— 'Você acredita que o Sporting voltou às oitavas da Champions?'
— 'Cara, eu nem sabia que eles tinham chegado uma vez antes.'
— 'Pois é. E foi há 13 anos.'
Essa conversa aconteceu em bares de Lisboa, em grupos de WhatsApp no Porto e, provavelmente, em qualquer mesa onde alguém acompanhou a noite de terça-feira em Alvalade. O Sporting CP venceu o Borussia Dortmund por 3 a 1 e se classificou para as oitavas de final da Liga dos Campeões — apenas a segunda vez na história do clube que isso acontece. O que para o argentino é chegar à final da Libertadores, para o português é estar nas oitavas da Champions: uma prova de que o clube existe no mapa continental de verdade, não apenas como figurante.
A noite em que Pedro Gonçalves dominou Alvalade
O Dortmund controlou a primeira etapa. O BVB tem esse hábito irritante de parecer maior do que o adversário nos primeiros 45 minutos — foi assim contra o PSG em 2024, foi assim em Alvalade. O problema é que o Sporting não precisou de posse para vencer. Pedro Gonçalves, o "Pote", foi letal exatamente onde o Dortmund deixou espaço: no contra-ataque. Dois gols do meia português viraram o jogo antes do intervalo e colocaram o Sporting numa posição que o clube não ocupava desde a temporada 2011/2012.
Na segunda etapa, o Dortmund tentou reagir, mas o jogo saiu do controle alemão quando Emre Can recebeu o cartão vermelho aos 74 minutos. Com um a menos, a equipe de Dortmund não tinha como sustentar pressão. Aos 81 minutos, Porro ampliou para 3 a 0. Malen descontou para o BVB, mas o resultado já estava selado. O Borussia, eliminado da Champions, cai para a Liga Europa — um destino que, para um clube com a tradição alemã de 2013 e 2024 em finais da competição, dói de um jeito particular.
Treze anos de ausência e o que eles significam na história do clube
Para entender o peso desse resultado, é preciso recuar. O Sporting chegou às oitavas pela primeira vez em 2004/2005, sob o comando de José Peseiro, numa equipe que tinha Cristiano Ronaldo já no radar europeu — embora o jogador já tivesse ido para o Manchester United um ano antes. A segunda classificação, agora em 2026, chega num contexto completamente diferente: o clube não tem uma estrela global no elenco, mas tem um sistema. Isso é mais valioso do que parece.
Comparando com ciclos históricos de clubes médios na Champions, o Sporting segue um padrão que o futebol europeu já viu antes. O Valencia de 2001 a 2004 chegou a duas finais sem ter o melhor elenco da Espanha. O Porto de Mourinho em 2004 ganhou a competição com um orçamento menor que o do Monaco, adversário na semifinal. O denominador comum nesses casos não era dinheiro: era organização tática e identidade de jogo. O SportNavo mapeou que clubes com menos de 15% do orçamento dos favoritos que avançaram às oitavas nos últimos 20 anos quase sempre tinham um sistema defensivo compacto combinado com transição rápida — exatamente o que o Sporting apresentou contra o Dortmund.
O Anderlecht e o contraste com quem ainda busca esse patamar
Enquanto o Sporting celebrava em Lisboa, o Anderlecht vivia uma realidade bem diferente na Bélgica. O clube de Bruxelas perdeu a final da Copa da Bélgica para o Union Saint-Gilloise por 3 a 1 na prorrogação — e quem marcou o tom da derrota foi justamente um ex-jogador do Anderlecht. Anouar Ait El Hadj, hoje no Union, não escondeu a emoção mista de vencer contra o clube que o formou.
"Incroyable! Uma final nada fácil, fomos até o fim e a vitória está aqui, é o mais importante. Vivi a derrota com eles. O fato de ganhar hoje é incrível. É difícil para eles, espero que voltem ao topo e que um dia ganhem."
A fala de Ait El Hadj resume bem a situação do Anderlecht: um clube histórico, dono de 34 títulos belgas, que atravessa uma fase de reconstrução. Na Jupiler Pro League, os Mauve et Blanc chegaram a ocupar a terceira posição com 31 pontos, a cinco do líder Union Saint-Gilloise, depois de vencer o derby bruxellois por 1 a 0 em determinado momento da temporada. O próprio Ait El Hadj reconheceu o potencial anderlechtiano quando questionado sobre a briga pelo título belga.
"Hoje eles estão em terceiro. Acho que não estão muito longe do primeiro e do segundo. Pode-se dizer que são candidatos ao título, claro."
O contraste com o Sporting é didático: um clube que encontrou seu caminho de volta à elite continental e outro que ainda procura reencontrar a identidade que o tornou referência europeia nos anos 1980, quando o Anderlecht chegou a duas finais consecutivas da Copa da UEFA, em 1983 e 1984.
O que esperar do Sporting nas oitavas da Champions
Classificado, o Sporting aguarda o sorteio das oitavas de final da Liga dos Campeões. O clube entra nessa fase como azarão — a condição mais confortável possível para uma equipe que construiu sua campanha exatamente sobre a capacidade de surpreender. O Dortmund não é o primeiro grande nome que subestimou Alvalade e pagou caro por isso.
A questão agora é física e tática: o Sporting consegue manter o nível de intensidade no contra-ataque contra adversários que estudarão o 3 a 1 sobre o BVB quadro a quadro? A resposta depende de Pedro Gonçalves manter a forma que mostrou nessa partida — dois gols, mobilidade constante, capacidade de aparecer nos espaços certos. Se o meia chegar ao sorteio com a confiança de Alvalade intacta, o Sporting tem argumentos reais para fazer barulho nas oitavas. O sorteio acontece na sede da UEFA, em Nyon, e definirá o adversário que tentará encerrar essa história antes da hora.










