Falhou. O arsenal terapêutico disponível simplesmente não teve resposta para a cepa de Acinetobacter baumannii isolada nas proximidades da Estação de Bombeamento de Água Pluvial (EBAP) Menino Deus, no Guaíba, em Porto Alegre. Pesquisadores do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS), dentro dos projetos ClimaRes WaSH e CLIMASANO, confirmaram a presença do patógeno em quatro pontos distintos do lago durante a primeira campanha de monitoramento de 2026 — e o resultado mais crítico expõe uma brecha sanitária de proporções clínicas graves.

Os quatro pontos do Guaíba onde a superbactéria foi encontrada

A coleta abrangeu a praia do Lami, a praia de Ipanema (Zona Sul), um trecho do Guaíba próximo à foz do arroio Dilúvio e o ponto adjacente à EBAP Menino Deus. Nos três primeiros locais, os isolados da bactéria já apresentaram resistência a antibióticos de amplo espectro — cefotaxima, ceftriaxona e cefepima —, fármacos que compõem linhas de tratamento padrão para infecções bacterianas graves.

Os quatro pontos do Guaíba onde a superbactéria foi encontrada Superbactéria no
Os quatro pontos do Guaíba onde a superbactéria foi encontrada Superbactéria no

O ponto da EBAP Menino Deus, porém, elevou o nível de alerta a um patamar diferente. A análise laboratorial demonstrou resistência a todos os 14 antimicrobianos testados, incluindo ceftazidima, imipenem, meropenem e ciprofloxacino. Imipenem e meropenem pertencem à classe dos carbapenêmicos, os chamados antibióticos de reserva — utilizados apenas quando não há alternativa viável. Uma bactéria capaz de neutralizar essas moléculas é, tecnicamente, uma ameaça sem resposta farmacológica convencional.

A Acinetobacter baumannii foi classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2024 como uma das bactérias mais perigosas do mundo. Os critérios da OMS incluem taxa de mortalidade, transmissibilidade, impacto nos sistemas de saúde e ausência de novas opções terapêuticas no horizonte. Em cepas resistentes a antibióticos, a mortalidade associada a quadros de sepse pode chegar a 70%.

A conexão com os surtos hospitalares no Rio Grande do Sul

A descoberta no Guaíba ganhou contornos ainda mais preocupantes quando cruzada com dois episódios recentes no estado. Em abril de 2026, um surto de A. baumannii na UTI neonatal do Hospital Fêmina, em Porto Alegre, levou ao fechamento temporário do setor para descontaminação e resultou na morte de um bebê prematuro. O irmão gêmeo da criança também testou positivo para a bactéria.

No Hospital Municipal de Novo Hamburgo, na Região Metropolitana, o cenário foi igualmente grave. Nos dias 11 e 15 de julho, dois pacientes foram internados na UTI com infecções causadas pelo mesmo patógeno. Nos dias 16 e 22, registraram-se dois casos de transmissão cruzada dentro da unidade. A solução encontrada pela Fundação de Saúde Pública de Novo Hamburgo (FSNH) foi fechar a UTI, transferir os sete pacientes internados para a Unidade Neurovascular e suspender cirurgias cardíacas eletivas.

"As pessoas não devem se alarmar, não é que vai todo mundo se contaminar com essa bactéria", ponderou Fernando Magalhães, professor adjunto na área de Saneamento Ambiental do IPH/UFRGS e um dos coordenadores do projeto ClimaRes WaSH.

A trajetória da bactéria, segundo os pesquisadores, não foi do Guaíba para os hospitais — foi o caminho inverso. Dejetos de unidades hospitalares e de pacientes colonizados pela A. baumannii são lançados na rede de esgoto e, em uma cidade onde parte do esgoto não passa por tratamento adequado, chegam ao rio. O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) reforçou que o achado se refere ao ambiente natural e não compromete a água tratada que abastece as residências da capital gaúcha.

O próximo passo da investigação e o risco real para banhistas

A equipe da UFRGS anunciou o sequenciamento genômico das cepas isoladas. O objetivo é mapear com precisão os mecanismos de resistência e verificar se há parentesco genético entre os isolados do Guaíba e as cepas responsáveis pelo surto no Hospital Fêmina — dado que, se confirmado, estabeleceria uma cadeia epidemiológica de alta relevância clínica e sanitária.

O próximo teste previsto é a suscetibilidade à polimixina B, um dos últimos recursos terapêuticos disponíveis contra infecções por bactérias multirresistentes. Se a cepa da EBAP Menino Deus também apresentar resistência a essa molécula, o quadro se tornará ainda mais restrito do ponto de vista do tratamento.

A conexão com os surtos hospitalares no Rio Grande do Sul Superbactéria no Guaíb
A conexão com os surtos hospitalares no Rio Grande do Sul Superbactéria no Guaíb
"O que foi identificado, na verdade, foi um resíduo de esgoto contendo a bactéria", explicou um dos pesquisadores do projeto, reforçando que a presença no Guaíba é consequência do descarte inadequado de efluentes, não uma contaminação espontânea do ecossistema.

Para banhistas saudáveis, o risco de infecção por contato com a água é baixo — a A. baumannii é um patógeno oportunista, que encontra terreno fértil em organismos com imunidade comprometida, feridas abertas ou vias de acesso invasivas como cateteres e ventiladores mecânicos. Crianças pequenas, idosos e pessoas com condições crônicas representam o grupo de maior vulnerabilidade em caso de exposição.

O monitoramento do ClimaRes WaSH abrange 17 pontos da capital gaúcha e terá novas campanhas de coleta ao longo de 2026. Os resultados do sequenciamento genômico, esperados nas próximas semanas, definirão se as autoridades sanitárias precisarão emitir alertas formais de restrição de uso das praias do Lami e de Ipanema — a população aguarda uma resposta concreta antes do próximo ciclo de calor intenso no Rio Grande do Sul.