12 palavras. Foi o que bastou para Bastian Schweinsteiger, ídolo que ergueu a taça no Maracanã em 2014, transformar uma transmissão da ARD numa crise de imagem internacional. Ao comentar a vitória da Alemanha por 2 a 1 sobre a Costa do Marfim no sábado (20), o ex-meia classificou o estilo de jogo dos africanos como 'futebol africano' e 'um pouco selvagem' — duas expressões que, juntas, formam um dos clichês racistas mais antigos e mais resistentes do vocabulário esportivo europeu.
O que Schweinsteiger disse e o que ficou sem dizer
A frase surgiu ao vivo, no calor da narração, sem que o comentarista parecesse perceber o peso do que carregava. Copa do Mundo 2026, estádio cheio, audiência continental — e ali estava um campeão mundial reduzindo a complexidade tática de uma seleção que chegou ao torneio com jogadores formados em Lyon, Villarreal e Anderlecht ao binômio selvageria-continente. Depois da repercussão nas redes sociais e na imprensa alemã, Schweinsteiger recorreu ao Instagram para um elogio genérico:
"A Costa do Marfim foi o adversário difícil que esperávamos e demonstrou sua qualidade técnica e física."
A nota soou exatamente como o que era: gerenciamento de dano, não reflexão. Nenhuma menção ao erro específico. Nenhuma palavra sobre o termo 'selvagem'. A ARD, por sua vez, não emitiu nota oficial até o fechamento desta matéria.
Um vocabulário que a Europa teima em aposentar
Para quem acompanha futebol europeu há décadas, a expressão não surpreende — e esse é exatamente o problema. Nos anos 1990, quando cobri a Serie A em Milão, era comum ouvir comentaristas italianos descrever africanos e sul-americanos com o mesmo léxico colonial: 'atletas brutos', 'jogadores instintivos', 'futebol primitivo'. O ex-presidente da UEFA Lennart Johansson chegou a usar o termo 'negros' de forma pejorativa em 1996 ao falar de jogadores africanos em entrevista ao jornal sueco Expressen, gerando um escândalo que durou semanas. Trinta anos depois, a estrutura da frase mudou; o substrato, não.
O padrão é sempre o mesmo: habilidade técnica é atribuída a europeus, força física e imprevisibilidade são reservadas aos africanos — como se Didier Drogba, Samuel Eto'o ou o atual elenco marfinense fossem produtos da natureza, não de academias de futebol, metodologias táticas e anos de formação profissional. A Costa do Marfim de 2026 conta com jogadores que atuam em ligas das cinco grandes confederações europeias. Chamá-los de 'selvagens' não é só ofensivo — é factualmente errado.
O peso do sobrenome Schweinsteiger nessa equação
O que torna o episódio particularmente grave é o capital simbólico do emissor. Schweinsteiger não é um analista anônimo de segunda divisão. É o homem que jogou 121 partidas pela seleção alemã, que levantou a taça da Champions League pelo Bayern em 2013 e que, no Mineirão, foi peça central na goleada histórica de 7 a 1 sobre o Brasil. Quando uma figura desse porte usa esse vocabulário em horário nobre, o efeito é duplo: normaliza o discurso para quem concorda e sinaliza para jogadores africanos que o preconceito vem embrulhado em autoridade esportiva.
A Alemanha, por ironia, é uma das seleções mais diversas do torneio. Com jogadores de origem turca, ganesa e nigeriana em seu elenco atual, a DFB passou anos construindo uma narrativa de inclusão. O comentário de Schweinsteiger na ARD — emissora pública que alcança dezenas de milhões de alemães — vai na direção oposta dessa narrativa.
A Copa 2026 e o teste que a Fifa ainda não passou
A Copa do Mundo 2026 chegou prometendo ser a mais diversa da história, com 48 seleções e sede tripartida entre Estados Unidos, México e Canadá. Mas diversidade nos campos não resolve discriminação nas cabines de transmissão. A Fifa possui protocolos contra racismo em campo — o sistema de três etapas que pode paralisar e até encerrar partidas —, mas não tem nenhum mecanismo formal para responsabilizar comentaristas credenciados que reproduzem estereótipos racistas ao vivo.

Esse vácuo regulatório não é novidade. Em 2014, o comentarista holandês Leo Beenhakker usou linguagem similar ao descrever seleções africanas, sem qualquer consequência institucional. Em 2022, no Catar, a emissora ITV foi criticada por comparações visuais racistas durante a abertura do torneio — e também saiu ilesa. O padrão de impunidade para quem fala, enquanto jogadores em campo são punidos por gestos, cria uma hierarquia perversa: o corpo negro é controlado, a voz branca é livre.
A Alemanha, que caiu na fase de grupos em 2018 e em 2022, se classificou antecipadamente para a próxima fase do Mundial de 2026 após seis pontos em dois jogos. Schweinsteiger continuará nas transmissões da ARD. A Costa do Marfim, que perdeu por 2 a 1 mas mostrou organização tática e qualidade individual reconhecidas até pelo próprio comentarista em sua nota de retratação, ainda tem a fase de grupos para disputar — e jogará cada minuto sabendo que parte do mundo ainda precisa de 12 palavras para reduzir o que levaram anos para construir.








