Confesso: em 2014, quando cobri a Copa do Mundo em solo brasileiro, subestimei o impacto de jogadores chegando em diferentes datas ao acampamento da Seleção. Naquele torneio, Luiz Gustavo se apresentou com atraso por causa da final da DFB-Pokal pelo Bayern de Munique e entrou em campo contra a Croácia sem o ritmo ideal de treino coletivo. O Brasil venceu por 3 a 1, mas o volante cometeu o pênalti que abriu o placar. Hoje, doze anos depois, o mesmo dilema retorna — desta vez com seis nomes confirmados na lista de Carlo Ancelotti.

Quem são os seis e por que ainda estarão em campo em maio

A CBF prevê apresentação dos jogadores a partir do dia 27 de maio. O problema é que três deles estarão disputando a final da UEFA Champions League no dia 30: Marquinhos (PSG), Gabriel Martinelli e Gabriel Magalhães (ambos do Arsenal). Os outros três — Danilo e Alex Sandro, do Flamengo, e Danilo dos Santos, do Botafogo — jogam as rodadas finais da fase de grupos da Libertadores e da Sul-Americana nos dias 26, 27 e 28 de maio, respectivamente.

A Fifa alterou seu regulamento para liberar não apenas os finalistas de competições continentais europeias, mas também as rodadas finais de fase de grupos da Conmebol, atendendo a uma demanda histórica da entidade sul-americana. Com isso, os clubes brasileiros podem utilizar seus convocados nas competições continentais, mas não no Brasileirão — cuja última rodada antes da pausa ocorre no fim de semana de 30 de maio.

O calendário que Ancelotti precisa gerenciar nos primeiros dias

A lista definitiva com os 26 convocados será anunciada em cerimônia no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, no dia 18 de maio. Antes disso, em 11 de maio, a CBF inscreve uma pré-lista de 50 jogadores na Copa do Mundo. Isso significa que Ancelotti terá menos de duas semanas entre o anúncio oficial e o início dos trabalhos — e, na prática, começará a preparação com no mínimo seis peças fora do tabuleiro.

Segundo apuração do SportNavo, a ausência simultânea de Marquinhos (capitão e referência defensiva), dos dois Gabriéis do Arsenal e de três laterais experientes representa uma lacuna considerável nos primeiros dias de treino coletivo. Para efeito comparativo, na Copa de 2002 o Brasil de Luiz Felipe Scolari realizou apenas sete treinos coletivos completos antes da estreia contra a Turquia — e venceu o torneio. A margem de ajuste existe, mas é estreita.

"A Fifa mudou a regra e liberou também as rodadas finais das fases de grupos, atendendo à Conmebol", conforme informado pela CBF em comunicado oficial sobre o calendário de liberação de atletas para a Copa do Mundo.

O que os números dizem sobre o risco real de atraso

Uma métrica útil para dimensionar o impacto é o xT (expected threat), que mede a contribuição de um jogador para criar situações de perigo — quanto maior o valor, mais o time depende daquele atleta para gerar ameaça ofensiva. Gabriel Martinelli acumula um dos maiores xT entre os atacantes convocáveis do Brasil na temporada 2025/2026 pela Premier League, o que significa que sua chegada tardia priva Ancelotti de calibrar combinações com ele desde o primeiro treino. Em linguagem direta: o time ensaia sem a peça e depois precisa encaixá-la em cima da hora.

A lista de possíveis atrasados pode crescer ainda mais. Hugo Souza (Corinthians), Lucas Beraldo (PSG), Léo Pereira, Léo Ortiz e Lucas Paquetá (todos do Flamengo), Fabrício Bruno (Cruzeiro) e Neymar (Santos) são nomes que podem aparecer na convocação e teriam agenda continental conflitante. É improvável que todos sejam chamados, mas mesmo dois ou três adicionais elevariam o problema a outro patamar.

Quem são os seis e por que ainda estarão em campo em maio Seis jogadores de Ance
Quem são os seis e por que ainda estarão em campo em maio Seis jogadores de Ance
"Os times brasileiros poderão usar os convocados nas competições continentais, mas não no Brasileirão", esclareceu a CBF ao detalhar as regras de liberação para a Copa.

A estreia do Brasil na Copa do Mundo está marcada para 19 de junho, o que dá a Ancelotti aproximadamente três semanas de preparação após a apresentação do grupo completo — tempo suficiente para integrar os atrasados, desde que o técnico já tenha esquema e padrões táticos estabelecidos com os jogadores que chegam cedo.