O silêncio do vestiário uruguaio em Guadalajara na noite de 26 de junho de 2026 foi mais ensurdecedor do que qualquer vaia. A Copa do Mundo terminou para a Celeste com apenas dois pontos conquistados — um empate de 1 a 1 contra a Arábia Saudita, um empate de 2 a 2 contra Cabo Verde e uma derrota de 1 a 0 para a Espanha — e com uma pergunta que Montevidéu não consegue responder: o que aconteceu, de fato, nos bastidores desta campanha?

A rebelião que ninguém quis confirmar mas todo mundo já sabia

Segundo relatos publicados por jornais locais uruguaios, jogadores da Celeste teriam se rebelado contra Marcelo Bielsa às vésperas do confronto decisivo contra a Espanha. A informação, que circulou nos bastidores da imprensa sul-americana antes mesmo do apito final, ganha peso quando colocada ao lado do histórico do treinador argentino: Bielsa nunca foi um gestor de consenso. Nos 26 anos de carreira como técnico de seleções e clubes — passando por Argentina, Chile, Athletic Bilbao, Marselha, Leeds e Lazio — o rosarino construiu equipes de altíssima intensidade física e exigência tática, mas deixou rastros de desgaste humano em praticamente todos os ambientes que ocupou.

No Chile, entre 2007 e 2011, Bielsa transformou uma seleção medíocre numa das mais modernas do continente, chegando às oitavas de final da Copa de 2010 na África do Sul. Mas o custo foi alto: relatos de exaustão física e tensão permanente marcaram aquela geração. No Leeds United, entre 2018 e 2022, o clube chegou à Premier League após 16 anos de ausência, mas a segunda temporada na elite terminou em rebaixamento e demissão. O padrão se repete: resultados extraordinários no início, colapso quando o desgaste acumula.

No Uruguai, o processo foi ainda mais delicado. Bielsa assumiu a seleção em 2023 sem o capital político de uma geração vitoriosa ao redor dele. Luís Suárez já havia se aposentado da Celeste. Edinson Cavani, 38 anos em 2026, estava fora da convocação. O treinador herdou um elenco de transição e optou por um esquema de pressão alta que exige condicionamento físico de elite — algo difícil de sustentar num torneio de três jogos em dez dias, especialmente quando parte do elenco já chegou ao Mundial com desgaste acumulado da temporada europeia.

Bielsa perde a paciência e a imagem que restava

Se havia alguma dúvida sobre o estado emocional do técnico, a entrevista pós-jogo a dissipou. Ao ser abordado por uma jornalista na saída do gramado, Bielsa demonstrou irritação com a demora para o início da conversa e respondeu com frases curtas e fechadas. A fala que circulou nas redes sociais foi direta:

"Vamos de uma vez!", esbravejou Bielsa, visivelmente fora do controle emocional que se espera de um técnico de seleção num Mundial.

A cena, registrada em vídeo e amplamente compartilhada, funcionou como termômetro de um ambiente que já estava deteriorado bem antes do apito final contra os espanhóis. Num torneio em que cada palavra de um treinador é amplificada globalmente, a imagem de Bielsa explodindo com uma repórter — numa Copa sediada nos Estados Unidos, México e Canadá, com cobertura de dezenas de países — causou dano institucional à Asociación Uruguaya de Fútbol que vai muito além do resultado esportivo.

Historicamente, o Uruguai já havia sido eliminado na fase de grupos em 1966 (Inglaterra), em 1974 (Alemanha Ocidental) e em 2002 (Coreia/Japão). A campanha de 2026 se enquadra nessa prateleira de fracassos — agravada pelo fato de que, desta vez, a Celeste sequer conseguiu vencer uma partida. Nos três jogos, o time de Bielsa marcou três gols e sofreu dois, mas o aproveitamento de 22,2% (dois pontos em nove possíveis) foi insuficiente até para garantir vaga entre os melhores terceiros colocados.

Canobbio, a expulsão e o que sobra para o futuro da Celeste

Dentro de campo, um dos poucos pontos positivos da campanha uruguaia foi o desempenho de Agustín Canobbio, atacante do Fluminense, de 27 anos. Canobbio entrou como substituto no empate contra a Arábia Saudita, virou titular, marcou o segundo gol uruguaio no empate de 2 a 2 com Cabo Verde e foi escalado novamente no jogo decisivo contra a Espanha. Nos três jogos, disputou 225 minutos, registrou média de 2,0 desarmes por partida e 4,0 duelos ganhos pelo chão — números que indicam comprometimento defensivo acima da média para um atacante.

O problema foi o desfecho: nos acréscimos do jogo contra a Espanha, já com o placar em 1 a 0 para os europeus, Canobbio foi expulso. A cena sintetizou a tarde uruguaia — um jogador que lutou até o fim, mas que encerrou sua Copa da pior forma possível. Como num trânsito da Avenida Paulista às 18h, tudo que poderia dar errado, deu.

Canobbio retorna ao Fluminense com férias programadas até 10 de julho, segundo informações publicadas em matéria do SportNavo. O atacante não estará disponível para o amistoso contra o Nova Iguaçu no dia 8 de julho, no Maracanã, e sua presença no jogo contra o Bahia no dia 12 ainda é incerta. A estreia esperada pelo Tricolor carioca em partida oficial deve acontecer somente em 17 de julho, pelo Campeonato Brasileiro, contra o Red Bull Bragantino.

Para o Uruguai, a questão imediata é outra: Bielsa seguirá no cargo? A AUF precisará decidir se mantém um treinador que chegou ao Mundial com um projeto tático coerente mas que perdeu o vestiário antes do jogo mais importante do grupo. Nas últimas quatro Copas em que o Uruguai participou — 2010 (quarto lugar), 2014 (oitavas), 2018 (quartas) e 2022 (fase de grupos) — a seleção celeste nunca havia somado menos de quatro pontos na primeira fase. A campanha de 2026 é, numericamente, a pior em 16 anos. Com a próxima Copa América prevista para 2027, a pergunta que a torcida uruguaia precisa responder é: Bielsa ainda tem condições de reconstruir um grupo que, segundo relatos, já não acredita nele?