Todo mundo sabia que 48 seleções significariam mais surpresas. O que os céticos não previram foi a escala: sete nações alcançaram o mata-mata de uma Copa do Mundo pela primeira vez na história, tudo em uma única edição. Expandido.
O que os bastidores da fase de grupos revelaram sobre o novo desenho
Nas três edições anteriores com 32 seleções — 2010, 2014 e 2018 —, a média de estreantes no mata-mata foi de dois por torneio. A Copa de 2022, no Catar, registrou três: Marrocos (que chegaria às semifinais), Austrália e Senegal. A edição de 2026, já na fase de grupos encerrada neste sábado (28), contabiliza sete. A diferença não é marginal; é estrutural.
A República Democrática do Congo ilustra o argumento com precisão aritmética. Em Atlanta, precisando vencer, a seleção africana bateu o estreante Uzbequistão por 3 a 1 e terminou o Grupo K com 4 pontos — suficientes para avançar em terceiro lugar. Portugal, com Cristiano Ronaldo, e a Colômbia de Luis Díaz empataram em 0 a 0 em Miami e se classificaram com 5 e 7 pontos, respectivamente. Três seleções de um mesmo grupo no mata-mata: isso nunca ocorreu nas quatro décadas de Copa com 24 ou 32 times.
No Grupo J, o drama foi ainda mais cinematográfico. Argentina, já classificada, escalou reservas e bateu a Jordânia por 3 a 1 em Arlington — com Lionel Messi, mesmo entre os titulares poupados, sendo o destaque da partida. Enquanto isso, em Kansas City, Argélia e Áustria protagonizaram um dos jogos mais intensos do torneio: empate por 3 a 3 com dois gols nos acréscimos do segundo tempo. O Irã, que dependia de uma derrota de qualquer um dos dois para avançar como melhor terceiro colocado, foi eliminado apesar de não ter perdido na fase.
O que os números históricos dizem sobre zebras em Copas
A crítica mais recorrente ao formato de 48 seleções — e aqui a analogia é inevitável — lembra o que aconteceu com o tênis quando o US Open ampliou o qualifying para 128 jogadores em 1968: os primeiros anos foram caóticos, com cabeças de chave eliminados em sets de abertura, mas a qualidade média do circuito subiu em uma década. O futebol parece seguir trajetória semelhante.
Dos sete estreantes no mata-mata desta edição, cinco são africanos ou de confederações historicamente sub-representadas nas fases finais: RD Congo, Cabo Verde, África do Sul, Costa do Marfim e Egito. O continente africano, que entre 1990 e 2018 enviou seleções às quartas de final apenas uma vez (Senegal em 2002 e Gana em 2010, se contarmos as quartas), já tem ao menos cinco representantes vivos nesta Copa. Marrocos havia chegado às semifinais em 2022 — mas como caso isolado. Agora, a presença africana no mata-mata deixou de ser exceção.
O Canadá, por sua vez, retorna ao mata-mata pela primeira vez desde 1986 — quando, na sua única participação anterior, foi eliminado na fase de grupos sem marcar um gol sequer. Quarenta anos depois, sob o comando de Jesse Marsch, a seleção norte-americana chega às oitavas como time construído. A Bósnia-Herzegovina, que disputou apenas uma Copa antes (2014, eliminada na fase de grupos), completa o grupo dos sete.
"Nossa, o estádio até treme com a vibração do público. A gente tem a torcida do nosso lado. Não podemos perder de jeito nenhum."
A fala acima é de Oliver, personagem do anime Supercampeões, em uma edição especial produzida para a Copa de 2002 que colocava Japão e Brasil em uma final que nunca teve placar. A referência cultural não é gratuita: o Japão de 2026, com a melhor geração de jogadores de sua história, finalmente cruza o caminho do Brasil em um mata-mata real — algo que o desenho deixou em aberto por mais de duas décadas e que em 2018 quase se concretizou, mas foi impedido pelo gol belga nos acréscimos das oitavas.
O que a mesa de decisão da Fifa acertou e o que ainda incomoda
O formato de 16 grupos de 3 seleções, com os oito melhores terceiros avançando, foi a solução encontrada pela Fifa para acomodar 48 participantes sem inflar demais o número de jogos na fase eliminatória. O resultado prático é uma fase de grupos com menor margem para erros — três partidas, sem volta —, o que paradoxalmente aumenta a pressão sobre as seleções favoritas.
Portugal, por exemplo, terminou em segundo no Grupo K com 5 pontos, atrás da Colômbia. Nas edições de 32 seleções, isso seria improvável para uma seleção com o plantel lusitano. O novo formato redistribuiu o risco de forma mais democrática: grandes nomes chegam ao mata-mata, mas sem a gordura de quatro jogos para ajustar a equipe.
A crítica legítima permanece no calendário. Com 104 jogos no total — contra 64 das edições de 32 seleções —, o torneio exige mais das estruturas logísticas dos países-sede (EUA, Canadá e México, neste caso) e eleva o risco de lesões para jogadores que já encerram temporadas europeias exaustivas. Mas os números da fase de grupos de 2026 sugerem que, em termos de competitividade, a Fifa acertou a aposta.
Nas oitavas de final, a RD Congo enfrenta a Inglaterra na quarta-feira (1º), às 13h. A Argélia mede forças com a Suíça na sexta (3). A Áustria, que sobreviveu ao caos de Kansas City, pega a Espanha na quinta (2). Sete histórias inéditas continuam — e ao menos uma delas vai durar mais uma semana, em matéria acompanhada pelo SportNavo.










