8 de setembro de 2004. Naquela data, em Santa Cruz de Tenerife, nascia Nicolás Paz Martínez — filho de um ex-jogador argentino, criado no futebol espanhol, destinado a uma escolha que poucos atletas da sua geração precisam fazer com tanta consciência histórica.
A raiz que plantou a decisão de Nico Paz
O percurso de Nico Paz até a camiseta albiceleste começa, literalmente, antes do seu nascimento. Seu pai, Pablo Ariel Paz, construiu uma carreira respeitável entre a Argentina e a Espanha: defendeu Independiente, Banfield, Newell's Old Boys e Tenerife, e foi convocado por Daniel Passarella para duas campanhas históricas — a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996 e a participação na Copa do Mundo da França 1998, quando a Argentina chegou às quartas de final antes de ser eliminada pela Holanda por 2 a 1. Essa herança não é apenas sentimental; é jurídica. Foi a ascendência paterna que abriu ao jovem centrocampista o direito de optar entre Espanha, seu país natal, e Argentina.
A escolha foi explicitada pelo próprio Nico em entrevista à DSports Radio:
"Eu nasci na Espanha. Amo os dois países, mas no final decidi representar a Argentina. Acho que é o país que mais me representa, por como se vive o futebol e pelo meu pai, que é um orgulho seguir seus passos. Ele jogou uma Olimpíada e uma Copa do Mundo."
A influência de Pablo Paz, contudo, não foi coercitiva. Segundo o próprio Nico, o pai funciona como conselheiro, não como gestor de carreira:
"É um conselheiro, viveu esse mundo, sabe mais do que ninguém. Mas me deixa tranquilo, me deixa decidir, que eu faça o que sinto. Não me incita nas decisões, me deixa livre."
De La Fábrica ao Como — a trajetória que antecede a albiceleste
Formado no Atlético San Juan, do bairro de María Jiménez em Tenerife, Nico Paz passou pelo CD Tenerife antes de ser incorporado à base do Real Madrid, onde percorreu todas as categorias desde o Infantil B até o Castilla. Seu debut profissional ocorreu em 8 de janeiro de 2022, sob o comando de Raúl González Blanco, numa vitória do Castilla por 3 a 1 sobre o Andorra. Menos de dois anos depois, em 8 de novembro de 2023, entrou em campo no Santiago Bernabéu substituindo Federico Valverde na 4ª rodada da fase de grupos da Champions League contra o Sporting de Braga — partida encerrada em 3 a 0 para o Real.
O gol veio três semanas depois, em 29 de novembro de 2023, diante do Napoli, com um chute de fora da área que selou o 3 a 2 madridista. Àquela altura, Nico se tornava o segundo argentino mais jovem a marcar na Champions League, atrás apenas de Lionel Messi — superando Alejandro Garnacho, que havia estabelecido a mesma marca poucas horas antes na mesma rodada.
Em agosto de 2024, o Real Madrid o cedeu ao Como 1907 da Serie A italiana, treinado por Cesc Fàbregas, por 6 milhões de euros, com cláusula de recompra e 50% dos direitos de revenda. A temporada 2024/2025 na Lombardia consolidou sua maturidade tática — o mediocampista ofensivo soma agora experiência em três grandes ligas europeias antes de completar 22 anos.
Os Europibes e o padrão que a Argentina construiu ao longo das décadas
Nico Paz não é um caso isolado. Ele integra uma geração batizada informalmente de Europibes — jogadores com passaporte argentino, mas nascidos e formados no Velho Continente. Alejandro Garnacho, nascido em Madri em 2004 e revelado pelo Manchester United, é o nome mais conhecido do grupo. A lógica que os une é estrutural: filhos de argentinos que emigraram para jogar futebol na Europa nas décadas de 1990 e 2000 cresceram em academias de elite como La Fábrica e Carrington, sem jamais perder o vínculo identitário com Buenos Aires.
Historicamente, a Argentina já recorreu a esse mecanismo. Gabriel Batistuta, Hernán Crespo e Juan Sebastián Verón fizeram toda a carreira na Itália sem questionar a camiseta albiceleste. A novidade dos Europibes é que o nascimento em si ocorreu fora do território argentino — o que torna a escolha uma declaração ativa de pertencimento, não apenas uma formalidade burocrática.
Em maio de 2022, Nico foi convocado por Javier Mascherano para o Torneio Esperanzas de Toulon, iniciando sua trajetória nas categorias de base da seleção. Participou do Sul-Americano Sub-20 e da preparação olímpica para Paris 2024, embora o Real Madrid não o tenha liberado para o Mundial Sub-20 disputado na Argentina em 2023. A convocação para a equipe principal de Lionel Scaloni permanece como objetivo declarado:
"Sonho com isso todos os dias, mas vou passo a passo. Quero me concentrar no dia a dia para que chegue a convocação da Seleção e poder representá-la da melhor maneira possível."
A trajetória de Pablo Paz em Atlanta 1996 e na França 1998 — ambas sob Passarella — serve de mapa afetivo para o filho. Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura da seleção argentina em 2026, o fenômeno dos Europibes representa hoje uma das principais alavancas de renovação do elenco campeão mundial de 2022, com jogadores que chegam ao grupo de Scaloni com passagens por Real Madrid, Manchester United e Como antes dos 22 anos.
A Copa do Mundo de 2026 está no horizonte imediato, e Nico Paz, com 21 anos e uma temporada completa na Serie A no currículo, figura entre os nomes monitorados pela comissão técnica argentina para integrar o elenco definitivo. O pai já viveu esse palco em Paris, julho de 1998 — o filho tem a chance de ir mais longe.
Está formado. Falta o chamado.








