O barulho de 94 mil pessoas no MetLife Stadium vai parecer silêncio diante do peso do que Lionel Messi carrega para a Copa do Mundo de 2026. Aos 38 anos, seis Mundiais nas pernas e 13 gols acumulados ao longo de duas décadas de competição, o argentino chega ao torneio sediado nos Estados Unidos, Canadá e México com uma aritmética simples e ao mesmo tempo vertiginosa: quatro gols separam um homem vivo de um recorde que pertence a um fantasma da história.
A caçada a Klose e o que os números realmente exigem de Messi
Miroslav Klose encerrou sua trajetória em Copas do Mundo com 16 gols marcados em quatro edições — 2002, 2006, 2010 e 2014 —, um número que resistiu por doze anos sem qualquer ameaça real. O alemão ultrapassou Ronaldo Fenômeno, que soma 15, justamente na final de 2014 contra a Argentina, com um gol de cabeça no segundo tempo da prorrogação. Há uma ironia quase literária no fato de que Messi esteve naquela partida, do outro lado do campo, vendo o recorde ser consolidado enquanto sua seleção perdia por 1 a 0.
Hoje, com 13 gols, o camisa 10 da Argentina precisa marcar quatro vezes durante o torneio para superar definitivamente Klose. Uma média de um gol por jogo na fase de grupos já colocaria Messi no mesmo patamar do alemão. Não é uma missão trivial para um atleta de 38 anos — mas também não é impossível para quem marcou dois gols na final de 2022 contra a França, no que foi provavelmente o jogo mais dramático da história da competição, terminando em 3 a 3 após a prorrogação antes da disputa por pênaltis.
Kylian Mbappé, com 12 gols em Copas apesar de ter apenas 27 anos, é o único concorrente com capacidade aritmética de alcançar Klose antes de Messi — mas isso dependeria de uma campanha extraordinária do francês enquanto o argentino permanecesse estagnado, um cenário que contradiz a trajetória de ambos nos últimos Mundiais.
A vitória que faltava e o recorde que pode cair na fase de grupos
Há um recorde que Messi pode quebrar muito antes de qualquer discussão sobre artilharia: o de vitórias em Copas do Mundo. Com 16 triunfos pela Argentina em Mundiais, o camisa 10 está a apenas um passo de igualar Klose, que venceu 17 partidas com a Alemanha. Considerando que a Argentina estreia na fase de grupos e que a seleção campeã em 2022 mantém um elenco competitivo, a primeira vitória argentina no torneio já colocaria Messi sozinho no topo desta tabela.
É um tipo de recorde que transcende a estatística individual — porque vitórias dependem de coletivo, de tática, de um goleiro que defende pênalti ou de um lateral que cruza na hora certa. Klose chegou a 17 vitórias sendo peça central de uma Alemanha que disputou quatro semifinais consecutivas entre 2002 e 2014. Messi chegará a 17 sendo o protagonista da seleção que quebrou 36 anos de jejum e conquistou o título em 2022. Os contextos são diferentes; a grandeza, comparável.
Pense nisso como a diferença entre Miles Davis e John Coltrane: ambos transformaram o jazz, mas cada um com uma linguagem irredutível à do outro. Comparar Klose e Messi por vitórias em Copas é reconhecer que o futebol produz gênios de naturezas distintas — e que os números, às vezes, são apenas a superfície de algo mais profundo.
A sexta Copa e o que ainda falta para Messi fechar o círculo
A simples presença de Messi no torneio de 2026 já representa um marco sem precedentes na história recente do futebol. O argentino disputará sua sexta Copa do Mundo, tornando-se o único jogador ao lado de Cristiano Ronaldo a alcançar essa marca. Até hoje, apenas cinco atletas chegaram a cinco participações: além dos dois rivais históricos, Lothar Matthäus, Rafael Márquez e Andrés Guardado compõem esse grupo seleto.
Há ainda outro recorde no horizonte, este ligado a finais disputadas. Messi participou das decisões de 2014 (derrota para a Alemanha, 1 a 0 na prorrogação) e 2022 (vitória sobre a França, 3 a 3 com pênaltis). Com duas finais, ele ainda está abaixo de Cafu, lateral que disputou três decisões consecutivas com o Brasil — 1994 (vitória sobre a Itália), 1998 (derrota para a França por 3 a 0) e 2002 (vitória sobre a Alemanha por 2 a 0). Para igualar o brasileiro, Messi precisaria levar a Argentina a mais uma final, o que implicaria ao menos seis vitórias no torneio e uma campanha sem tropeços até o último domingo.
"Quero jogar a Copa do Mundo de 2026. Está confirmado", declarou Messi em entrevista ao jornal espanhol Marca no início de 2025, afastando qualquer especulação sobre uma possível aposentadoria antecipada da seleção.
A confirmação encerrou o debate sobre sua presença, mas abriu um outro, mais rico: qual é o tamanho do que ainda pode acontecer? A resposta está nos números que ele próprio construiu ao longo de cinco Mundiais — de um jovem de 18 anos que entrou como substituto contra a Sérvia em 2006 até o capitão de 35 que ergueu a taça em Lusail, no Qatar.
A Argentina entra no torneio como uma das favoritas ao título, com Messi liderando um elenco que inclui Julián Álvarez — artilheiro da Copa de 2022 com sete gols — e Rodrigo De Paul, peça central no meio-campo. O primeiro jogo da seleção na fase de grupos, a ser confirmado pelo sorteio da FIFA, será o ponto de partida para uma contagem regressiva que o mundo do futebol já começou a fazer: se Messi marcar gols nas três partidas da fase inicial, a discussão sobre Klose deixará de ser hipotética para se tornar inevitável. Você acredita que ele consegue chegar às oitavas de final já com o recorde de vitórias e ao menos dois gols marcados?









