Voltou. O Alejandro Tabilo que chegou ao 16º lugar do ranking ATP em 2024 — e depois sumiu da conversa sobre os grandes do circuito — reapresentou sua candidatura em Paris com uma vitória de caráter: três horas e 43 minutos de batalha, uma virada sobre a sensação local Moise Kouame, de 17 anos, e um lugar inédito nas oitavas de Roland Garros. O placar de 4/6, 6/3, 6/4 e 7/6 (11-9) diz muito sobre o duelo, mas não diz tudo sobre o que a classificação significa para o canhoto chileno de 28 anos.
Tabilo e a matemática de uma recuperação real
Quando Tabilo atingiu o 16º posto do ranking ATP em 2024, o tênis sul-americano comemorou com a cautela típica de quem já viu talentos se perderem na sequência. O chileno, nascido em Toronto mas formado dentro da identidade do saibro latino-americano, sofreu queda de rendimento e chegou à temporada de 2026 na 36ª colocação. A diferença entre o pico e o momento atual é de 20 posições — considerável, mas reversível para quem mostra consistência.
A temporada 2026 trouxe sinais concretos de recuperação. Tabilo foi finalista no Rio Open, perdendo para o argentino Tomás Etcheverry, e depois conquistou o Challenger 175 de Aix-en-Provence, evento disputado no saibro francês — exatamente a superfície que agora o leva às oitavas de um Grand Slam. Para um jogador que jamais havia ultrapassado a terceira rodada em Roland Garros, a sequência Aix-Paris representa um arco de forma raramente tão nítido no circuito masculino.
A título de comparação regional: Carlos Alcaraz chegou ao top 20 com 18 anos e manteve consistência em Grand Slams desde Roland Garros 2021. Tabilo, aos 28, segue trajetória mais tardia, próxima à de Fabio Fognini, que atingiu o top 10 apenas aos 29. Não há urgência biológica — há, porém, uma janela de ciclo que o chileno precisa usar bem.
Kouame sai eliminado, mas entra no mapa do tênis mundial
Do outro lado da rede, Moise Kouame escreveu uma história que o tênis francês vai guardar. Convidado da organização, ranqueado na 318ª posição antes do torneio, o jovem de 17 anos obrigou Tabilo a salvar cinco match points antes de ceder no tie-break do quarto set por 11-9. A derrota projeta Kouame para a 210ª colocação provisória no ranking — um salto de mais de cem posições em uma única semana.
"Que primeiro Roland Garros para você… simplesmente inesquecível!"
— Publicação oficial de Roland Garros nas redes sociais, dirigida a Kouame após a eliminação
A trajetória de Kouame lembra, em termos de impacto midiático, o que o espanhol Carlos Alcaraz provocou quando apareceu em 2021 com 18 anos e derrubou jogadores do top 40 em Umag. A diferença está na solidez técnica: Alcaraz já chegava com um backhand de referência; Kouame ainda é matéria-prima. Mas o saibro francês tem histórico de revelar talentos precocemente — Gaël Monfils e Jo-Wilfried Tsonga passaram por Paris antes de explodir no circuito.
América do Sul coloca três tenistas nas oitavas e Matos avança nas mistas
A classificação de Tabilo completa um quadro inédito: três sul-americanos nas oitavas de final de Roland Garros na mesma edição. O brasileiro João Fonseca garantiu sua vaga na sexta-feira, após virada histórica sobre Novak Djokovic. O argentino Juan Manuel Cerúndolo, 56º do ranking, chegou ao mesmo estágio depois de seis horas e três minutos de batalha contra o espanhol Martin Landaluce — a partida mais longa do torneio em 2026, com placar de 6/4, 6/7 (7-9), 7/6 (7-4), 6/7 (4-7) e 7/6 (10-8). Cerúndolo, que eliminou Jannik Sinner na segunda rodada, enfrenta o italiano Matteo Berrettini nas oitavas.
Conforme registrado pelo SportNavo, a presença sul-americana em Roland Garros vai além do simples singular: o continente tem colocado jogadores consistentemente entre os 16 melhores de Paris desde que Gustavo Kuerten transformou o saibro francês num território familiar para a região. Nos últimos dez anos, Brasil, Argentina e Chile somaram 14 aparições nas oitavas de Roland Garros — número que rivaliza com o desempenho coletivo da Alemanha no mesmo período.
Nas duplas mistas, o gaúcho Rafael Matos seguiu a campanha ao lado da espanhola Cristina Bucsa. A parceria venceu de virada a taiwanesa Su-Wei Hsieh e o alemão Mark Ullmann, garantindo vaga nas quartas de final. Hsieh, ex-número 1 do mundo nas duplas femininas, é adversária de peso — o que torna a classificação de Matos e Bucsa ainda mais expressiva dentro do contexto do tênis brasileiro em Paris.
Tabilo aguarda o vencedor do duelo entre o canadense Félix Auger-Aliassime, quarto favorito do torneio, e o norte-americano Brandon Nakashima, 31º pré-classificado. Auger-Aliassime tem histórico favorável contra o chileno no circuito, mas Tabilo nunca chegou às oitavas de Roland Garros antes — e jogadores que constroem momentum em saibro tendem a ser mais imprevisíveis do que rankings sugerem. Está em forma — falta o maior palco da carreira.










