Se a Indy 500 fosse decidida pelos treinos do terceiro dia, Hélio Castroneves já estaria com o troféu na mão. O brasileiro foi o segundo mais rápido da sessão, ficando apenas 0,0577 segundos atrás do líder Pato O'Ward — uma margem que, no oval de Indianápolis, equivale a menos de dois metros de distância a mais de 370 km/h. Não é vitória, mas é um sinal claro de que o tetracampeão chegou à edição deste ano com o carro calibrado e a cabeça no lugar certo.
O que o terceiro dia de treinos revela sobre a velocidade de Castroneves
Treinos em Indianápolis não funcionam como os de um circuito convencional de Fórmula 1. No oval, o conceito de downforce — a força aerodinâmica que "cola" o carro ao asfalto — é deliberadamente reduzido. Isso parece contraintuitivo, mas faz todo sentido: quanto menos resistência aerodinâmica (o chamado drag), maior a velocidade máxima nas retas. O desafio é encontrar o equilíbrio entre estabilidade nas curvas e velocidade nas longas retas. Castroneves e sua equipe, a Meyer Shank Racing, conseguiram um acerto que colocou o carro na segunda posição do dia, indicando que o balanço aerodinâmico está muito próximo do ideal para a corrida de domingo.
Caio Collet, o outro brasileiro em pista, terminou o dia na sétima colocação — um resultado que demonstra consistência para um piloto que ainda acumula experiência no oval mais famoso do mundo. Para Collet, completar a prova dentro dos dez primeiros já seria um marco relevante em sua carreira na IndyCar.
"Num oval como Indianápolis, décimos de segundo nos treinos podem enganar. O que importa é quem entende a degradação térmica dos pneus nas últimas 50 voltas", disse um engenheiro de estratégia de uma equipe rival, sem autorização para ser identificado.
Quatro vitórias e uma conta que ninguém fechou ainda na Indy 500
A história de Castroneves em Indianápolis é construída em números difíceis de ignorar. Quatro vitórias — 2001, 2002, 2009 e 2021 — colocam o brasileiro em empate com Al Unser Sr., Rick Mears e A.J. Foyt no topo da lista histórica de vencedores da prova. Nenhum piloto jamais venceu cinco vezes. Essa é a conta aberta que Castroneves carrega toda vez que entra no pit lane de Indianápolis.
A vitória de 2021 foi especialmente simbólica: Castroneves tinha 46 anos e não disputava a corrida em tempo integral na IndyCar. Venceu assim mesmo, o que reforça a tese de que sua relação com o oval de Indianápolis vai além da mecânica — há uma leitura de corrida acumulada em décadas de experiência que nenhum dado de telemetria consegue substituir.
A física do oval e por que experiência vale mais do que velocidade bruta aqui
Indianápolis é um oval de quatro curvas, cada uma com 9 graus de inclinação (banking). Essa inclinação gera uma força centrípeta que permite velocidades altíssimas sem que o carro precise de tanto downforce quanto em um circuito misto. O problema está na degradação térmica dos pneus: com pouco downforce e altíssimas velocidades, os pneus traseiros acumulam calor de forma desigual, e o carro começa a oscilar na entrada das curvas — um fenômeno chamado de push, quando o carro tende a ir reto em vez de girar. Pilotos experientes reconhecem esse comportamento antes que os dados apareçam no monitor do engenheiro.
A estratégia de undercut — parar nos boxes antes do adversário para ganhar posição com pneus novos — também é mais complexa em Indianápolis do que em qualquer outro circuito. Com 200 voltas, as janelas de pit stop são calculadas com base no consumo de combustível e no comportamento dos pneus ao longo de sequências longas. Castroneves já venceu quatro vezes administrando exatamente esse tipo de variável. Collet, aos 22 anos, ainda está aprendendo a ler esses padrões em tempo real.

O que Castroneves precisa fazer para chegar ao pentacampeonato
Estar em segundo lugar nos treinos é condição necessária, mas não suficiente. A largada na Indy 500 é em fila única com 33 carros, e os primeiros contatos nas curvas iniciais frequentemente eliminam candidatos antes da centésima volta. Com 49 anos, Castroneves precisará de uma largada limpa, de uma estratégia de pit stop agressiva nos momentos certos e, principalmente, de pneus em bom estado nas últimas 30 voltas — quando a corrida normalmente se decide.
A Meyer Shank Racing tem recursos limitados em comparação com equipes como Chip Ganassi Racing e Andretti Global, mas Castroneves já transformou desvantagem estrutural em vitória antes. Em 2021, ele venceu justamente com uma equipe menor, apostando numa estratégia de combustível arrojada que pegou os favoritos de surpresa.
A Indy 500 de 2026 acontece no domingo, em Indianápolis. Hélio Castroneves tem 49 anos e está a 500 milhas de um feito que nenhum ser humano conseguiu em 110 edições da corrida mais famosa do automobilismo americano.










