O telefone tocou três vezes nos últimos meses com notícias que Carlo Ancelotti não queria receber. Rodrygo, Éder Militão e Estêvão — três dos nomes mais valiosos da pré-lista brasileira — foram derrubados por lesões graves antes mesmo de a Copa do Mundo começar. A pré-lista de 55 convocados entregue à FIFA já nasceu marcada por ausências forçadas, e a pergunta que o torcedor faz hoje é simples e angustiante: quantos mais vão cair antes de 18 de maio, quando Ancelotti fecha os 26 nomes definitivos?
"É uma preocupação. Já tivemos três lesões graves. Espero que não tenhamos mais problemas antes da Copa do Mundo", admitiu Ancelotti ao The Guardian, antes de acrescentar, com a ironia típica de quem viveu décadas no futebol de elite: "Ah, sim — rezo para que as lesões parem."
A declaração do técnico italiano não foi retórica. Ela traduz um estado de alerta real dentro da comissão técnica da Seleção. Em Copas anteriores, o Brasil também conheceu o drama das baixas de última hora: em 1998, Ronaldo convulsionou na véspera da final; em 2014, Neymar saiu com fratura na vértebra nas quartas contra a Colômbia e Thiago Silva cumpriu suspensão na semifinal — e o resto da história todo brasileiro prefere esquecer. A diferença agora é que as lesões chegaram antes, no período de pré-lista, dando a Ancelotti margem para planejar alternativas. Mas o relógio corre.
Os três nomes que já saíram e o buraco que deixaram na equipe
Rodrygo, do Real Madrid, era peça central no esquema de Ancelotti — o mesmo técnico que o conhece há anos no clube espanhol. A lesão do camisa 11 retira do Brasil um jogador capaz de atuar pelos dois lados do ataque e de movimentar a defesa adversária com velocidade e drible curto. Éder Militão, também do Real Madrid, seria o parceiro natural de Marquinhos na zaga, uma dupla que remete à solidez que Lúcio e Juan ofereceram na Copa de 2006, quando o Brasil foi eliminado nas quartas pela França de Zidane. Militão lesionado abre espaço para Bremer, da Juventus, mas coloca pressão sobre um setor que já não é o ponto mais forte desta geração. Estêvão, revelação do Palmeiras contratada pelo Chelsea por cifras recordes para um jovem brasileiro, tinha 18 anos quando encantou o mundo — e agora assiste à preparação da Copa de longe, em recuperação.
Cinco nomes da pré-lista que vivem na corda bamba médica
Além dos três já confirmados fora, há pelo menos cinco jogadores da pré-lista de 55 cujo estado físico preocupa a comissão técnica e pode resultar em corte até o dia do anúncio oficial:
- Bremer (Juventus) — O zagueiro passou por cirurgia no joelho em outubro de 2024 e, embora esteja em processo de retorno, ainda não atingiu o ritmo de jogo ideal. Uma recaída o tiraria da Copa e deixaria a zaga ainda mais exposta.
- Gabriel Jesus (Arsenal) — O centroavante acumula um histórico de lesões musculares recorrentes nos últimos dois anos. Quando está inteiro, é um dos atacantes mais inteligentes do elenco; quando não está, vira incógnita.
- Neymar (Santos) — O camisa 10 histórico voltou ao Brasil para tentar recuperar o nível após a lesão no joelho que o afastou por quase um ano. Aos 34 anos, cada treino intenso carrega risco. Ancelotti o incluiu na pré-lista, mas a decisão final dependerá de laudos médicos, não apenas de memória afetiva.
- Richarlison (Tottenham) — O atacante de Uberlândia tem histórico de lesões musculares e problemas físicos que o tiraram de momentos decisivos, inclusive na temporada 2025/2026 da Premier League. Sua presença na Copa está condicionada a uma sequência de jogos sem intercorrências nas próximas semanas.
- Casemiro (Manchester United) — O volante, que foi peça-chave na Copa de 2022 no Catar, atravessa uma fase de rendimento irregular no clube inglês e carrega o desgaste físico de 34 anos de futebol de alto nível. Uma lesão ou queda de condição pode abrí-lo ao corte técnico — o que, neste caso, se confundiria com o corte médico.
O que Ancelotti ainda precisa resolver antes de fechar os 26
A pré-lista de 55 nomes entregue à FIFA inclui seis goleiros — Alisson, Bento, Ederson (Fenerbahçe), Hugo Souza, John e Weverton —, 20 defensores, 12 meio-campistas e 17 atacantes. Desse universo, apenas 26 embarcarão. Matematicamente, 29 serão cortados. Ancelotti terá de reduzir o grupo pela metade em questão de dias, e a variável lesão pode forçar escolhas que nenhuma análise tática antecipa.

"A responsabilidade que ele carrega pelo Brasil é enorme, especialmente nos últimos tempos. Nosso trabalho na Seleção é aliviar um pouco esse peso para que ele possa jogar com alegria, energia e todas as qualidades que possui", disse Ancelotti sobre Vinícius Júnior, único nome da lista que parece acima de qualquer discussão de corte.
A história das Copas do Mundo ensina que o Brasil raramente chegou a um torneio com 26 jogadores 100% saudáveis. Em 2002, o técnico Luiz Felipe Scolari perdeu Emerson na véspera e improvisou com Gilberto Silva — que terminou campeão. Em 2010, Kaká chegou a Joanesburgo abaixo do ritmo ideal após lesão e foi um dos fantasmas do time de Dunga. Ancelotti sabe que o imponderável faz parte do jogo. A diferença é que, desta vez, ele já perdeu três titulares antes de o torneio começar — e a lista final precisa ser entregue em 18 de maio, daqui a exatos cinco dias.









