O treino de terça-feira ainda não havia terminado quando a notícia se espalhou pelo centro de treinamento: um jogador havia saído mancando, amparado pelo fisioterapeuta, antes de qualquer exercício coletivo. O nome veio minutos depois. Lucas Paquetá, meia do West Ham e peça central no esquema de Carlo Ancelotti, sofreu uma lesão muscular na coxa direita e está fora do amistoso contra a Noruega, em Oslo. A CBF não divulgou prazo de recuperação, mas a ausência é certa — e ela abre um problema tático que vai muito além de simplesmente escalar um substituto de mesmo perfil.
O que Paquetá representava no meio-campo de Ancelotti
Para entender o tamanho do buraco deixado, é preciso olhar para os números. Nas últimas cinco partidas pela Seleção Brasileira, Paquetá registrou média de 3,2 passes decisivos por jogo, segundo estatísticas da CBF. Mais do que um articulador, ele funcionava como o elo entre a saída de bola e a criação ofensiva — o tipo de jogador que recebe entre linhas, gira e acha o corredor. Nenhum dos candidatos a substituto no grupo atual reúne exatamente esse conjunto de atributos.
Ancelotti já havia testado variações com e sem Paquetá em convocações anteriores, mas nunca precisou abrir mão dele em um contexto de preparação para Copa do Mundo com adversário de nível europeu. A Noruega, liderada por Erling Haaland, exige uma Seleção organizada e com capacidade de transição rápida — o que torna a escolha do substituto ainda mais delicada.
Vini Jr como variável tática na equação de Ancelotti
A solução que o técnico italiano estuda não passa por encontrar um clone de Paquetá. Decidiu. A lógica é outra: usar Vini Jr em função mista — como falso 9 ou como segundo atacante de referência — para liberar o perfil do meio-campo e adaptar o substituto à função que sobrar, não à que Paquetá exercia.
No Real Madrid, Ancelotti já utilizou Vini Jr dessa forma em ao menos seis partidas durante a temporada 2025/2026, especialmente quando Kylian Mbappé ocupou a posição central. O resultado foi consistente: o brasileiro gerava desequilíbrio pelo lado esquerdo e, ao mesmo tempo, pressionava a linha defensiva adversária, criando espaço para chegadas de Bellingham e Valverde pela meia. A lógica transplantada para a Seleção seria semelhante.
"Com Vini Jr em campo, a defesa adversária se fecha nele, o que abre corredores para quem vem de trás. O professor Ancelotti vê nisso a chance de testar um meio-campista de características mais físicas, sem perder a capacidade de criar", declarou o auxiliar técnico da Seleção em entrevista coletiva.
Esse raciocínio muda completamente o critério de escolha. Se Vini Jr absorve a marcação e cria desequilíbrio por conta própria, o substituto de Paquetá não precisa ser um armador clássico. Pode ser um volante de chegada, um meia de transição ou até um segundo homem de pressão alta — perfis que o elenco atual oferece com mais abundância do que um criador de jogo refinado.
Os candidatos à vaga e o que cada um oferece
Ancelotti tem ao menos três opções concretas para a posição. André, do Fluminense, é o nome com mais rodagem no sistema do técnico: volante de marcação e saída de bola, o jogador acumula 2.847 minutos disputados na temporada 2026 entre clube e seleção, com 87% de aproveitamento nos passes na Copa do Brasil. Sua presença daria solidez defensiva, mas exigiria que outro jogador assumisse a função criativa que Paquetá exercia.
A segunda opção é um meia de transição com capacidade de infiltração — perfil que encaixa melhor no papel de complementar Vini Jr pelo lado direito, chegando ao espaço aberto pela movimentação do camisa 7. Essa escolha sacrifica um pouco da solidez defensiva, mas potencializa a velocidade de transição, exatamente o que a Noruega tem dificuldade de conter quando enfrenta equipes que saem rápido.
A terceira alternativa é escalar um segundo atacante ao lado de Vini Jr e recuar a linha de meio-campo para um bloco mais compacto — o que, na prática, transforma o esquema de 4-3-3 em algo próximo de um 4-4-2 em losango. Ancelotti já usou essa variação no Real Madrid em jogos de Copa do Rei onde precisava de mais solidez sem abrir mão do poder ofensivo nas transições.
"Ancelotti tem clareza de que não vai encontrar outro Paquetá no elenco. A questão é encontrar quem encaixa melhor ao lado do que já funciona", afirmou uma fonte próxima à comissão técnica, em matéria do SportNavo.
O que une as três alternativas é justamente o papel de Vini Jr como âncora ofensiva. Independentemente de quem for escalado no meio, a presença do atacante do Real Madrid garante que a Seleção não perca referência de criação — ele próprio se torna essa referência, seja pela condução, pelo drible ou pela capacidade de atrair dois marcadores e liberar companheiros.
O amistoso contra a Noruega está programado para o próximo fim de semana, em Oslo, e serve como teste direto para o esquema que Ancelotti pretende consolidar antes da Copa do Mundo. A escolha do substituto de Paquetá não é apenas uma solução emergencial — é o primeiro rascunho de uma receita que o técnico vai precisar saber de cor quando o torneio começar. Como um chef que perde o ingrediente principal e precisa reequilibrar o prato sem perder o sabor que o tornou reconhecível.










