Não foi a União que entrou em campo para segurar o BRB. O acordo fechado na quinta-feira (28) no Supremo Tribunal Federal entre o governo federal e o Distrito Federal deixa isso em letras garrafais: nenhum recurso da União foi transferido, nenhum aval foi concedido. Quem vai sustentar o peso de um empréstimo de até R$ 6,5 bilhões é o próprio DF, usando como contragarantia os repasses que recebe via Fundo de Participação dos Estados (FPE) e Fundo de Participação dos Municípios (FPM). O protagonista desta crise é o Banco de Brasília — e a pergunta que ninguém conseguiu responder ainda é se o plano de reestruturação exigido tem força suficiente para segurar um rombo que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, estimou em R$ 17 bilhões em caso de quebra total.

O golpe que derrubou o BRB veio das carteiras do Banco Master

Antes de falar de solução, é preciso entender a extensão do dano. O BRB comprou cerca de R$ 21,9 bilhões em ativos do Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro — operações que se revelaram problemáticas e geraram um rombo ainda não totalmente dimensionado. Tão grave que o banco público não publicou seu balanço de 2025 até agora, descumprindo prazos legais do Banco Central. Num combate de MMA, isso equivale a um lutador que absorveu um ground and pound devastador no primeiro round e ainda não deixou o ringue confirmar a extensão das lesões. O médico da comissão — no caso, o Bacen — está em campo, mas o laudo completo não saiu.

O aumento de capital de até R$ 8,8 bilhões, aprovado em assembleia extraordinária em abril, pode não ser suficiente no longo prazo, segundo técnicos do governo federal que participaram do desenho do resgate. O empréstimo do FGC, com prazo de 15 anos e dois anos de carência conforme proposta da governadora Celina Leão (PP), dá fôlego imediato — mas não resolve o problema estrutural se o plano de negócios não convencer.

"Não há recursos da União sendo transferidos nem garantia ou aval da União em favor do Distrito Federal", afirmou Flávio Roman, da Advocacia-Geral da União, ao término da audiência de conciliação que durou 1h45.

Celina Leão precisa colocar mais do que palavras no plano de reestruturação

A audiência no STF, mediada pelo ministro Luiz Fux, reuniu nomes pesados: além de Durigan e Celina Leão, estavam presentes o presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, e os diretores do Banco Central Ailton de Aquino (Fiscalização) e Gilneu Vivan (Regulação). Fux, segundo relatos, limitou-se a homologar a proposta levada pelo Ministério da Fazenda. O acordo prevê que o BRB apresente um plano de negócios ao FGC antes de qualquer liberação de crédito — ou seja, o empréstimo não está garantido, está condicionado.

Técnicos do governo federal são diretos: a governadora precisará "colocar pele no jogo". Isso significa vender ativos além dos que já estão programados, injetando capital adicional no banco. O DF esbarra ainda em um limite técnico severo: sua nota no indicador de Capacidade de Pagamento (Capag) do Tesouro Nacional é baixa, o que normalmente impediria a operação. O governo federal concordou em ampliar o limite de crédito do DF, hoje travado em torno de R$ 900 milhões pelo Programa de Reestruturação e Ajuste Fiscal (PAF) — um teto sete vezes menor que o empréstimo proposto.

"O acordo de hoje é entre a União e o Distrito Federal. Ou seja, o eventual empréstimo pelo FGC ainda depende da avaliação do plano de negócios que vai ser apresentado pelo BRB", reforçou Roman ao término da audiência.

Há ainda a possibilidade de securitização de dívidas pelo governo do DF, que abriria espaço para um crédito adicional de R$ 2,5 bilhões. O sindicato de bancos públicos e privados que participaria da operação como fiador ainda não teve seus nomes confirmados publicamente.

Os riscos reais para o DF vão além do valor do empréstimo

Quem assistiu à série Succession reconhece o padrão: uma empresa familiar em crise tenta se salvar com movimentos de última hora que resolvem o problema imediato mas deixam a governança ainda mais frágil. O BRB corre risco semelhante. O acordo impõe ao governo do DF restrições fiscais concretas: proibição de reajuste salarial para servidores, criação de novos cargos e realização de concursos públicos. São amarras que limitam a margem de manobra política de Celina Leão nos próximos anos.

Do ponto de vista do mercado, os investidores reagiram com otimismo imediato. As ações do BRB (BSLI4) saltaram 3,5% na B3 na tarde de quinta-feira, chegando a R$ 3,90 e devolvendo ao banco um valuation de R$ 7,7 bilhões. O alívio, porém, tem contexto: no acumulado de 2026, os papéis acumulam desvalorização de 57%, segundo dados da B3. Um sprawl técnico que evitou o nocaute, mas não apagou os danos absorvidos.

O risco mais concreto para o DF está no prazo. O FGC só libera os recursos após análise do plano de negócios do BRB — e o banco ainda não publicou seu balanço de 2025. Sem transparência contábil, a avaliação do FGC fica comprometida, e qualquer atraso na capitalização pode agravar a situação de liquidez do banco. O governo do DF tem até agora o acordo político; o que vem a seguir é a prova técnica, e ela começa com a entrega desse balanço ao Banco Central.

A próxima etapa decisiva é a apresentação formal do plano de negócios do BRB ao FGC, prevista para as semanas seguintes à homologação do acordo no STF. Quem acompanha o setor financeiro e tem exposição em BSLI4 vai querer monitorar de perto essa entrega — é ela que vai determinar se o empréstimo de R$ 6,5 bilhões sai do papel ou fica como promessa em ata de audiência.