Quebrou. Não no sentido literal da falência, mas no sentido mais delicado e revelador da palavra — aquele momento em que a estrutura de um projeto colossal deixa de sustentar seu próprio peso. A Raízen, joint venture entre a Cosan e a Shell que figura entre os maiores processadores de cana-de-açúcar do planeta, protocolou em 11 de março de 2026 o maior pedido de recuperação extrajudicial já registrado no Brasil, carregando uma dívida de R$ 65,1 bilhões. O placar é brutal. E o jogo ainda não acabou.

Os bastidores de uma crise construída em camadas

A tensão não chegou de uma vez — ela foi acumulando, set após set, como uma partida de cinco horas disputada sob sol escaldante.

A trajetória que desembocou no pedido de recuperação extrajudicial foi desenhada por uma combinação de fatores que se sobrepuseram com precisão implacável. Investimentos pesados em expansão, clima instável que devastou canaviais e incêndios que reduziram os volumes de esmagamento de cana criaram um triângulo perfeito de pressão financeira. O resultado apareceu nos balanços: prejuízos sucessivos, dívida líquida em trajetória ascendente e, em fevereiro de 2026, um alerta formal da própria companhia sobre "incerteza significativa" quanto à sua capacidade de continuar operando. Nenhum ace saiu da raquete da empresa naquele período — apenas erros não forçados que foram se acumulando até o break point definitivo.

Segundo apuração do SportNavo, o perfil da dívida tem característica majoritariamente de longo prazo, com prazo médio de 7,6 anos — o que, em tese, oferece algum espaço de manobra. O problema imediato, porém, é que cerca de R$ 13 bilhões precisarão ser desembolsados nos próximos 24 meses, apenas para amortização. É a pressão do segundo set chegando antes que o primeiro tenha sido resolvido.

A mesa de negociação e o silêncio dos bondholders

Cada proposta na mesa tem peso de um match point — e nenhuma foi convertida ainda.

Quando o pedido foi protocolado, a Raízen anunciou que já contava com a adesão expressa de credores signatários titulares de mais de 47% das dívidas financeiras, o que a empresa classificou como "apoio relevante aos esforços para viabilizar a reestruturação". A partir daí, a companhia teria 90 dias para alcançar o percentual mínimo necessário à homologação do plano — e o prazo final para apresentar esse plano à Justiça está fixado para meados de junho de 2026.

O obstáculo mais resistente, porém, são os chamados bondholders — detentores da dívida externa da Raízen. Até o momento, esse grupo não aderiu ao plano. A companhia avalia que, mesmo sem um acordo com eles, poderá entregar o plano sustentada pelo suporte dos credores bancários e da dívida local, segundo fontes próximas às negociações. Na mesa, circulam propostas variadas: uma delas prevê que 30% dos recursos obtidos com a venda de ativos na Argentina sejam direcionados para redução de dívida. Outra proposta envolve a troca de dívidas por participação acionária — os credores querem fatia relevante da companhia como contrapartida.

Há ainda uma movimentação de natureza mais pessoal no tabuleiro. Rubens Ometto, fundador da Cosan e presidente do conselho de administração da Raízen, deve deixar o cargo. Sua holding familiar chegou a sinalizar um aporte de R$ 500 milhões — valor que os credores consideraram insuficiente diante da magnitude do problema. A Shell, por sua vez, comprometeu-se com um investimento de R$ 3,5 bilhões para apoiar a reestruturação. A Cosan e a Shell detêm cada uma 44% da Raízen.

"A companhia mantém tratativas e interlocuções com determinados credores financeiros e demais partes interessadas, com o objetivo de construir uma solução consensual para sua reestruturação financeira", informou a Raízen em comunicado oficial à B3.
"É natural que alternativas, propostas, cenários e estruturas preliminares, de caráter não vinculante, sejam apresentados, discutidos e eventualmente revistos no curso das negociações", completou a empresa, reforçando que nenhum acordo vinculante havia sido firmado até a data do comunicado.

O impacto de R$ 65 bilhões num setor que move o Brasil

A escala da crise é proporcional à escala da empresa — e ambas são difíceis de dimensionar sem parar para respirar.

A Raízen não é uma companhia qualquer. Com mais de 34 mil colaboradores, o grupo controla 35 usinas de produção de açúcar, etanol e bioenergia. Na safra 2024/2025, registrou receita líquida de R$ 255,3 bilhões, produziu mais de 5 milhões de toneladas de açúcar, superou 3 bilhões de litros de etanol e gerou mais de 1,9 GWh de energia renovável. Na distribuição de combustíveis, ocupa a segunda posição no Brasil e na Argentina. Uma reestruturação desse porte reverbera em toda a cadeia — de fornecedores de cana a distribuidores de combustível, passando por investidores institucionais expostos aos bonds da companhia em mercados internacionais.

A empresa foi enfática ao garantir que o plano de recuperação extrajudicial não abrangerá dívidas com clientes, fornecedores, revendedores e demais parceiros operacionais — sinalizando que a continuidade das operações não está em risco imediato. As obrigações comerciais seguem sendo honradas normalmente. O que está em disputa é a arquitetura financeira que sustenta a companhia no longo prazo, não o funcionamento das usinas nesta semana.

O prazo é o árbitro desta partida. A Raízen precisa apresentar seu plano de reestruturação à Justiça até meados de junho de 2026 — menos de quatro semanas à frente. Se o plano for homologado, vincula 100% dos créditos sujeitos às novas condições de pagamento, inclusive os credores que não assinaram voluntariamente. A próxima rodada de negociações com os bondholders começa na semana que vem, e o resultado dela determinará se a companhia chega ao tribunal com um acordo robusto ou com uma estrutura parcial que ainda precisará ser costurada sob pressão do relógio. Uma partitura incompleta, por mais que os músicos sejam talentosos, não se executa no palco sem dissonâncias.