24 anos. Esse é o intervalo que separa o último título mundial do Brasil — conquistado em Yokohama, em 2002, com gols de Ronaldo — da eliminação sofrida no domingo nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, diante da Noruega, pelo placar de 2 a 1. Mais do que um resultado ruim, a derrota escancarou uma crise que vai muito além do campo: a Confederação Brasileira de Futebol vive hoje seu momento institucional mais turbulento desde o colapso de 2014, quando o 7 a 1 derrubou Luiz Felipe Scolari e abriu um ciclo de instabilidade que nunca foi completamente resolvido.

A queda de Xaud e o vácuo de poder na CBF

O jornalista Elia Jr., da Band, foi direto ao ponto durante participação em programa da emissora nesta semana. Segundo ele, a CBF passará por uma reformulação ampla nos próximos dias, com o presidente Samir Xaud no centro da turbulência.

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"Eu vou antecipar: vai haver uma limpa na CBF, porque hoje em dia a gente não sabe quem manda na CBF. Tenho convicção de que quem manda não é o Samir Xaud. O Samir vai cair nos próximos dias, pode ter certeza. Nos próximos cinco, dez dias, Samir Xaud deve sair do comando da CBF."

O diagnóstico de Elia Jr. não surgiu do nada. Xaud já enfrentava desgaste anterior à Copa por denúncias sobre o suposto uso de recursos da confederação para custear viagens e hospedagens de mulheres durante compromissos internacionais da entidade — acusações que a CBF negou, afirmando que todas as despesas seguiram critérios institucionais. A eliminação precoce no Mundial funcionou como catalisador de uma crise que já estava acumulada.

O paralelo histórico é inevitável. Em 2014, após o 7 a 1 diante da Alemanha em Belo Horizonte, a CBF demorou semanas para formalizar a saída de Scolari e meses para definir um projeto técnico consistente. O resultado foi uma seleção que chegou à Copa de 2018 sem identidade tática clara e caiu nas quartas para a Bélgica. A pergunta que o futebol brasileiro precisa responder agora é se a história vai se repetir.

Ancelotti permanece — mas o entorno muda

Diferente do que ocorreu em 2014 com a comissão técnica, Carlo Ancelotti segue com respaldo interno para continuar no comando da Seleção Brasileira no próximo ciclo. Segundo informações apuradas, o treinador italiano mantém prestígio dentro da confederação mesmo após a queda nas oitavas, e a tendência é que ele inicie a preparação para o próximo ciclo já em setembro, quando está prevista uma data Fifa de aproximadamente 20 dias — janela em que o Brasil poderá realizar entre três e quatro amistosos.

A manutenção de Ancelotti, porém, não resolve o problema estrutural. Em 2014, a CBF também preservou parte da estrutura técnica enquanto trocava dirigentes, e o resultado foi uma transição caótica. A diferença agora é que o técnico italiano tem um histórico de reconstrução rápida de elencos — algo que o futebol brasileiro vai precisar dado o perfil etário do grupo atual.

Nesse contexto, a situação de Raphinha merece atenção específica. O camisa 11 do Barcelona não entrou em campo na derrota para a Noruega porque havia sofrido uma lesão muscular ainda no segundo jogo da fase de grupos, contra o Haiti. Recuperado apenas às vésperas do duelo decisivo, ficou no banco. Com 29 anos completados em dezembro de 2025, Raphinha terá 33 anos na Copa de 2030 — idade viável para um atleta do seu perfil, mas que exige planejamento de carreira e de convocações a partir de agora.

O recado de Raphinha e a geração que precisa ser construída

Quem vai liderar o Brasil nos próximos quatro anos se a base não for tratada como prioridade institucional?

Raphinha respondeu à eliminação com uma mensagem que circulou amplamente nas redes sociais. O atacante não escondeu a dor, mas direcionou seu texto para além do resultado imediato.

"É uma dor muito grande não termos chegado onde sonhávamos juntos, vocês e nós. Infelizmente, não foi como imaginávamos. Faz parte do esporte. Nem sempre o desfecho será o que desejamos, mas o orgulho de representar o Brasil e de lutar até o fim jamais será apagado. Vocês são a nossa próxima geração. Continuem acreditando, treinando, persistindo e amando o futebol."

O apelo emocional é legítimo, mas precisa ser acompanhado de estrutura. Do ponto de vista da base, o Brasil tem hoje um pipeline de talentos que inclui nomes como Endrick, que completou 19 anos em julho de 2026, e Estêvão, revelado pelo Palmeiras e transferido ao Chelsea por cerca de 61,5 milhões de euros. Ambos participaram desta Copa com tempo de jogo limitado — dado que reforça a necessidade de um projeto de transição geracional com critérios claros, não apenas convocações pontuais.

A comparação com o ciclo pós-2014 mostra que o Brasil levou quase oito anos para ter um elenco com identidade definida. Se a CBF repetir o padrão de troca de dirigentes sem reformulação metodológica — especialmente nas categorias de base sub-17 e sub-20, onde os processos de formação ainda são fragmentados entre clubes e seleção —, a Copa de 2030 chegará com os mesmos diagnósticos que já aparecem nos relatórios técnicos desde 2018.

O que muda a partir de setembro na seleção brasileira

A primeira convocação pós-Copa está prevista para o início de setembro de 2026, dentro de uma janela Fifa que deve incluir três ou quatro amistosos. Será o primeiro teste concreto de Ancelotti sem a pressão do Mundial — e provavelmente já com uma nova estrutura administrativa na CBF, caso a previsão de Elia Jr. se confirme.

O cenário exige que a reformulação vá além da presidência da confederação. A CBF precisará definir critérios objetivos para a integração entre seleções de base e principal, algo que países como França e Alemanha formalizaram em protocolos técnicos após suas próprias crises — a França após 2010, a Alemanha após 2018. No caso brasileiro, a ausência desse protocolo é histórica: jogadores chegam à seleção principal sem passagem consistente pelo sub-20, e a seleção olímpica frequentemente opera em paralelo ao planejamento da equipe principal, sem conexão metodológica.

A eliminação para a Noruega por 2 a 1 foi o sintoma. A crise na CBF é a doença. E setembro vai mostrar se o diagnóstico foi levado a sério.