Desde o início de abril de 2026, o Vasco negocia com a SportingBet para preencher o espaço de patrocinadora máster — mas o acordo não sai. O principal obstáculo é financeiro: os valores propostos pela casa de apostas ficam abaixo do que o clube recebia da Betfair, contrato encerrado em 2025, e isso criou uma divisão interna que paralisa a assinatura.

Dois lados da mesa dentro do próprio clube

O CEO da SAF, Carlos Amodeo, lidera as tratativas com a SportingBet e é favorável ao fechamento do contrato. O acordo em negociação teria duração até dezembro de 2027. A posição de Amodeo, no entanto, esbarra na resistência de dirigentes ligados ao presidente do associativo, Pedro Paulo de Oliveira, o Pedrinho, que avaliam o valor como insuficiente e defendem que o acordo só deve ser assinado se houver reajuste na proposta.

As lideranças mais influentes do associativo no impasse são Cristiano Campos, recém-alçado a conselheiro da SAF e homem de confiança de Pedrinho; Alan Belaciano, presidente da Assembleia Geral; e Marcelo Macedo, vice-presidente e nome histórico do grupo Sempre Vasco. Nos bastidores, o sentimento é de que o negócio dificilmente avança sem aumento da proposta da SportingBet.

Procurados pela reportagem do ge.globo.com, dirigentes do associativo e da SAF negaram divergências em relação a valores — mas as fontes internas contam uma história diferente.

O que os números dizem

O Vasco mira contratos compatíveis com os firmados por Corinthians, Flamengo, Palmeiras e São Paulo. O Flamengo, por exemplo, fechou com a Betano por R$ 265 milhões — valor 972% superior ao que o próprio clube recebia da Caixa Econômica Federal em 2018. Para efeito de comparação, a inflação acumulada pelo IPCA no mesmo período foi de aproximadamente 45%.

A SportingBet, por sua vez, argumenta que aqueles contratos foram fechados em um mercado inflacionado pelas apostas esportivas e que o cenário atual exige maior cautela. Segundo apuração do SportNavo, a percepção da empresa é de que o ciclo de valores astronômicos pagos pelas bets entre 2023 e 2025 está em fase de reacomodação — o que justificaria, na visão da patrocinadora, uma proposta mais conservadora ao Vasco.

Antes de avançar com a SportingBet, o Vasco analisou e recusou propostas de 01bet e EnergiaBet, que também não atenderam às expectativas financeiras da diretoria. Negociações com a fabricante de veículos elétricos BYD também não evoluíram para um acordo formal.

Dois lados da mesa dentro do próprio clube Por que o Vasco ainda não fechou patr
Dois lados da mesa dentro do próprio clube Por que o Vasco ainda não fechou patr

Impacto direto nas receitas

Sem patrocinador máster desde o fim do vínculo com a Betfair, o Vasco joga a temporada com a principal propriedade do uniforme vazia — e isso representa perda direta de receita em um momento em que o clube busca equilíbrio financeiro. O espaço nobre da camisa é historicamente o ativo comercial mais valioso de qualquer clube brasileiro.

O levantamento do SportNavo mostra que, em 2018, seis clubes da Série A chegaram a entrar em campo sem máster — Corinthians, Botafogo, Santos, Athletico-PR, Fluminense e o próprio Vasco. O vazio de então marcou o fim do ciclo de patrocinadores tradicionais de varejo, banco e telefonia. A história se repete agora, desta vez pela retração das bets após regulação do governo federal em 2025.

Segundo fontes da Agência RTI Esporte, o presidente Pedrinho entende que o momento é de valorização da marca e tenta alinhar o patrocínio máster a esse cenário, considerado estratégico para o planejamento financeiro do clube.

O que pode desbloquear o acordo

O contrato projetado com a SportingBet vai até dezembro de 2027 — dois anos e meio de vínculo que dariam estabilidade comercial à SAF em um período de consolidação do modelo societário. Para Amodeo, fechar agora, mesmo com valores abaixo do histórico da Betfair, reflete uma nova realidade de mercado. Para a ala do associativo, aceitar o contrato nas condições atuais seria subavaliar o ativo.

O impasse só se resolve por um dos três caminhos: a SportingBet aumenta a proposta, o associativo cede na exigência de valores maiores, ou o Vasco encontra uma terceira empresa disposta a pagar o patamar desejado. Com a temporada em andamento e a camisa ainda sem marca no espaço nobre, a pressão para uma decisão cresce a cada rodada do Brasileirão.