Confesso: eu errei sobre Prestianni em 2025. Quando o jovem atacante do Benfica começou a aparecer nas convocações de Scaloni, escrevi que ele era um ativo de longo prazo para a Argentina, alguém que chegaria à Copa de 2026 sem o peso das expectativas que cercam Messi ou Julián Álvarez. Hoje vejo o porquê de ter errado — o problema não veio do campo, veio do comportamento fora dele.
A decisão da Fifa e o que ela significa para Prestianni
O Comitê Disciplinar da Fifa atendeu ao pedido protocolar da UEFA e estendeu para todos os jogos internacionais oficiais a suspensão de seis partidas aplicada ao atacante argentino por ofensa racista contra Vinícius Júnior, em jogo da Champions League pelo Benfica. A lógica regulatória é clara: penas disciplinares de natureza grave — e racismo se enquadra nessa categoria — ultrapassam as fronteiras das confederações. Dos seis jogos originais, a UEFA reduziu para três, condicionando o restante ao bom comportamento do jogador. Prestianni já cumpriu um jogo na Champions, na partida de volta entre Benfica e Real Madrid. Restam dois em aberto — e esses dois, agora, podem ser cumpridos no maior palco do futebol mundial.
A Copa do Mundo de 2026 começa em 11 de junho, nos Estados Unidos, no Canadá e no México — esta 23ª edição, a primeira com 48 seleções e formato ampliado. Faltam, a partir desta quarta-feira, 6 de maio, exatamente 36 dias para o apito inicial. Se Prestianni for convocado por Scaloni e integrar o grupo argentino, ficará fora dos dois primeiros jogos da Argentina na fase de grupos. Dependendo do sorteio e do desempenho da equipe, isso pode significar ausência em partidas decisivas para a classificação ao mata-mata.
"Se for convocado, terá de ficar de fora dos dois primeiros jogos do Mundial. O que pode pesar em sua convocação", registrou o UOL Esporte ao noticiar a extensão da pena pela Fifa.
O dilema de Scaloni diante de um desfalque calculado
Lionel Scaloni convocou Prestianni pela última vez em data-Fifa recente, quando Paulo Dybala não pôde comparecer por contusão. Não era uma convocação de rotina — era uma janela de oportunidade para o jovem atacante mostrar serviço. O problema agora é aritmético e estratégico ao mesmo tempo. Levar um jogador para uma Copa do Mundo sabendo que ele não pode atuar nas duas primeiras rodadas é uma aposta de alto risco, especialmente num torneio com 48 seleções, onde o formato ampliado distribui os grupos de forma mais imprevisível.
A Argentina defende o título conquistado no Catar em 2022, quando bateu a França nos pênaltis por 4 a 2, após empate em 3 a 3 no tempo normal — uma das finais mais dramáticas da história das Copas. Scaloni, que conduziu a equipe ao tricampeonato mundial, tem um elenco de profundidade considerável, mas perde margem de manobra quando um atleta convocado não pode atuar em metade da fase de grupos. A lista de 26 jogadores é finita, e cada vaga carrega peso específico.
- Prestianni já cumpriu 1 dos 3 jogos de suspensão (Champions League, Benfica x Real Madrid)
- Restam 2 jogos a cumprir em competições internacionais oficiais
- Se convocado, ficará fora dos dois primeiros jogos da Argentina na Copa do Mundo
- Caso não vá ao Mundial, os dois jogos restantes serão cumpridos pelo Benfica na Champions ou em partidas oficiais pela seleção argentina
Racismo punido e o precedente que a Fifa consolida
Há um dado histórico que precisa ser posto em perspectiva aqui. A Copa do Mundo acumula, em 22 edições, registros que vão muito além do campo: o Brasil lidera em participações — 23 em 23 possíveis —, em títulos (cinco, em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002), em partidas disputadas (114) e em vitórias (76). A Alemanha detém o recorde de finais disputadas, com oito. Miroslav Klose é o maior artilheiro da história com 16 gols. Tudo isso construído ao longo de quase um século de futebol mundial. Mas o torneio também carrega cicatrizes disciplinares e episódios que mancharam sua trajetória.
A extensão da pena de Prestianni para a Copa do Mundo é, nesse contexto, um sinal de que a Fifa pretende consolidar um precedente: condutas racistas não ficam restritas ao âmbito das confederações. O caso Vinícius Júnior, atacante do Real Madrid e da seleção brasileira, tornou-se nos últimos anos o símbolo mais visível do combate ao racismo no futebol europeu. Que a pena de um atleta por ofensa ao jogador brasileiro agora alcance o Mundial é, historicamente, uma novidade regulatória relevante — e o SportNavo acompanha esse desdobramento como parte de uma mudança estrutural na governança do esporte.
"A UEFA puniu o atacante argentino com seis jogos de suspensão por ter feito ofensa racista contra o jogador do Real Madrid, em jogo da Champions League. E fez um pedido, que é protocolar, de extensão mundial da pena", conforme relatado pelo UOL Esporte.
O que ainda falta resolver até 11 de junho
Scaloni tem até o prazo de entrega da lista definitiva para decidir se inclui Prestianni no grupo dos 26. Caso o convoque, precisará planejar os dois primeiros jogos da Argentina sem contar com o atacante — e a Argentina saberá seus adversários na fase de grupos pelo sorteio já realizado. Caso opte por deixá-lo fora, Prestianni cumprirá os dois jogos restantes pelo Benfica na próxima temporada europeia 2025/2026 ou em partidas oficiais pela seleção. A Copa começa em 36 dias. A decisão de Scaloni, não.
Confesso: eu errei sobre Prestianni em 2025. Quando o jovem atacante do Benfica começou a aparecer nas convocações de Scaloni, escrevi que ele era um ativo de longo prazo para a Argentina — hoje vejo que o maior obstáculo ao seu sonho de estrear num Mundial não foi nenhum adversário em campo, mas uma ofensa que ele mesmo escolheu proferir.









