Se a Escócia de Steve Clarke conseguisse replicar os números defensivos que apresentou contra o Marrocos — apenas 0,71 xG concedido em 90 minutos — o Brasil de Carlo Ancelotti teria sua noite mais trabalhosa na fase de grupos da Copa do Mundo. Mas o time escocês não venceu aquele jogo, perdeu por 1 a 0, e chega à rodada decisiva do Grupo C precisando de um resultado que nunca conquistou em Copas: uma vaga no mata-mata.

A matemática é simples: com 3 pontos, a Escócia precisa vencer o Brasil nesta quarta-feira (24), às 19h no Hard Rock Stadium, em Miami, e torcer por um tropeço do Marrocos contra o Haiti. O Brasil, por sua vez, soma 4 pontos após empate com o Marrocos (1x1) e goleada sobre o Haiti (3x0), e entra em campo já classificado, buscando a liderança da chave.

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O pênalti que o Gallacher aprendeu a cair

Em 10 de junho de 1998, o Stade de France em Saint-Denis foi palco de uma cena que Kevin Gallacher — camisa 7 da Escócia naquela Copa — ainda narra com uma risada. César Sampaio havia aberto o placar aos 4 minutos, mas aos 38 um lançamento escocês do círculo central encontrou Gallacher em disputa com o mesmo volante brasileiro. O contato existiu, o atacante foi ao chão, e o árbitro apontou para a marca do pênalti.

O pênalti que o Gallacher aprendeu a cair Como a Escócia assustou o Brasil em 19
O pênalti que o Gallacher aprendeu a cair Como a Escócia assustou o Brasil em 19
"Quanto ao pênalti, só me resta rir, porque nas Eliminatórias jogamos contra a Suécia, a mesma coisa aconteceu, mas eu não caí. Talvez tenha aprendido a lição", brincou Gallacher em entrevista à PLACAR. "Quando jogo contra o Brasil, eu caio."

John Collins converteu, a Escócia empatou em 1x1, e o que parecia impossível — um resultado positivo contra a seleção campeã mundial — ficou ao alcance por mais de 50 minutos. O Brasil só garantiu os 3 pontos com um gol contra — aquela vitória por 2x1 foi muito mais suada do que o placar sugere. Gallacher reconhece que a equipe de Craig Brown chegou perto do inacreditável: "Tivemos azar em algumas oportunidades que talvez devêssemos ter aproveitado."

O que o futebol escocês de 2026 tem de diferente

A Escócia de 1998 era construída em torno de guerreiros físicos como Colin Hendry e jogadores de Premier League no auge. A de 2026 tem algo que aquela geração jamais teve: Andy Robertson e Scott McTominay — dois jogadores com dezenas de jogos em Champions League nas últimas temporadas.

Os números do elenco escocês atual merecem atenção:

  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): a Escócia registrou PPDA de 8.3 contra o Marrocos — o que indica uma pressão alta razoável, equivalente ao que times como o Brentham aplicaram na Premier League 2025/26 em fases de compressão média.
  • Progressive passes de McTominay: na fase de grupos, o meio-campista do Napoli acumula 11 passes progressivos em dois jogos — mais que qualquer outro jogador escocês e número comparável ao que Casemiro entrega por partida com a camisa do Brasil.
  • xG a favor da Escócia contra o Marrocos: 0,94 — suficiente para ao menos empatar, mas o time não converteu. O problema escocês não é criar, é finalizar.

O técnico Steve Clarke e o capitão Robertson concederam entrevista coletiva nesta terça (23) no próprio Hard Rock Stadium — sorrindo ao falar da hipótese de classificação — e deixaram claro que o plano é pressionar o Brasil nos primeiros 30 minutos e explorar transições rápidas.

O Brasil que Ancelotti vai escalar tem uma lacuna

Do lado brasileiro, a ausência de Raphinha — lesionado no duelo contra o Haiti na sexta (19) — é o principal ponto de interrogação tático. O extremo do Barcelona liderava a seleção em xA (expected assists) na fase de grupos, com 0,8 acumulado em dois jogos, e sua saída abre espaço para uma reconfiguração no setor ofensivo.

Ancelotti também precisa decidir sobre três jogadores pendurados — Casemiro, Douglas Santos e Ibañez — e a possível estreia de Neymar após lesão na panturrilha direita em maio. O camisa 10 está disponível como opção no segundo tempo, o que coloca o Brasil numa posição curiosa: a maior arma ofensiva pode entrar como reserva num jogo em que o adversário já estará desgastado.

A arbitragem ficará a cargo de Cesar Ramos (MEX), auxiliado por Alberto Morin e Marco Bisguerra — também mexicanos.

O que 1998 ensina sobre subestimar a Escócia

O dado mais revelador do histórico entre as seleções não é o placar de 1998, mas o contexto: a Copa do Mundo daquele ano marcou a última aparição escocesa no torneio até 2026 — 28 anos de ausência. Uma geração inteira de jogadores escoceses nunca soube o que era disputar uma fase de grupos. Essa fome acumulada é um fator impossível de quantificar em xG.

"É difícil de assimilar quando, no dia do jogo, você se alinha e vê Taffarel, Cafu, Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldo. Você vê esses caras pessoalmente e pensa: 'Uau! Estou no mesmo palco que superestrelas mundiais'", lembrou Gallacher sobre 1998.

Robertson, McGinn e McTominay — ao contrário de Gallacher naquele junho parisiense — jogam há anos contra estrelas equivalentes. O fator psicológico que paralisou a Escócia em 1998 simplesmente não existe mais neste elenco. E isso, somado a um PPDA competitivo e à capacidade de criar chances reais (0,94 xG contra o Marrocos não é número de time que recua e reza), faz desta Escócia algo mais do que um adversário de protocolo para a despedida brasileira da fase de grupos.

Brasil e Escócia se enfrentam nesta quarta-feira (24), às 19h (horário de Brasília), no Hard Rock Stadium em Miami. Uma vitória brasileira garante a liderança do Grupo C — desde que o saldo de gols seja superior ao do Marrocos, que joga simultaneamente contra o Haiti. Para a Escócia, só a vitória serve.