Confesso: eu errei sobre Ricardo Catalá Salgado Junior em 2024. Enquanto o futebol paulista discutia nomes maiores para bancas mais iluminadas, eu passei por cima desse treinador como quem ignora uma nota de rodapé. Hoje, com o Brasileirão Série B de 2026 em curso e o São Bernardo figurando no radar de quem acompanha a segunda divisão com seriedade, percebo o tamanho do equívoco. Não há tragédia: há contabilidade.
O momento em que tudo balançou
A Série B não é uma competição que oferece crédito antecipado. São 38 rodadas de desgaste contínuo, onde o aproveitamento cumulativo expõe qualquer fragilidade de planejamento — e onde treinadores sem identidade tática definida tendem a ser engolidos pela pressão do calendário antes de chegar à metade da tabela. Ricardo Catalá Salgado Junior chegou ao São Bernardo carregando uma carreira em construção, sem o peso de um currículo repleto de títulos nacionais que funcionasse como escudo contra a crítica. Esse é exatamente o tipo de situação que revela o que um técnico tem de essencial: quando não há troféu para exibir no cartão de visita, o trabalho precisa falar mais alto do que o nome.
O risco de um treinador nessa condição é duplo. Do lado de fora, a desconfiança da torcida e da imprensa, que cobram resultados sem conceder tempo. Do lado de dentro, a necessidade de construir autoridade num vestiário que ainda está calibrando o nível de confiança no comando. Catalá enfrentou esse cenário sem a proteção de um histórico extenso — o que, paradoxalmente, pode ter sido o seu maior ativo. Quem não tem legado a defender constrói um com mais liberdade de escolha.
O que ele mudou imediatamente
Treinadores que chegam a clubes de Série B com elencos heterogêneos precisam tomar decisões de banco antes de qualquer ajuste tático. A primeira decisão concreta de Catalá foi de ordem organizacional: definir hierarquia de função dentro de campo sem depender de nomes consagrados para sustentar o sistema. O São Bernardo não é um clube de orçamento elástico — o que significa que cada escolha de escalação tem peso financeiro e esportivo simultaneamente. Nesse ambiente, o treinador que improvisa perde antes de jogar.

A orientação tática que Catalá imprimiu ao São Bernardo aponta para um modelo de bloco médio compacto, com transições rápidas para o ataque assim que a posse é recuperada. Não é um estilo espetacular, mas é um estilo funcional para a realidade da Série B — onde o desgaste físico e o calendário acumulado penalizam equipes que tentam controlar a posse sem ter elenco profundo o suficiente para sustentar esse modelo por 90 minutos semana após semana. A decisão de priorizar organização defensiva sobre posse elaborada não é timidez: é leitura de contexto.
Como o time respondeu à mudança
Há um contra-argumento recorrente quando se fala de treinadores em início de carreira: o time responde bem no curto prazo porque o efeito novidade motiva o elenco, mas a resposta real só aparece quando a lua de mel acaba. É um argumento legítimo. O problema é que ele ignora um dado concreto: times que absorvem rapidamente uma identidade tática coletiva — independentemente do fator motivacional — tendem a manter consistência mesmo quando o entusiasmo inicial arrefece, porque os automatismos já estão instalados.
No caso do São Bernardo de 2026, o que se observa é uma equipe que opera com clareza de papel. Cada linha do campo sabe o que se espera dela nas fases de posse e de não-posse. Isso não acontece por acidente — é produto de repetição em treino e de cobrança diária de padrão. Catalá, ao que tudo indica pela dinâmica do grupo em campo, não é um técnico que delega a organização para o acaso do talento individual. Ele estrutura antes de liberar. E na Série B, estrutura vale mais do que talento solto.
O que ficou de aprendizado para ele
O Brasileirão Série B de 2026 está sendo, para Ricardo Catalá Salgado Junior, aquilo que nenhum curso de treinador consegue simular: a gestão de pressão real, com consequências reais, num ambiente onde o erro não tem edição de corte. Treinadores que sobrevivem a esse processo — não apenas tecnicamente, mas na capacidade de manter o grupo coeso sob crítica externa — saem transformados. Não é romantismo: é o dado histórico de como os principais técnicos do futebol brasileiro construíram autoridade antes de conquistar qualquer título expressivo.
A lacuna no currículo de Catalá — dados limitados de clubes anteriores, trajetória ainda em formação — não é necessariamente um sinal de fragilidade. É um mapa incompleto. E mapas incompletos, no futebol, costumam ser preenchidos por quem tem método suficiente para não se perder no caminho. O São Bernardo está sendo, nesta temporada, o laboratório onde esse método está sendo testado com seriedade. O aprendizado mais durável que esse ciclo pode deixar para o treinador é simples e preciso: autoridade não se herda de currículo — se constrói de decisão em decisão, banco a banco, semana a semana.
Nas próximas rodadas da Série B, o São Bernardo vai enfrentar o tipo de sequência que define campanhas — jogos consecutivos contra adversários diretos na tabela, sem margem para gestão de resultado. É nesses momentos que Catalá vai precisar demonstrar que as mudanças implementadas no início do trabalho já criaram raízes profundas o suficiente para aguentar turbulência. Não há atalho para essa prova. E é exatamente por isso que ela importa.
Banco de reservas vazio, tarde de quarta-feira em São Bernardo do Campo. Ricardo Catalá Salgado Junior fica parado por alguns segundos olhando o gramado depois que o treino termina — como quem ainda está calculando a próxima jogada antes de todo mundo ir embora.










