Se existe um número capaz de traduzir treze anos de domínio quase ininterrupto, ele é 9. Nove títulos da Superliga Masculina, obtidos em onze das doze finais disputadas pelo Sada Cruzeiro — com apenas duas derrotas, sendo a mais recente em 2012/13. Neste domingo (10 de maio), o clube mineiro vai a quadra no Ginásio do Ibirapuera para tentar transformar esse 9 em 10, um número que nenhum outro clube masculino do país já atingiu na competição.

O feito seria inédito no vôlei de clubes masculino brasileiro. Para se ter uma dimensão comparativa: na Itália, a SuperLega tem no Trentino Volley seu clube mais titulado, com seis títulos nacionais; nos Estados Unidos, a liga profissional masculina ainda engatinha em estrutura; na Polônia, o Skra Bełchatów acumula sete ligas. O Cruzeiro, com dez, entraria num patamar de referência global.

O número que o Sada Cruzeiro ainda não alcançou

Dez é o limiar que separa grandes campeões de franquias históricas. No vôlei feminino, o Rexona-Ades chegou a onze títulos da Superliga antes de encerrar as atividades, fixando o teto da modalidade no Brasil. Do lado masculino, nenhum clube sequer chegou a oito antes do Cruzeiro aparecer na elite. O clube de Belo Horizonte acumulou seus nove troféus entre 2011/12 e 2024/25, com a regularidade de uma linha de montagem — perdeu apenas a final de 2012/13 e uma outra decisão, há mais de uma década.

A campanha 2025/26 seguiu o padrão da casa. O técnico Filipe Ferraz — ele mesmo ponteiro do elenco cruzeirense que perdeu a final de 2012/13 — conduziu um grupo que voltou a figurar entre os favoritos desde a fase classificatória. A presença de Lucão como central titular reforça a continuidade de um projeto que transita entre gerações sem perder identidade: o mesmo jogador que ajudou a construir o ciclo olímpico da Rio 2016 pela Seleção Brasileira segue como peça-chave do clube que mais venceu nos últimos quinze anos.

A noite em que Bruninho e Lucão estavam do mesmo lado

A única derrota recente do Cruzeiro numa final remonta a 10 de março de 2013, no Maracanãzinho. O RJX, time carioca que encerrou suas atividades anos depois, venceu por 3 sets a 1 — parciais de 15/25, 25/18, 25/18 e 25/14 — num jogo único que coroou uma campanha impecável: o clube carioca liderou a fase classificatória com 53 pontos, um à frente do Cruzeiro.

Naquele plantel do RJX estavam Bruninho, hoje capitão do Campinas e adversário desta final, e o próprio Lucão, que agora defende o Cruzeiro. Também integravam o elenco Dante, campeão olímpico em Atenas 2004 e prata em Pequim 2008 e Londres 2012, e Thiago Alves, eleito MVP daquela Superliga. O técnico era Marcelo Fronckowiack, atual auxiliar de Bernardinho na Seleção Brasileira.

"Enfrentá-lo é sempre especial, sempre difícil. Pela sua experiência, é um cara que comanda muito bem o bloqueio, e o meu papel é tentar, de alguma forma..." — disse Bruninho em coletiva antes da final, ao ser perguntado sobre encarar Lucão, seu ex-companheiro de mais de uma década na Seleção e em cinco clubes.

A parceria entre os dois acumula 29 títulos ao longo da carreira. A ironia da final deste domingo é que a mesma rede que os une historicamente será o único obstáculo entre eles no Ibirapuera — Bruninho tentando impedir o deca, Lucão tentando conquistá-lo.

O que o deca projeta para o vôlei masculino brasileiro

A dominância do Cruzeiro na Superliga tem reflexo direto na performance da Seleção Brasileira. O ciclo olímpico que culminou no ouro da Rio 2016 foi alimentado por jogadores formados ou aprimorados no clube mineiro — Wallace, William Arjona e Maurício Borges eram do elenco cruzeirense que perdeu para o RJX em 2013 e voltou a vencer nos anos seguintes. A Itália construiu sua hegemonia no vôlei masculino europeu com estrutura de liga forte e clubes estáveis; o Brasil replicou essa lógica, com o Cruzeiro funcionando como eixo central.

No ranking FIVB de clubes, o Sada Cruzeiro figura consistentemente entre os melhores da América do Sul, com participações regulares no Campeonato Mundial de Clubes. O décimo título nacional reforçaria ainda mais esse posicionamento continental, num cenário em que Argentina (Bolívar) e Itália (Trentino, Sir Safety Perugia) são os principais concorrentes históricos em prestígio de clube.

Do ponto de vista geracional, a final deste domingo também marca um rito de passagem. Filipe Ferraz, que estava na quadra como jogador quando o Cruzeiro perdeu para o RJX em 2013, agora comanda o banco. Lucão, que estava do outro lado naquela derrota, é o capitão. E Bruninho — o adversário — carrega na memória os dois lados dessa história.

"Foram anos maravilhosos com a Seleção", disse Bruninho ao refletir sobre a parceria com Lucão, reconhecendo que a decisão deste domingo representa um capítulo à parte numa trajetória que os dois construíram juntos por mais de uma década.

A final da Superliga Masculina 2025/26 acontece neste domingo (10 de maio), no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Se o Sada Cruzeiro vencer, o décimo título será o ponto mais alto de uma construção que começou há quinze anos — como uma catedral que leva décadas para ser erguida e só revela sua dimensão real quando a última pedra é assentada.