'Ele não pode continuar como técnico do Brasil, não há como. Se eu estivesse na federação, teria entrado no vestiário, mandado ele para o inferno e rasgado o contrato dele na hora.' Quem disse isso foi Romário, tetracampeão mundial em 1994, em participação direta na Romário TV, horas depois da eliminação brasileira para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. O alvo era Carlo Ancelotti.

A fala que parou o futebol brasileiro

O ex-atacante não economizou adjetivos. Classificou a atuação do Brasil diante dos noruegueses como 'uma vergonha' e foi além: afirmou que levaria o treinador ao tribunal se tivesse poderes na CBF. A declaração saiu ao vivo, sem filtro, e viralizou em minutos nas redes sociais. Para Romário, a permanência de Ancelotti no cargo é simplesmente injustificável após o resultado.

"O jogo contra a Noruega foi uma vergonha. Eu até o levaria ao tribunal. Depois vamos ver o que acontece, mas ele não pode continuar", afirmou o tetracampeão na Romário TV.

O ponto técnico mais criticado por Romário foi a substituição que deslocou o meia Éderson para a lateral-direita após a saída de Bruno Guimarães, que deixou o campo lesionado. A decisão expôs uma lacuna na convocação: Ancelotti não havia chamado laterais-direitos reservas suficientes para cobrir esse tipo de emergência. Quem não tem cão caça com gato — e o Brasil pagou caro por isso no momento mais decisivo do torneio.

"Eu nem entendi o que ele pensava em fazer em campo: tirar o Bruno Guimarães para colocar o Éderson na lateral. E você faz isso porque não convocou outros laterais. Um lateral se machuca e você convoca um zagueiro? Entendo que não haja muitos, mas será que não há alguém melhor que o Éderson nessa função?", questionou Romário.

O padrão histórico que Romário usa como argumento

Quando um técnico brasileiro perde uma Copa do Mundo, o desfecho costuma ser previsível: demissão imediata, sem cerimônia. Quando um técnico estrangeiro perde, o debate se prolonga por semanas. Essa assimetria foi o núcleo do argumento de Romário, que citou nomes concretos para embasar a comparação.

Quando o Dunga foi eliminado na Copa de 2010 na África do Sul, nas quartas de final, diante da Holanda por 2 a 1, saiu no dia seguinte. Quando o Felipão sofreu o 7 a 1 para a Alemanha em 2014, no Mineirão, o encerramento do contrato foi questão de dias. Quando o Tite perdeu para a Bélgica em 2018 e para a Croácia em 2022, ficou no cargo entre os dois ciclos — e Romário usou exatamente esse precedente para questionar por que Ancelotti receberia tratamento diferente.

"Tivemos o Dunga, ele perdeu e foi embora. Tivemos o Felipão. Tivemos o Tite, que perdeu, ficou e perdeu de novo. Agora temos esse maldito Ancelotti, que perdeu e vai continuar perdendo. Ele cometeu muitos erros nesta Copa do Mundo e vocês da imprensa não dizem nada. Se fosse um técnico brasileiro, vocês já o teriam feito em pedaços. Mas, como é estrangeiro, ninguém diz nada!", disparou o ex-atacante.

O argumento tem substância estatística. O Brasil terminou a Copa de 2026 com 34% de posse de bola na derrota para a Noruega — um número que, para uma seleção historicamente dominante com a bola, representa uma ruptura com qualquer identidade de jogo reconhecível. A eliminação nas oitavas de final iguala o pior desempenho brasileiro em Copas desde 1966, quando a equipe caiu na fase de grupos na Inglaterra.

A posição da CBF e a renovação antecipada que virou alvo

O ponto que mais incomoda Romário — e que ele voltou a atacar na Romário TV — é a renovação de contrato de Ancelotti que a CBF sinalizou ainda durante a competição. A entidade, presidida por Samir Xaud, que enfrenta pressão crescente por sua própria saída, apostou na continuidade do técnico italiano como âncora de um projeto de reconstrução. Mas renovar antes do término do torneio, com o time ainda em campo, gerou um precedente delicado: a CBF, na prática, blindou Ancelotti de uma avaliação pós-eliminação isenta.

A Seleção Brasileira acumula, sob o comando do italiano, uma série de questionamentos táticos que vão além da derrota para os noruegueses. A gestão do grupo, as convocações sem laterais reservas e a incapacidade de manter a posse diante de equipes que propõem pressão alta são padrões que se repetiram ao longo do ciclo. Para Romário, esses dados não admitem relativização.

Quem poderia assumir e o que a CBF deve decidir nas próximas semanas

Com a Copa encerrada e o contrato de Ancelotti em discussão pública, a CBF precisará se posicionar formalmente até o fim de julho de 2026, quando começa o calendário de eliminatórias para o próximo ciclo. Os nomes que circulam nos bastidores incluem o português Abel Ferreira, campeão da Libertadores pelo Palmeiras em 2020 e 2021, e o argentino Marcelo Gallardo, ex-River Plate, com passagem recente pela Europa. Ambos têm perfil de trabalho com identidade tática definida — algo que a torcida brasileira passou a exigir como critério mínimo após o vácuo deixado pelo ciclo atual.

A próxima janela oficial da Seleção está prevista para setembro de 2026, com dois jogos das eliminatórias sul-americanas para a Copa de 2030. Até lá, a CBF terá de responder a uma pergunta concreta: mantém Ancelotti e absorve o desgaste político, ou abre um novo processo seletivo com risco de repetir o imbróglio que durou meses antes da contratação do italiano? A pressão de Romário, com microfone aberto e audiência garantida, tornou o silêncio da entidade cada vez mais difícil de sustentar.