Confesso: eu subestimei o peso do inglês na carreira de Roger Machado. Em 2024, quando ele assumiu o Inter, escrevi que o técnico seguiria o ciclo habitual dos treinadores brasileiros — rodar pelos grandes do país até uma aposentadoria discreta. Hoje vejo o porquê de ter errado: a fluência no idioma muda o mapa de destinos disponíveis e, com ele, a equação financeira inteira.

64 dias no São Paulo e uma conta que não fecha

Roger Machado, 51 anos, foi contratado pelo São Paulo em 10 de março de 2026 e demitido em 13 de maio — exatos 64 dias de trabalho. Nesse intervalo, comandou 17 partidas: 7 vitórias, 4 empates e 6 derrotas, aproveitamento de 49%. A gota d'água foi a eliminação para o Juventude na Copa do Brasil, resultado que acelerou a rescisão.

Do ponto de vista financeiro, passagens tão curtas geram dois efeitos opostos. O treinador recebe a mulrescisão contratual — valor não divulgado pelo clube —, mas sai com o currículo marcado por uma janela de menos de dois meses, o que reduz o poder de barganha em negociações domésticas. No exterior, o critério de avaliação costuma ser diferente: o mercado árabe e o mexicano olham para o histórico agregado, não para o último capítulo.

A sondagem da Chapecoense e por que os números não convencem

A Chapecoense fez contato com o estafe do treinador. O clube catarinense ocupa a lanterna do Brasileirão 2026 e busca um nome de mercado para tentar a reação. A proposta tem apelo emocional — Roger é gaúcho, conhece o Sul do país —, mas a análise de risco é desfavorável.

Reparemos no detalhe: assumir um time na zona de rebaixamento em maio significa trabalhar com janela de transferências parcialmente fechada, elenco defasado e pressão imediata por resultado. O ROI de imagem para o técnico é baixo. Se a Chape cair, o nome fica associado ao fracasso; se ficar, o mérito é dividido com o elenco e a diretoria. A assimetria é clara.

  • Situação da Chapecoense: lanterna do Brasileirão 2026
  • Risco para o técnico: rebaixamento associado ao nome em caso de fracasso
  • Salário médio de técnicos na Série A: entre R$ 200 mil e R$ 400 mil mensais para perfis similares
  • Salários no mercado árabe: contratos de US$ 500 mil a US$ 1,2 milhão anuais para treinadores sul-americanos sem passagem europeia

A diferença salarial entre as duas opções chega a ser três vezes maior no exterior, sem considerar as luvas de assinatura, que costumam equivaler a dois ou três meses de salário nos contratos do Golfo.

O perfil que abre portas no México e na Arábia

Roger acumula passagens por nove clubes brasileiros — Juventude (duas vezes), Novo Hamburgo, Grêmio (duas vezes), Atlético-MG, Palmeiras, Bahia, Fluminense, Inter e São Paulo. O currículo inclui títulos concretos: Campeonato Gaúcho pelo Grêmio e pelo Inter, Campeonato Mineiro de 2017 com o Galo e dois Campeonatos Baianos com o Bahia (2019 e 2020).

Esse volume de experiência em diferentes contextos táticos e culturais é exatamente o que os intermediários vendem para clubes do Oriente Médio e da Liga MX. A carreira de Roger tem a forma de um temporal sem trovão — construída em acúmulo silencioso, sem o barulho de um título nacional de expressão, mas com consistência suficiente para gerar valor de mercado fora do Brasil.

A fluência em inglês é o diferencial operacional. Clubes árabes e mexicanos com ambições internacionais exigem que o técnico consiga se comunicar com comissões técnicas multilíngues e com a mídia local em inglês. Treinadores brasileiros que não dominam o idioma frequentemente precisam de intermediários para reuniões táticas — o que gera ruído e custo extra para o clube contratante.

"O técnico ex-São Paulo acredita que uma oportunidade fora do Brasil representa um novo passo em sua trajetória profissional", conforme apuração do UOL Esporte sobre o posicionamento do entorno de Roger.

O SportNavo mapeou contratos recentes de técnicos brasileiros no mercado árabe e identificou que o prazo médio é de 18 meses, com cláusula de rescisão unilateral pelo clube a partir do sexto mês. A estrutura é de alto risco para o treinador, mas a remuneração compensa a instabilidade — e, ao contrário do Brasil, uma demissão no exterior raramente afeta a percepção de valor do profissional no mercado doméstico.

Segundo pessoas próximas ao técnico, as sondagens de times árabes e mexicanos ainda estão em fase inicial — sem proposta formal na mesa. O prazo natural para uma definição é a janela de transferências de julho, quando os clubes do Golfo costumam fechar seus quadros técnicos para a temporada seguinte. Se nenhuma oferta concreta chegar até o final de junho, a pressão por uma solução doméstica aumenta — e a Chapecoense, ou outro clube da Série A, pode voltar ao radar com condições diferentes.