Se o calendário da Fórmula 1 tivesse uma vaga sobrando para 2027, Rafael Câmara seria hoje o nome mais quente do mercado de pilotos de desenvolvimento da Europa. Não é especulação vaga — é o que os dados da temporada 2025 da Fórmula 3 e os primeiros resultados de 2026 na Fórmula 2 sustentam com precisão milimétrica. O pernambucano de 21 anos foi ao Hungaroring nos dias 13 e 14 de maio, colocou o macacão vermelho de número 38 e pilotou o SF-25, o carro da Ferrari na temporada 2025 da F1. O teste, parte do programa TPC (Teste de Carros Prévios) regulamentado pela FIA, não teve limite de quilometragem — e Câmara aproveitou cada metro.

A trajetória que abriu as portas de Maranello para Câmara

Em 2025, o brasileiro bateu o recorde histórico de pole positions da Fórmula 3 e conquistou o campeonato com uma rodada de antecipação, somando ainda o prêmio de Novato do Ano da FIA. São números que não passam despercebidos pelos analistas de desempenho da academia Ferrari. O volume de poles indica não apenas velocidade de classificação, mas consistência na montagem de volta — qualidade que a Scuderia valoriza em pilotos jovens antes de qualquer adaptação a carro de alto downforce. Esse currículo lhe garantiu a vaga na Invicta Racing para a Fórmula 2 em 2026, a mesma equipe que levou Gabriel Bortoleto ao título em 2024.

Na temporada atual da F2, Câmara já soma dois pódios nas duas primeiras etapas: segundo lugar em Melbourne e terceiro em Miami, onde liderou parte da corrida. Isso o coloca na terceira posição do campeonato, com ritmo suficiente para brigar pela ponta ao longo do ano.

A trajetória que abriu as portas de Maranello para Câmara Se Rafael Câmara virar
A trajetória que abriu as portas de Maranello para Câmara Se Rafael Câmara virar

O que aconteceu no Hungaroring e o que os dados revelam

O circuito húngaro não foi escolhido por acaso para a estreia de Câmara num carro de F1. Com 4.381 metros de extensão, 14 curvas e alta demanda de carga aerodinâmica, o Hungaroring exige do piloto uma leitura precisa de subviragem e gerenciamento de pneus — exatamente as variáveis que a Ferrari quer avaliar num piloto de desenvolvimento. Câmara dividiu a pista com o sueco Dino Beganovic, também integrante da academia italiana, o que permitiu comparação direta de telemetria entre os dois candidatos ao mesmo assento potencial.

O teste TPC não produz tempos oficiais divulgados, mas o volume de quilômetros sem restrição regulamentar indica que Câmara teve acesso a diferentes compostos de pneu e provavelmente rodou simulações de stint longo, além de voltas rápidas de referência. Para um piloto que nunca havia tocado num carro de F1, a ausência de limite de quilometragem é um sinal claro de que a Ferrari queria dados reais, não apenas uma foto de marketing.

Como diz o ditado, quem não tem cão caça com gato — mas Câmara tem o cão de caça mais famoso do paddock. Estar dentro da academia Ferrari significa acesso a simuladores de ponta em Maranello, debriefs com engenheiros de corrida do grid atual e comparações diretas com os dados de Hamilton e Leclerc. Poucos pilotos de desenvolvimento no mundo têm esse nível de infraestrutura disponível.

Afinal, quantos brasileiros pilotaram uma Ferrari de Fórmula 1 nos últimos 15 anos?

A resposta é zero — até quinta-feira. Câmara se tornou o primeiro desde Felipe Massa, que encerrou sua passagem pela Scuderia após a temporada 2013. O peso simbólico é real, mas o que interessa à Ferrari é o número na telemetria, não a bandeira no capacete.

O plano de Vasseur e a rota para a estreia oficial em 2027

Segundo apuração do SportNavo, o chefe da Ferrari, Frédéric Vasseur, já declarou publicamente o próximo passo:

"A ideia da equipe é dar ao brasileiro a oportunidade de participar de um treino livre da Fórmula 1 nesta temporada", afirmou Vasseur, sem confirmar data.

Um FP1 oficial em 2026 significaria pontos de superlicença adicionais para Câmara, aproximando-o do total de 40 exigido pela FIA para correr na categoria. O brasileiro acumulou pontos expressivos com o título da F3 em 2025 e está construindo mais com a campanha na F2 — uma boa segunda metade de temporada pode ser decisiva para completar a cota antes do fim do ano.

Com as vagas do grid de 2027 ainda em aberto, especialmente em equipes satélites e em possíveis movimentações no próprio grupo Ferrari, Câmara tem uma janela real. O próximo passo concreto é o FP1 prometido por Vasseur ainda em 2026 — e cada corrida da F2 nos próximos meses conta pontos tanto no campeonato da categoria quanto no dossiê que a Ferrari apresentará internamente quando precisar colocar um nome numa lista de pilotos titulares.