A voz saiu firme, sem hesitação. Roberto Rivellino, campeão do mundo em 1970, estava num evento na última sexta-feira (15) quando jogou a bomba: se dependesse dele, a camisa 10 da Seleção Brasileira nunca mais seria usada por ninguém. Pendurada para sempre. Eternizada. Colocada, literalmente, no ponto mais alto do Rio de Janeiro.

"Se eu fosse o presidente da CBF, eu colocaria a 10 no Cristo Redentor para ninguém mais usar. Para mim, o maior rei nunca vai ter outro jogador, é o Pelé. Vai me desculpar. A 10 era a 10, a referência", disse Rivellino em entrevista à ESPN.

A declaração chegou rápido nas redes sociais e varreu o debate do dia. Mas o que Rivellino tocou não é só nostalgia — é uma ferida aberta sobre identidade, peso simbólico e o que significa herdar uma numeração que Pelé usou para conquistar três Copas do Mundo: 1958 na Suécia, 1962 no Chile e 1970 no México.

O que Rivellino disse sobre Vini Jr e a camisa que ele não deveria usar

O alvo da crítica foi direto: Vinicius Júnior, atual camisa 10 da Seleção. Rivellino não negou o talento do atacante do Real Madrid, mas questionou a coerência da escolha — e foi além, trazendo à tona o histórico do próprio jogador com numerações.

"Não estou dizendo que o Vini não merece, Neymar não merece, mas eu acho que o Vini não devia continuar usando, pois nunca usou no Real Madrid; usa a 7, o que também é errado, porque ele buscou a 7 depois que começou a marcar época com a 22. Aí ele foi campeão e quis a 7. Ele está disputando com Figo, Ronaldo, então fica com a 22, cada um com a sua. Agora ele quer a 10, para quê?", analisou o ex-jogador.

O argumento de Rivellino tem uma lógica interna: se Vini Jr. construiu sua identidade no Real Madrid com a camisa 22 — e depois migrou para a 7 ao sentir que havia chegado ao topo — a 10 da Seleção seria mais uma troca de conveniência do que uma herança natural. Para o campeão de 1970, número não é detalhe. É declaração.

Mas há quem discorde com igual convicção. Uma camisa não aposentada segue viva, e jogadores como Zico, Sócrates, Romário, Ronaldinho Gaúcho e o próprio Rivellino a vestiram em diferentes épocas sem que ninguém considerasse isso uma profanação. A 10 sempre foi passada adiante — e cada geração a ressignificou à sua maneira.

A história da camisa 10 e o peso que nenhum número carrega igual

Pelé usou o número 10 em três conquistas mundiais e transformou a numeração em sinônimo de genialidade brasileira. Depois que ele deixou a Seleção, foi justamente Rivellino quem herdou a camisa — e o próprio ex-jogador reconhece o que sentiu ao colocá-la pela primeira vez.

"Eu tive a honra e o privilégio, desde que o Pelé deixou a seleção, de participar de duas Copas usando a camisa 10. Mas a preocupação não era com a 10, era com o que eu fazia em campo. Não posso ficar preocupado com meu número. Apesar de que, para mim, era uma honra", concluiu Rivellino.

Depois de Rivellino, a numeração passou por Zico nas Copas de 1978 e 1982, por Sócrates em 1986, por Romário em 1994 — quando o Brasil foi tetracampeão — e chegou a Neymar, que a carregou por mais de uma década. A camisa 10 é, talvez, o único objeto simbólico do futebol brasileiro que atravessou gerações sem jamais perder peso.

A proposta de aposentá-la, portanto, não é nova. Surgiu com força após a morte de Pelé, em dezembro de 2022. A CBF chegou a ser pressionada publicamente, mas nunca tomou uma decisão formal. A 10 seguiu disponível — e foi para os ombros de Vinicius Júnior.

O que Rivellino disse sobre Vini Jr e a camisa que ele não deveria usar Rivellin
O que Rivellino disse sobre Vini Jr e a camisa que ele não deveria usar Rivellin

Quantos números no esporte mundial carregam o peso de uma nação inteira nas costas?

Neymar no radar e a convocação de Ancelotti como pano de fundo

O timing da declaração de Rivellino não é acidental. Nesta segunda-feira (18), o técnico Carlo Ancelotti divulga a lista de convocados da Seleção Brasileira para os próximos compromissos antes da Copa do Mundo 2026. E Rivellino deixou claro onde está seu coração: ele quer Neymar de volta.

Na visão do ídolo de 1970, o número 10 teria dono natural enquanto Neymar estiver disponível. O atacante, que defende o Santos nesta temporada após passagem pelo Al-Hilal, vive uma fase de recuperação física e voltou a jogar com regularidade no Brasileirão 2026. Rivellino aguardava a convocação com expectativa declarada.

A lista de Ancelotti define não apenas quem joga, mas quem veste qual número — e a decisão sobre a camisa 10 reverbera além do vestiário. Se Neymar for convocado e receber a numeração, o debate de Rivellino ganha outro capítulo. Se Vini Jr. mantiver a 10, a polêmica segue viva até o apito inicial do Mundial, marcado para junho de 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México.

Num escritório do Rio de Janeiro, uma camisa amarela com o número 10 está emoldurada na parede. Abaixo dela, uma assinatura em caneta azul: Pelé. Ela não precisa de Cristo Redentor para ser eterna — já é.