A última vez que uma operação policial brasileira movimentou esse volume de bloqueios em crimes ligados a plataformas digitais de apostas foi durante as investigações do esquema de pirâmides financeiras em criptomoedas de 2022 — e mesmo assim, os números ficaram abaixo dos R$ 96 milhões somados nas ações deflagradas no Ceará e no Distrito Federal nos últimos meses. A diferença agora é o mecanismo: não foi um algoritmo obscuro que atraiu as vítimas. Foram rostos conhecidos, com milhares de seguidores, exibindo maços de notas de R$ 100 na câmera do celular.
A engenharia da ilusão dentro das plataformas do Tigrinho
Para entender como o golpe funcionava, pense em um dinamômetro de academia que foi calibrado para sempre mostrar 20% a mais do que o peso real. Quem treina nele acha que está mais forte do que é. As chamadas contas demo — ou contas de demonstração — funcionam exatamente assim: são versões das plataformas de apostas em que os resultados são programados para serem favoráveis ao usuário, criando a percepção de ganhos fáceis e recorrentes. O influenciador jogava nessa versão adulterada, gravava o resultado, publicava para os seguidores e incluía um link. Quando a vítima clicava, entrava na versão real — onde o algoritmo garantia, sistematicamente, a perda do capital investido.
No epicentro do esquema investigado pela 18ª Delegacia de Polícia de Brazlândia, no DF, estavam o influenciador Roberth Lucas, 24 anos, e Eduarda Cavalcante, 21. Em vídeos analisados pelos investigadores, Roberth aparecia pagando compras de alto valor com maços de notas de R$ 100, exibidas ostensivamente para a câmera. A movimentação financeira de apenas um dos investigados atingia a média de R$ 48 mil por dia, segundo apuração da Polícia Civil do Distrito Federal. No total, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 11 milhões das contas do grupo.
Para dificultar o rastreamento, a estrutura utilizava servidores proxy para ocultar identidades e CPFs de terceiros para lavar os recursos. O delegado Fernando Cocito descreveu a organização como sofisticada, com divisão clara de funções:
"O bando possuía uma organização sofisticada, com divisão de tarefas que incluía recrutadores, estrategistas e operadores financeiros especializados."
Como os influenciadores de Canindé viraram peças de uma máquina nacional
A Operação Jogo Sujo, deflagrada pela Polícia Civil do Ceará na quinta-feira, 21 de maio de 2026, alcançou seis estados — Ceará, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso — e contou com cooperação internacional de agências de segurança dos Estados Unidos. Seis mandados de prisão preventiva e 17 mandados de busca e apreensão foram cumpridos. O resultado financeiro foi expressivo: R$ 85 milhões bloqueados em contas bancárias, além da apreensão de mais de 20 veículos de luxo, incluindo uma lancha avaliada em R$ 2,4 milhões pertencente a um investigado de Florianópolis.

O delegado Cleidson Fernandes, titular da Delegacia de Canindé, explicou como a investigação começou e como os elos da cadeia foram sendo identificados:
"Essa investigação iniciou ano passado, quando a Delecia de Canindé recebeu a informação de que estavam divulgando links do jogo do tigrinho. A partir dessas primeiras informações, o Núcleo de Inteligência começou a trabalhar e identificou as pessoas de Canindé que faziam essas divulgações, que são em torno de dez influenciadores de Canindé."
O que a investigação revelou depois foi ainda mais relevante: os influenciadores locais eram apenas a camada visível. Por trás deles havia donos de bancas e operadores financeiros instalados em outros estados, responsáveis pelo fluxo real do dinheiro. Três suspeitos ainda estavam sendo procurados até o fechamento desta reportagem.
"Temos caso de gente que perdeu casa por conta do vício na plataforma", afirmou o delegado Fernandes.

Quem paga a conta quando o algoritmo sempre vence
A cadeia de efeitos desse esquema tem uma lógica cruel e bem calibrada. Os influenciadores recebiam pelas divulgações — um modelo de afiliado em que a comissão era paga por cada novo usuário cadastrado via link. Quanto mais seguidores, mais vítimas potenciais. Quanto mais ostentação nas redes, mais credibilidade para o produto. O dinheiro das apostas, segundo as investigações do DF, era frequentemente desviado para os criminosos antes mesmo de entrar no sistema oficial da plataforma — ou seja, a perda da vítima era dupla: perdia para o algoritmo e ainda financiava diretamente quem a enganou.
As investigações do DF, que ganharam força após a apreensão na residência de Roberth Lucas em julho do ano passado, apontam que os alvos poderão responder por estelionato e organização criminosa. As diligências continuam para rastrear ativos ocultos em paraísos fiscais e carteiras de criptomoedas. No Ceará, os investigadores já mapearam a estrutura piramidal completa: do influenciador de cidade pequena ao operador financeiro de grande centro urbano, passando pelos donos das bancas que lucravam com cada real perdido por uma vítima que nunca viu uma conta demo na vida.
O efeito cascata que as operações ainda não conseguiram conter
Somadas, as duas operações bloquearam R$ 96 milhões — um número expressivo, mas que representa apenas a fração rastreável de um mercado que opera em escala industrial nas redes sociais brasileiras. A estrutura descrita pelas polícias do DF e do Ceará não é exclusiva dessas investigações: é um modelo replicável, com baixo custo de entrada para o influenciador e altíssimo retorno para quem controla as plataformas no topo da cadeia.
O padrão identificado nas duas operações — conta demo, link fraudulento, ostentação nas redes, CPF de terceiros para lavagem — funciona como um manual que pode ser replicado por qualquer pessoa com câmera e audiência. Enquanto as investigações avançam para identificar ativos em criptomoedas e eventuais conexões internacionais, o modelo de negócio que sustentou R$ 96 milhões em bloqueios continua tecnicamente disponível para quem quiser reproduzi-lo. Não há tragédia aqui: há contabilidade.
A Polícia Civil do Ceará informou que as investigações da Operação Jogo Sujo prosseguem, com foco na identificação de outros integrantes da rede e no rastreamento de ativos no exterior. Os seis presos responderão por estelionato e organização criminosa.










