18 de dezembro de 2022. Lionel Messi levantou a taça da Copa do Mundo no Estádio Lusail, após uma final contra a França que terminou 3 a 3 no tempo normal e 4 a 2 nos pênaltis — o jogo mais assistido da história do torneio, com estimativa de 1,5 bilhão de espectadores. Três anos e meio depois, o mesmo Messi, agora com 39 anos completos, está de volta para tentar o que nenhuma seleção conseguiu desde o Brasil de 1958 e 1962: o bicampeonato consecutivo.
A declaração de Scaloni e o peso de cada palavra
Em entrevista ao jornal Olé, o técnico Lionel Scaloni foi direto sobre a situação do camisa 10 da Albiceleste:
"Messi vai jogar enquanto quiser. Ele decide quando para. Não é uma questão minha."
A frase pode soar simples, mas carrega uma estratégia clara. Scaloni não está apenas homenageando o maior jogador da história argentina — está sinalizando ao grupo, aos adversários e à imprensa que o eixo tático da seleção permanece inalterado. A Argentina de 2026 será construída ao redor de Messi, exatamente como foi em 2021 (Copa América) e em 2022 (Copa do Mundo). A diferença é que, desta vez, o treinador precisa administrar um atleta que acumula mais de 1.000 partidas profissionais nas pernas.
Scaloni também relembrou, na mesma entrevista, momentos marcantes da trajetória de Messi com a Albiceleste — da agonizante derrota na final da Copa de 2014 para a Alemanha, 1 a 0 no Maracanã, até a consagração no Catar. Para o técnico, cada episódio moldou o líder que ele tem hoje no plantel.
Messi em Copas — o que os números revelam
Para entender o que está em jogo em 2026, é necessário olhar para a trajetória de Messi nas edições anteriores com frieza estatística. Na Copa de 2006, na Alemanha, ele tinha 18 anos e marcou 1 gol em 3 partidas. Em 2010, na África do Sul, 0 gols em 5 jogos — talvez a campanha mais criticada de sua carreira, com a Argentina eliminada pela Alemanha por 4 a 0 nas quartas. Em 2014, no Brasil, 4 gols e a Bola de Ouro do torneio, mesmo com a derrota na final. Em 2018, na Rússia, 1 gol e a eliminação nas oitavas para a França, 4 a 3. E em 2022, no Catar, 7 gols e 3 assistências em 7 partidas — artilheiro compartilhado e Bola de Ouro da Copa pela segunda vez na carreira.
Ao todo, são 14 gols em 26 partidas de Copa do Mundo — média de 0,54 por jogo. O número cresce consistentemente nas fases eliminatórias: dos 14 gols, 9 foram marcados a partir das oitavas de final. Esse padrão — Messi acelera quando o torneio fica sério — é exatamente o que Scaloni quer preservar em 2026.
A gestão de minutos e o esquema tático pensado para os 39 anos
Administrar um atleta de 39 anos em um torneio de sete partidas em cinco semanas não é tarefa simples. Scaloni já demonstrou, no ciclo 2023-2026, que sabe fazer isso. Nas Eliminatórias Sul-Americanas — nas quais a Argentina terminou invicta, com 25 pontos em 10 jogos e aproveitamento de 83,3% — Messi foi poupado em pelo menos quatro partidas e entrou como substituto em outras duas, sem que o rendimento coletivo caísse.
O esquema preferido de Scaloni é um 4-3-3 com liberdade posicional para Messi, que atua formalmente como ponta-direita mas migra constantemente para o meio. Essa função — o chamado falso extremo — exige menos esforço físico do que a de um atacante de área, mas demanda concentração tática permanente. Aos 39 anos, Messi reúne exatamente o que esse papel exige: inteligência de movimento, precisão no passe longo e capacidade de decidir em espaços reduzidos.
O Inter Miami — clube onde Messi atua desde 2023 — reportou, ao longo da temporada 2025/2026 da MLS, que o argentino manteve média de 78 minutos por partida nos jogos em que foi titular, com 18 gols e 14 assistências em 29 aparições. Os dados indicam que a queda física ainda não comprometeu a eficiência.
O precedente histórico e o que a Argentina pode repetir
Bicampeões consecutivos de Copa do Mundo são raros. Apenas Itália (1934 e 1938) e Brasil (1958 e 1962) conseguiram o feito. A Argentina de 1978 e 1986 — com Kempes e Maradona como protagonistas, respectivamente — não repetiu o título na edição seguinte. A Alemanha, campeã em 2014, foi eliminada na fase de grupos em 2018. A França, bicampeã em teoria (1998 e 2018), também não manteve o nível na Copa seguinte.
O histórico, registrado em matéria do SportNavo, mostra que defender um título de Copa é estatisticamente mais difícil do que conquistar o primeiro — a pressão, o esgotamento do ciclo e a desmotivação de parte do elenco são fatores recorrentes. Scaloni parece consciente disso. A Argentina chegou à Copa de 2026 com uma base de 14 jogadores que estiveram no Catar, mas renovou ao menos 40% do elenco com nomes como Alejandro Garnacho, do Manchester United, e Lautaro Martínez, que viveu sua melhor temporada na Inter de Milão em 2024/2025.
Lautaro Martínez — o parceiro de ataque que Scaloni mais confia para desafogar Messi — marcou 24 gols na Serie A italiana em 2024/2025 e chegou à Copa como o segundo nome mais importante do sistema ofensivo argentino. A combinação entre a criatividade de Messi e a eficiência de Lautaro foi responsável por 11 dos 16 gols da Argentina nas Eliminatórias.
A Argentina estreia na Copa do Mundo de 2026 no Grupo A, com jogos previstos para Los Angeles e Nova York. A primeira partida está marcada para 15 de junho, contra o Peru. Se Scaloni mantiver o padrão das Eliminatórias — Messi com carga reduzida na fase de grupos e protagonismo crescente a partir das oitavas —, a Albiceleste chegará ao mata-mata com o craque preservado e motivado para repetir o que fez no Catar.
A pergunta que fica para as próximas semanas é concreta: se a Argentina chegar às quartas de final enfrentando a França — o mesmo adversário da final de 2022 —, Scaloni terá coragem de poupar Messi na partida anterior para garantir que ele esteja em 100% para o confronto decisivo?












