O placar já marcava 1 a 0 quando Romano Schmid, aos 20 minutos do primeiro tempo, recebeu o passe de Xaver Schlager e bateu cruzado no Levi's Stadium, em Santa Clara, Califórnia. Só naquele instante — com a bola no fundo da rede jordaniana — ficou claro para boa parte do mundo que a Copa do Mundo havia ganado de volta uma seleção que parecia ter desaparecido do mapa: a Áustria, ausente de qualquer Mundial desde a edição francesa de 1998. Vinte e oito anos de espera, encerrados em uma noite de quarta-feira (17 de junho de 2026) com placar final de 3 a 1.

A tese dominante que o futebol austríaco precisou derrubar

Durante quase três décadas, a narrativa sobre a Áustria no futebol internacional era de declínio irreversível. O país que havia chegado à semifinal da Copa de 1954 e produzido o lendário Wunderteam dos anos 1930 parecia condenado ao papel de figurante nas Eliminatórias europeias. A última participação em um Mundial, na França em 1998, terminou na fase de grupos, com derrota memorável de 3 a 2 para a Itália. Depois disso, o silêncio.

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Quando a federação austríaca anunciou, em julho de 2022, a contratação de Ralf Rangnick — então saindo de uma passagem discreta pelo Manchester United como treinador interino — a recepção foi de ceticismo. O alemão era respeitado como arquiteto de projetos de longo prazo, o homem que havia inventado o estilo Red Bull de pressão alta e transições rápidas, mas nunca havia comandado uma seleção nacional. A pergunta que circulava nos meios especializados era legítima: um técnico de clube conseguiria adaptar sua metodologia ao calendário fragmentado do futebol de seleções?

Como Rangnick refez a Áustria de dentro para fora

A resposta veio em etapas. Rangnick não apenas manteve os nomes consagrados — David Alaba, Marcel Sabitzer, Marko Arnautovic — como construiu ao redor deles uma estrutura coletiva que o futebol austríaco nunca havia experimentado com tanta consistência. A marcação intensa na saída de bola e a velocidade nas transições ofensivas tornaram-se a identidade da equipe. Os números das Eliminatórias europeias do Grupo H confirmam o trabalho: seis vitórias em oito jogos, 22 gols marcados e apenas quatro sofridos, com a Áustria terminando na primeira colocação à frente de Romênia e Bósnia.

A tese dominante que o futebol austríaco precisou derrubar Rangnick ressuscita a
A tese dominante que o futebol austríaco precisou derrubar Rangnick ressuscita a

Os amistosos preparatórios reforçaram a impressão. A seleção goleou Gana por 5 a 1, bateu a Turquia por 6 a 1 e venceu a Coreia do Sul e a Tunísia, ambas por 1 a 0 — esta última com gol do próprio Sabitzer, que chegou ao Mundial como o cérebro criativo do meio-campo atuando pelo Borussia Dortmund. Konrad Laimer, do Bayern de Munique, e o experiente Arnautovic, atualmente na Estrela Vermelha, completam o trio de referência em torno do qual Rangnick montou o esquema.

Nas palavras que circularam na imprensa europeia antes da Copa, Rangnick descreveu sua filosofia com precisão cirúrgica:

"Quero que meus jogadores entendam o jogo tão bem que as decisões certas sejam automáticas. Não é sobre o sistema — é sobre a mentalidade."
Essa mentalidade ficou evidente no Levi's Stadium.

A síntese de uma noite que não foi simples

A partida contra a Jordânia — estreante absoluta em Mundiais, classificada como segunda colocada do Grupo B asiático atrás da Coreia do Sul — não seguiu o roteiro tranquilo que o favoritismo austríaco sugeria. O técnico marroquino Jamal Sellami armou uma linha compacta de cinco defensores que funcionou como um corredor estreito, fechando os espaços centrais com a eficiência de uma comporta hidráulica. A Jordânia chegou ao empate logo no início do segundo tempo, aos 5 minutos, com Ali Olwan aproveitando falha da marcação austríaca.

O empate durou pouco. Aos 21 minutos da etapa final, em cobrança de escanteio pela esquerda, Yazan Al-Arab desviou a bola contra o próprio gol após cruzamento de Sabitzer — um gol contra que recolocou a Áustria à frente. O árbitro mauritano Dahane Beida ainda precisou recorrer ao VAR para anular um gol de Arnautovic por toque de mão de Stefan Posch na jogada anterior, episódio que gerou o cartão amarelo para Sabitzer por reclamação. A tensão só foi dissipada nos acréscimos: aos 90+12, o próprio Arnautovic, que havia entrado no intervalo no lugar de Seiwald, finalizou de pé esquerdo para confirmar o 3 a 1 definitivo.

As estatísticas da partida revelam um equilíbrio maior do que o placar sugere. A Jordânia registrou dez finalizações contra oito da Áustria, e seu principal nome, Mousa Al-Tamari — o atacante do Rennes apelidado de "Messi da Jordânia" — criou situações perigosas que exigiram atenção da defesa liderada por Alaba. O Real Madrid emprestou à Áustria não apenas um jogador de classe mundial, mas também a liderança defensiva sem a qual o resultado poderia ter sido outro.

"Fizemos o suficiente para vencer, mas sabemos que há muito a melhorar", disse Rangnick à saída do gramado, segundo a imprensa europeia presente em Santa Clara.

A contra-leitura honesta do resultado aponta para isso: a Áustria venceu, mas a Jordânia — sem o artilheiro Yazan Al-Naimat, cortado por grave contusão no joelho — mostrou que o futebol árabe evoluiu o suficiente para incomodar seleções europeias estabelecidas. O equilíbrio de finalizações e a capacidade de pressão em transições rápidas, lideradas por Al-Tamari, são dados que nenhuma seleção do Grupo J deveria ignorar.

A síntese, porém, pertence à Áustria. Três gols marcados, retorno ao Mundial após 28 anos e a confirmação de que Rangnick transformou em quatro temporadas uma seleção invisível em um time com identidade, método e ambição. O próximo teste chegará em 22 de junho, quando os austríacos enfrentarão a Argentina — e aí saberemos se o renascimento é real ou apenas o brilho da estreia.