Se a Copa do Mundo terminasse na primeira rodada, Harry Kane seria o centroavante mais criticado do torneio. O chute para fora no empate sem gols da Inglaterra com Gana virou símbolo de um jogador que, segundo parte da imprensa europeia, não suporta a pressão da maior competição do planeta. Mas o problema com essa narrativa é que a Copa não termina na primeira rodada — e a história do próprio torneio prova, repetidamente, que julgamentos precoces costumam envelhecer muito mal.

Foi exatamente esse argumento que Walter Casagrande desenvolveu no Fim de Papo, do Canal UOL. O ex-atacante do Corinthians e da Seleção Brasileira na Copa de 1986 trouxe um exemplo imediato e irrefutável: na semana anterior ao empate inglês, Cristiano Ronaldo havia sido massacrado pela mesma imprensa que hoje cobra Kane.

CR7 chamado de 'velho' e 'lento' antes de detonar a Suíça

O roteiro é quase didático em sua repetição. Portugal estreou na Copa com uma atuação abaixo do esperado, e Cristiano Ronaldo — 39 anos, disputando o que provavelmente é sua última Copa do Mundo — foi o alvo preferencial das críticas. Lento, apagado, um peso para a seleção. A avaliação correu o mundo em manchetes categóricas. Dias depois, Portugal aplicou 5 a 0 e o camisa 7 marcou duas vezes, além de criar mais duas chances claras.

"Na semana passada, o Cristiano Ronaldo estava 'velho', 'lento', 'atrapalhou a seleção de Portugal'. Hoje, ele fez dois gols, teve mais duas chances, movimentou, jogou bem, Portugal deu de 5 a 0 e Cristiano é manchete positivamente em todos os lugares do mundo. O futebol não é isso. Não é nem isso, nem aquilo."

A lógica de Casagrande não é defensiva em relação a Cristiano — é estrutural. Ele descreve o que chamo aqui de lei da oscilação: em Copas do Mundo, o nível de desempenho individual flutua de acordo com a qualidade do adversário, o sistema tático adotado e o momento específico de cada partida. Ignorar essa variável para emitir vereditos após 90 minutos é confundir amostra com tendência.

Kane fez dois gols contra a Croácia e a memória seletiva da crítica

O caso de Kane é ainda mais emblemático porque o próprio torneio já havia fornecido evidência contrária ao veredicto apressado. Antes do jogo com Gana — aquele chute errado que viralizou —, o centroavante do Bayern de Munique havia marcado dois gols diante da Croácia, exatamente o tipo de adversário que Casagrande qualificou como "jogo de cachorro grande". A Croácia de Luka Modric, vice-campeã em 2018 e semifinalista em 2022, não é time para experimentações.

"A Inglaterra sofreu, faltou criatividade. A hora em que a bola clareou para o Kane, ele chutou para cima. Aí vamos dizer: 'Nossa, o Kane é um centroavante fraco, não vai fazer uma grande Copa'. Mas ele fez dois gols contra a Croácia, que ali era jogo de cachorro grande. Então eu vou na linha do seguinte: não é nenhuma coisa nem outra. A Copa do Mundo começou agora."

Historicamente, a trajetória de artilheiros em Copas sustenta essa perspectiva. Ronaldo — o Fenômeno — não marcou na estreia de 2002 contra a Turquia e terminou o torneio com oito gols, recorde que durou 12 anos. Gerd Müller fez apenas um gol nas duas primeiras partidas da Alemanha Ocidental em 1974 e encerrou o torneio como artilheiro com quatro tentos. Gary Lineker, com seis gols em 1986, não havia marcado nos dois primeiros jogos da Inglaterra. A Copa, por definição, exige paciência analítica.

A rivalidade Messi e CR7 sem ódio e com muito dado histórico

No mesmo programa, Casagrande abordou a rivalidade entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo com uma precisão que merece registro. Entre 2008 e 2023 — período em que os dois dividiram 15 das 16 Bolas de Ouro da FIFA/France Football —, a disputa foi alimentada por números, não por declarações hostis. Messi acumula 8 Bolas de Ouro; Cristiano, 5. Na Champions League, CR7 terminou como artilheiro histórico com 140 gols em 183 jogos antes de deixar o Real Madrid em 2018; Messi marcou 129 em 163 partidas pela competição até sua saída do Barcelona.

Casagrande foi preciso ao contextualizar a origem dessa rivalidade — construída por conquistas paralelas e simultâneas, não por provocações pessoais. O episódio em que Cristiano fotografou o filho com Messi, citado pelo comentarista, é emblemático: a competição existe no campo, nos placares e nos prêmios, não na animosidade fora dele.

"O Cristiano não tem raiva do Messi. O Messi não tem raiva do Cristiano. Mas quando os dois estão em campo, mesmo não sendo em confronto entre eles, eles querem fazer gols porque sabem que o outro tá querendo fazer mais que ele. Então essa rivalidade é existente, é sadia e foi uma das melhores rivalidades que existiu no futebol em todos os tempos."

Essa descrição — registrada em reportagem publicada pelo SportNavo — ecoa o que estudiosos do esporte chamam de rivalidade de referência: dois atletas que se tornam parâmetro um do outro sem precisar de hostilidade declarada. Muhammad Ali e Joe Frazier tinham ódio. Magic Johnson e Larry Bird tinham tensão racial de fundo. Messi e CR7 têm números. A diferença é substancial.

O que a história das Copas ensina sobre julgamentos precipitados

A Copa do Mundo — com seu formato de fase de grupos seguida de eliminatórias — é o ambiente mais propício para oscilações de desempenho no futebol mundial. Em 2010, a Espanha perdeu para a Suíça na estreia e foi campeã invicta nas seis partidas seguintes. Em 2014, a Alemanha venceu Portugal por 4 a 0 na abertura do Grupo G e depois sofreu para bater a Argélia nos pênaltis nas oitavas. Em 2018, a Argentina empatou com a Islândia e foi goleada pela Croácia antes de classificar com dificuldade.

Kane — com 79 gols pela seleção inglesa em partidas oficiais até o início desta Copa, superando o recorde histórico de Wayne Rooney (53 gols) — carrega estatísticas que não se apagam por um chute errado. A Inglaterra, por sua vez, tem o grupo mais favorável de sua história recente no torneio e ainda disputa a classificação. O julgamento definitivo sobre o centroavante do Bayern só pode ser feito depois da fase eliminatória — e, de preferência, depois que ele tiver a bola nos pés em situações reais de decisão.

A pergunta que fica para as próximas semanas é concreta: se Kane marcar nas oitavas de final e a Inglaterra avançar às quartas, a imprensa que o enterrou após o jogo com Gana vai revisitar seus próprios critérios de análise — ou vai simplesmente mudar de alvo sem nenhum acerto de contas com o erro anterior?