Confesso: em 2014, quando a imprensa debatia se Neymar deveria ou não ser o centro do universo tático de Felipão, eu defendi com convicção que o camisa 10 era insubstituível e que qualquer questionamento era ingratidão. A semifinal contra a Alemanha — 7 a 1, Belo Horizonte, 8 de julho de 2014 — me ensinou que nenhum jogador, por mais genial que seja, é maior do que o coletivo. Guardo essa lição até hoje.

Foi com esse repertório histórico que li, nesta semana, o ofício de três páginas enviado pelo deputado federal Hélio Lopes (PL-RJ) à Confederação Brasileira de Futebol, solicitando formalmente a convocação de Neymar para a Copa do Mundo 2026. O documento partiu do gabinete do parlamentar na Câmara dos Deputados — uma instituição pública — em direção à CBF, que é uma entidade de direito privado. A competência para convocar jogadores pertence exclusivamente ao técnico Carlo Ancelotti. O ofício, portanto, chegou ao destino errado pelo caminho errado.

O que diz o ofício e o que ele omite sobre Neymar

No documento, Hélio Lopes afirma que sua iniciativa representa

"uma manifestação legítima de milhões de brasileiros apaixonados pelo futebol e pela história da nossa Seleção"
e descreve o atacante do Santos como
"não apenas um jogador, mas um símbolo de talento, criatividade, superação e esperança para milhões de torcedores"
. O parlamentar ressalva que não pretende interferir tecnicamente nas decisões da comissão técnica, cuja autonomia, segundo ele, deve ser integralmente respeitada.

O que diz o ofício e o que ele omite sobre Neymar Quando a política tenta entrar
O que diz o ofício e o que ele omite sobre Neymar Quando a política tenta entrar

O argumento mais sólido do ofício é factual: Neymar é o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira, com 79 gols em 128 jogos. Nas Copas do Mundo, marcou seis gols em três edições — dois na África do Sul (2010), quatro no Brasil (2014), zero na Rússia (2018, onde atuou lesionado e em ritmo abaixo) e dois no Catar (2022), além de três assistências naquele torneio. São números que pertencem ao debate esportivo legítimo. O problema é que o ofício de um deputado não é o fórum adequado para esse debate.

O próprio histórico legislativo do signatário fragiliza o gesto. Em 2026, Hélio Lopes acumula 47 presenças em sessões plenárias e comissões, mas também 20 ausências não justificadas. Neste último ano da legislatura, não proferiu discursos em plenário e não relatou nenhum projeto. O deputado, eleito pelo Rio de Janeiro, transferiu seu domicílio eleitoral para Roraima a pedido da família Bolsonaro, com planos iniciais de disputar uma vaga no Senado — candidatura que pode nem acontecer. É o contexto político que envolve o documento.

Qual é a voz que realmente importa nessa decisão

Quantas vezes ao longo da história do futebol brasileiro um agente externo à comissão técnica conseguiu alterar uma convocação?

A resposta documentada é: praticamente nenhuma, quando a pressão veio de fora do ambiente esportivo. Em 1970, João Saldanha foi demitido e Zagallo assumiu — mas a pressão veio de dentro da CBD (antecessora da CBF) e do próprio governo militar, não de um ofício parlamentar isolado. Em 1994, Parreira resistiu a campanhas de imprensa para manter Rai fora do time titular e conquistou o tetracampeonato. Em 2006, Parreira novamente ignorou pressões externas e manteu Ronaldo mesmo com desempenho aquém — o resultado foi a eliminação nas quartas para a França de Zidane, 1 a 0, em Frankfurt.

Carlo Ancelotti, aos 66 anos, com dois títulos de Champions League pelo Real Madrid (2014 e 2022) e passagens por Milan, Chelsea, PSG, Bayern de Munique e Napoli, não é o tipo de treinador que altera sua convocação por pressão de gabinete. Sua filosofia de gestão de elenco é conhecida: prioriza o estado físico e a regularidade do atleta na temporada. Neymar, que retornou ao Santos em 2025 após período no Al-Hilal da Arábia Saudita, ainda busca consistência no Brasileirão 2026 para construir o argumento esportivo que o ofício de Lopes tenta substituir por apelo sentimental.

A análise publicada pelo SportNavo ao longo das últimas semanas mostrou que Ancelotti tem monitorado Neymar em campo, mas o critério declarado pelo italiano é simples: forma física comprovada em partidas consecutivas. Até o momento, o atacante de 34 anos não encadeou sequências suficientes para pacificar essa exigência.

O que os números de Copas revelam sobre o debate real

Para além do ruído político, existe uma questão esportiva genuína que merece ser tratada com dados. Neymar marcou 6 gols em 14 jogos de Copa do Mundo — aproveitamento de 0,43 gols por partida. Ronaldo Fenômeno marcou 15 gols em 19 jogos (0,79 por partida). Pelé anotou 12 em 14 (0,86 por partida). Zico, o mais subestimado de todos, foi a três Copas e saiu sem nenhuma taça, mas com influência técnica que os números não capturam completamente.

Qual é a voz que realmente importa nessa decisão Quando a política tenta entrar
Qual é a voz que realmente importa nessa decisão Quando a política tenta entrar

O artilheiro da Copa de 2022 foi Mbappé, com 8 gols. O Brasil foi eliminado nas quartas de final pela Croácia nos pênaltis, após 1 a 1 no tempo regulamentar e na prorrogação. Neymar havia marcado o gol brasileiro na prorrogação. A Seleção perdeu 4 a 2 nos pênaltis. Esses dados mostram que Neymar ainda pode ser decisivo — mas também que a Seleção não pode depender de um único jogador para atravessar um torneio de sete jogos.

Ancelotti tem até 18 de maio para anunciar a lista de convocados. Neymar disputa o Brasileirão pelo Santos e cada partida que joga — ou deixa de jogar — é lida pela comissão técnica como dado concreto. Nenhum ofício parlamentar altera esse calendário.

A convocação se decide no gramado do Brasileirão, não em papel timbrado da Câmara.