O campo estava encharcado, a torcida do Criciúma empurrava nas arquibancadas e, no meio da marcação cerrada, um meia de 1,71 m segurava a bola com calma antes de dar o passe certo. Só na segunda olhada você percebe que é Ronald — o camisa 14 que, sem alarde, acumula 30 jogos nesta edição do Brasileirão Série A.
Onde ele pode estar em 2027
Um meia de 29 anos com 30 partidas disputadas em uma única temporada de Série A tem, no mercado brasileiro atual, valor de prateleira suficiente para atrair clubes de médio porte que buscam consistência. Ronald não é um jogador de vitrine — é o tipo de peça que diretores técnicos buscam quando precisam de volume e presença no meio-campo.
Com contrato vigente no Criciúma e desempenho estável na temporada 2026, o cenário mais realista para o segundo semestre e para 2027 é a renovação ou uma transferência dentro do próprio eixo da Série A. Clubes como os que ele já conheceu — Cuiabá e Mirassol — costumam reciclar esse perfil de meia quando há espaço no elenco. Uma saída para o exterior, neste momento, exigiria uma virada de desempenho ofensivo significativa: 1 gol e 2 assistências em 30 jogos não abre janelas europeias.
O mais plausível é que Ronald, em matéria do SportNavo, siga sendo tratado como ativo de elenco — não como protagonista de mercado. O salário de um meia nessa faixa de produção na Série A gira entre R$ 30 mil e R$ 70 mil mensais, conforme dados do setor; sem troféus registrados e sem convocação para seleção, sua cotação no Transfermarkt permanece modesta.
O que precisa acontecer até lá
A conta é direta: Ronald precisa converter presença em impacto. Trinta jogos disputados são um dado de confiança do técnico — mas 1 gol e 2 assistências em toda uma temporada de Série A colocam o meia abaixo da média de criação esperada para a posição em nível nacional.
Para fins de comparação, um meia titular de Série A com produção considerada satisfatória costuma registrar entre 4 e 7 participações diretas em gols por temporada. Ronald está, até aqui, bem abaixo dessa marca. Não é uma crise — é uma lacuna que precisa ser preenchida nos jogos restantes do Brasileirão 2026.
A regularidade é um trunfo. Jogadores que acumulam 30 ou mais jogos em uma temporada de Série A demonstram resistência física e confiança da comissão técnica — dois ativos que têm peso real em negociações. O problema é que regularidade sem produção ofensiva limita o teto de valorização.
O que já aconteceu na trajetória
Ronald dos Santos Lopes nasceu em 18 de junho de 1997, em Belford Roxo, Baixada Fluminense. A trajetória profissional passou por cinco clubes em sequência: Fortaleza EC, Cuiabá, Criciúma, Mirassol e, novamente, Criciúma — um percurso que revela um jogador sem clube fixo por mais de dois anos consecutivos, mas sempre recolocado na primeira divisão ou em competições de peso.
A temporada de 2022 foi a mais intensa em volume: 41 jogos pelo Fortaleza, incluindo participação na CONMEBOL Libertadores — a competição continental mais relevante do currículo até aqui. Naquele ano, registrou 1 gol e nenhuma assistência, mas a experiência de disputar o torneio sul-americano com uma camisa de expressão nacional tem peso de currículo que não aparece na planilha de estatísticas.
Em 2023, dividido entre Cuiabá e Fortaleza, somou 27 jogos e chegou ao seu melhor momento em termos de finalização: 3 gols em competições que incluíam Série A, Copa do Brasil, Copa Verde, Campeonato Cearense e Copa do Nordeste. Foi o pico ofensivo da carreira registrada até agora. Em 2024, já no Criciúma e no Mirassol, manteve presença com 40 jogos — mas voltou a um nível de contribuição mais contido: 1 gol e 3 assistências.
Para ter um parâmetro histórico: na década de 1990, meias de características semelhantes — físico compacto, jogo de manutenção, pouca vocação para o gol — tinham vida longa nos elencos da Série A justamente por serem funcionais. Rivaldo, por exemplo, antes de explodir no Palmeiras em 1994 com 12 gols na temporada, passou anos sendo tratado como meia de volume no Santa Cruz. A diferença é que Rivaldo forçou a mudança de leitura. Ronald ainda não chegou nesse ponto de ruptura.
Os obstáculos no caminho
O primeiro obstáculo é a idade. Com 29 anos completos em junho de 2026, Ronald está na janela em que clubes começam a calcular o retorno de um investimento contratual com mais cautela. Meias sem produção ofensiva consistente raramente recebem contratos longos — e contratos curtos significam menos segurança financeira e mais exposição a negociações de último momento.
O segundo é a ausência de troféus registrados. Sem títulos no currículo, o jogador não tem o argumento de campeão para usar em uma mesa de negociação. Clubes que buscam reforços para disputar taças tendem a priorizar atletas com ao menos um troféu de expressão no histórico.
O terceiro obstáculo é a concorrência interna. O Criciúma mantém elenco competitivo na Série A e a disputa por posição no meio-campo é permanente. Manter os 30 jogos de presença é um feito — mas qualquer queda de rendimento abre espaço para que um rival de posição assuma a titularidade e reduza o valor de mercado de Ronald antes do fim da temporada.
É o mesmo cenário que o Mirassol viveu em 2024 com meias de perfil semelhante — só que agora a aposta é diferente: a pressão da Série A não perdoa quem apenas aparece, sem deixar marca.











