Se a janela de transferências do futebol feminino abrisse hoje, Khadija Shaw seria o nome mais cobiçado da Women's Super League. A jamaicana de 28 anos, artilheira da WSL pela terceira temporada consecutiva, comunicou ao Manchester City que não pretende renovar o contrato — e o Chelsea, curiosamente, já figura entre os interessados. A ironia do calendário colocou os dois clubes frente a frente na semifinal da Women's FA Cup no último domingo, dia 11, e Shaw marcou os dois gols da virada que classificou o City para a final: empate a 2 nos 90 minutos e o gol da classificação aos 13 minutos da prorrogação, transformando o duelo em vitrine pessoal contra o próprio pretendente.

A artilheira que o City não consegue segurar

Os números constroem o argumento antes de qualquer análise. Shaw chegou à marca de 50 gols em 57 partidas pelo City ainda na temporada 2023/24, tornando-se a segunda jogadora da história da WSL a atingir esse patamar com maior velocidade. Na campanha atual, a jamaicana segue como líder de gols da liga e, segundo dados do clube, já participou de ao menos um gol em dez jogos consecutivos da WSL — sequência sem precedente registrado na competição. No início de maio, numa vitória por 5 a 0 sobre o West Ham no Joie Stadium, Shaw marcou duas vezes antes do intervalo, mas saiu de campo precisando de assistência física ao final do primeiro tempo, o que acendeu o alerta sobre sua condição física para a reta decisiva da temporada.

A artilheira que o City não consegue segurar Shaw marca dois contra quem a quer
A artilheira que o City não consegue segurar Shaw marca dois contra quem a quer

A lesão chegou no pior momento tático. O City disputa o título da WSL com o Chelsea na diferença de saldo de gols — e qualquer ausência prolongada de Shaw pesa diretamente nesse cálculo. Em partida anterior, também contra o West Ham, a atacante entrou como substituta no segundo tempo, marcou o gol que parecia garantir os três pontos aos 80 minutos, mas viu o empate acontecer no acréscimo: 1 a 1 no Chigwell Construction Stadium, resultado que complicou ainda mais a corrida pelo título.

Shaw brilha diante de quem já a quer contratar

O confronto de semifinal da Women's FA Cup, no dia 11 de maio, funcionou como teste involuntário de mercado. O Chelsea abriu 2 a 0 com gols de Erin Cuthbert, aos 8 minutos, e Sam Kerr, aos 14 do segundo tempo. O City reagiu com gol de Mary Fowler aos 41 minutos, e Shaw empatou aos 46, já nos acréscimos. Na prorrogação, aos 13 minutos da primeira etapa extra, a jamaicana virou: 3 a 2, classificação garantida. O técnico Andrée Jeglertz não escondeu a avaliação no vestiário.

"Sempre disse que ela é uma jogadora incrível para nós. Ela tem sido fantástica este ano, marcando muitos gols e tendo um impacto enorme, e provou isso novamente hoje", declarou Jeglertz à BBC após a partida.

O desempenho diante do próprio clube interessado em contratá-la elevou o valor simbólico e comercial de Shaw num único jogo de 120 minutos. O City avança à final da Women's FA Cup, onde enfrenta o Brighton no domingo, dia 31 de maio, às 11h (horário de Brasília). Shaw pode encerrar o ciclo no clube com dois títulos na mesma temporada — ou com nenhum, dependendo da evolução da lesão.

Racismo, saúde mental e a resposta institucional do City

A pressão sobre Shaw não veio apenas do campo. Após a derrota por 4 a 3 para o Arsenal, em casa, no começo de maio, a atacante recebeu mensagens com conteúdo racista e misógino. O City optou por poupá-la do jogo seguinte, uma vitória por 2 a 1 sobre o Arsenal pela semifinal da Copa da Liga, por razões de saúde mental — decisão comunicada em nota oficial do clube, que informou ter compartilhado as mensagens com as autoridades.

"É muito difícil eu analisar porque quem sabe o que acontece naquele mundo e quando você é afetado por coisas assim. Mas ela sabe, e precisa saber, que todo o clube está com ela nisso", disse o técnico Gareth Taylor à Reuters.

A WSL emitiu nota de repúdio e lembrou que o caso não foi isolado: a capitã do Chelsea, Millie Bright, relatou no Instagram ter recebido comentário abusivo de um torcedor após a vitória sobre o Aston Villa na mesma rodada. "Jogadores, treinadores e árbitros devem poder fazer seu trabalho sem serem submetidos a abusos, seja pessoalmente ou online, e não há lugar para isso no futebol feminino ou na sociedade em geral", afirmou a liga em comunicado. O episódio expôs uma fragilidade estrutural que vai além do desempenho esportivo — e que o SportNavo tem acompanhado como padrão recorrente no futebol feminino europeu quando resultados negativos coincidem com jogadoras negras em posição de destaque.

O efeito cascata de uma saída anunciada

Se Shaw confirmar a saída ao fim da temporada, o City perde sua principal referência ofensiva sem receber nenhuma taxa de transferência — o contrato se encerra e a jogadora escolhe o destino livremente. Para o Chelsea, contratar a artilheira da liga sem custos de aquisição representaria um reforço de alto rendimento com impacto financeiro reduzido. Para o City, significa reconstruir o setor ofensivo num mercado feminino em que jogadoras com 50 gols em 57 jogos não aparecem com frequência.

O título da WSL desta temporada pode ser decidido na diferença de saldo de gols entre os dois clubes — o mesmo critério que torna cada partida de Shaw, saudável ou lesionada, uma variável de resultado coletivo. A final da Women's FA Cup contra o Brighton, marcada para 31 de maio, será o último capítulo de um ciclo que produziu ao menos 50 gols, três artilharias e um episódio grave de racismo. Shaw sai. A pergunta é: com qual troféu na mão.