É uma prensa hidráulica com luvas de veludo. Só no segundo game do segundo set de sábado, na Court Suzanne-Lenglen, o que essa imagem significa ficou absolutamente claro: Aryna Sabalenka não apenas vence — ela calibra a pressão com uma frieza que beira o artesanal, apertando o parafuso exatamente onde a adversária tem menos estrutura para resistir.
O primeiro set que durou menos do que um café em Paris
Em menos de 30 minutos, o placar já dizia tudo o que havia para dizer sobre o estado de forma da bielorrussa: 6-0. Daria Kasatkina, número 53 do mundo e representante da Austrália em Paris, simplesmente não conseguiu segurar a cadência de winners que Sabalenka disparava de todos os ângulos da quadra — foram 16 golpes vencedores apenas no primeiro set, uma chuva de forhands e backhands cruzados que cortavam o ar com precisão milimétrica antes de tocar o saibro vermelho de Roland Garros fora do alcance de qualquer raquete. A última vez que as duas se encontraram no torneio, seis anos atrás, o set inicial havia terminado com o mesmo placar impiedoso. Sabalenka recomeçou de onde havia parado, como se o tempo entre os dois confrontos fosse irrelevante.
A vitória representou ainda um marco estatístico: foi a 100ª vitória de Sabalenka como número 1 do mundo, um número que ela acumulou com a naturalidade de quem não precisa anunciar feitos — eles simplesmente acontecem. Com o triunfo, a bielorrussa confirmou sua vantagem no head-to-head contra Kasatkina, agora em oito vitórias em dez confrontos.
O segundo set que Kasatkina quase transformou em obra
Se o primeiro set foi uma sentença, o segundo foi um julgamento com defesa. Kasatkina, que havia prometido brigar contra a favorita, cumpriu ao menos essa parte do contrato: quebrou o saque de Sabalenka logo de saída e abriu 2-0, arrancando gritos de "Aussie, Aussie, Aussie" das arquibancadas aquecidas pelo último dia de uma onda de calor europeia que castigou Paris por sete dias seguidos. A australiana de origem russa usou cada recurso do seu repertório — drop shots cirúrgicos, forehand em loop que criavam ângulos improváveis, variações de ritmo que tentavam desconcertar a máquina bielorrussa.
A diferença de nível entre as duas, contudo, tem a extensão geográfica de algo entre Recife e Porto Alegre — não é uma lacuna que se fecha com um break point de bônus. Sabalenka reequilibrou o set em 2-2 com um erro não forçado de Kasatkina e não largou mais a iniciativa. A 5-5, Kasatkina chegou a ter 0-30 no saque da adversária, um lampejo de possibilidade real. Não durou. A número 1 do mundo salvou aquele game, e no seguinte contou com um net cord favorável no primeiro ponto antes de Kasatkina cometer dupla falta para cair em desvantagem definitiva. Resultado final: 7-5 no segundo set, passagem às oitavas de final.
"Ela é uma jogadora incrível, uma all-court player amazing", havia dito Sabalenka antes da partida, descrevendo Kasatkina com admiração genuína — o que tornava ainda mais impressionante a forma com que a desmontou quando o jogo começou de verdade.
O que Osaka representa para Sabalenka em Roland Garros
A eliminação de Kasatkina encerrou a participação australiana no Grand Slam parisiense. Todos os 13 tenistas australianos inscritos na chave de simples foram eliminados antes da segunda semana — uma campanha que Ajla Tomljanovic resumiu sem rodeios ao longo da temporada europeia de saibro:
"Foram seis semanas horrendas", disse a tenista, capturando o sentimento coletivo da delegação verde e amarela em solo europeu.
Houve clarões pontuais: Kim Birrell derrubou Jessica Pegula na primeira rodada e Adam Walton eliminou Daniil Medvedev na estreia, mas nenhum dos dois conseguiu transformar esses resultados em uma sequência consistente. Alex de Minaur, eliminado pelo tcheco Jakub Mensik na terceira rodada em quatro sets, ao menos saiu com um round a mais do que no ano anterior — conforto mínimo para quem chegava a Paris com expectativas maiores.
Enquanto a Austrália faz as malas, Sabalenka prepara o próximo movimento: as oitavas de final contra Naomi Osaka, ex-número 1 do mundo e tetracampeã de Grand Slam. A japonesa, que retornou ao circuito após maternidade e segue reconstruindo seu ranking, representa um tipo diferente de desafio — não pela posição no ranking, mas pela qualidade do saque e pelo poder de forehand que a tornou uma das maiores campeãs de hardcourt da geração. O saibro de Roland Garros, historicamente, nunca foi o território mais confortável de Osaka, mas Sabalenka sabe melhor do que ninguém que Grand Slams têm uma forma própria de reescrever histórias.
Sabalenka chega às oitavas como finalista derrotada na edição anterior de Roland Garros, carregando o peso de uma temporada que a manteve no topo do ranking e a fome de quem ainda não ergueu a taupe musketeers em Paris. O confronto com Osaka está agendado para a primeira semana de junho — a bielorrussa está pronta para o duelo. Falta o título.










