Nova Ipixuna, no Pará — uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes encravada no sudeste paraense, a centenas de quilômetros de qualquer centro de futebol formativo com estrutura. Esse dado geográfico não é detalhe biográfico: é o ponto de partida de uma narrativa que o futebol brasileiro repete com regularidade, mas raramente celebra enquanto acontece. O talento que nasce longe percorre um caminho mais tortuoso, mais lento, mais sujeito ao esquecimento.
No caso dele, o caminho passou pelo Mirassol — clube do interior paulista que nos últimos anos construiu uma reputação de celeiro silencioso — antes de desembocar no Athletico Paranaense, um dos clubes com maior tradição competitiva do futebol sul-americano. Em 2022, já com a camisa do Furacão, disputou o Campeonato Paranaense e a Recopa Sul-Americana. Em 2023, retornou ao Mirassol por empréstimo, onde disputou 19 jogos pela Série B. Foram movimentos de quem ainda buscava consistência, ainda testava limites, ainda entendia o próprio tamanho.
O que os números dizem na comparação
Na temporada atual do Brasileirão Série A, Julimar acumula 31 jogos, 6 gols e 2 assistências — números que, isolados, podem parecer modestos para um atacante de área, mas que ganham peso quando contextualizados. Em toda a sua trajetória profissional até aqui, o jogador soma 93 jogos e 13 gols. Isso significa que apenas nesta temporada ele entregou quase metade do total de gols que havia marcado em toda a carreira anterior. Não é um salto discreto. É uma aceleração.
Entre os atacantes da Série A com perfil físico semelhante — homens acima de 185 cm que funcionam como referência de área e também como pivô para combinações — a margem de 6 gols em 31 jogos o coloca numa faixa de produção que poucos jogadores com histórico tão recente de adaptação conseguem manter. O que torna o dado mais interessante não é o número em si, mas o que ele representa: um jogador que chegou à elite do futebol nacional sem grande alarde e que, agora, está contribuindo de forma mensurável para um clube que disputa também a Copa do Brasil e a CONMEBOL Sudamericana.
Onde ele se distingue dos rivais
Há uma diferença, que o futebol raramente nomeia com clareza, entre o atacante que marca porque recebe bolas perfeitas e o atacante que marca criando as condições para receber bolas imperfeitas. Julimar pertence ao segundo grupo. Com 86 kg distribuídos em 188 cm, ele tem a estrutura de um jogador capaz de segurar a bola de costas para o gol, criar espaço com o corpo e ainda ter mobilidade suficiente para aparecer no segundo poste ou se projetar em transições.
O que o distingue de perfis similares — os pivôs puros, que vivem dentro da área e dependem de cruzamentos — é exatamente essa capacidade de transitar entre funções sem perder referência. Em 2024, além dos 6 gols na Série A, ele ainda marcou 2 gols em 14 jogos pelo Campeonato Paranaense e 1 gol em 3 jogos pela Copa do Brasil. São números fragmentados em competições diferentes, mas que apontam para um mesmo padrão: presença, regularidade e contribuição direta ao resultado.
A trajetória que aponta o teto
Existe uma questão que o futebol brasileiro costuma responder tarde demais: quando um jogador de 25 anos, formado no interior, começa a mostrar consistência num clube grande, qual é o prazo antes que alguém de fora comece a prestar atenção? No caso de Julimar, esse prazo parece estar se encurtando.
A participação na CONMEBOL Sudamericana — 7 jogos disputados em 2024 — é um indicador relevante. Competições continentais expõem jogadores a adversários de nível técnico superior, a ritmos diferentes, a pressões que o calendário doméstico não replica com a mesma intensidade. O fato de ter acumulado minutos nesse contexto, sem que os dados apontem para qualquer irregularidade grave, sugere que o técnico do Furacão enxerga nele um jogador com capacidade de responder à exigência mais alta.
Os próximos 12 meses serão um teste de continuidade. Manter ou superar 6 gols numa temporada de Série A é o tipo de marca que começa a construir reputação de forma permanente — não mais como promessa que ainda precisa de contexto, mas como jogador de referência. A janela de transferências do meio do ano e o mercado de janeiro de 2027 trarão inevitavelmente o nome dele para conversas que, até pouco tempo, nem chegavam a começar.
Nova Ipixuna produziu um atacante que o Athletico Paranaense não quer perder. E que o Brasileirão ainda está aprendendo a respeitar.
Julimar não é promessa — é cobrança.










