Diz-se que goleiro de seleção não pode cometer falhas em véspera de Copa do Mundo. Na verdade, pode — e a trajetória de praticamente todos os titulares brasileiros entre 1970 e 2026 demonstra exatamente o contrário. Quando Bento cedeu o empate de 1 a 1 para o Al-Hilal no último lance de uma cobrança de lateral, impedindo o título antecipado do Al-Nassr no Campeonato Saudita, as críticas vieram rápido — sobretudo da Europa, onde o técnico Jorge Jesus foi um dos primeiros a apontar o erro do arqueiro de 26 anos. O defensor que apareceu foi Cláudio André Mergen Taffarel, 57 anos, tetracampeão mundial em 1994 e atual coordenador da preparação de goleiros da comissão técnica de Carlo Ancelotti.

A frase de Taffarel que resume décadas de história entre as traves

Em entrevista à ESPN, Taffarel foi direto ao ponto:

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"Se (falha) pesasse assim, acho que eu nunca teria ido para uma Copa. Ele (Bento) tem feito um bom campeonato lá, com regularidade, estamos acompanhando."

A frase não é retórica — é autobiográfica. Taffarel disputou as Copas de 1990, 1994 e 1998, e em todas elas carregou o peso de ao menos um lance criticado. Em 1990, na Itália, o Brasil foi eliminado pela Argentina nas oitavas de final; Taffarel levou um gol de Caniggia que ainda hoje divide opiniões sobre posicionamento. Em 1998, na França, foi titular no vice-campeonato e esteve em campo no fatídico 3 a 0 para os franceses na final em Saint-Denis. Erros. Pressão. Copa. Ele foi a todas.

"Falhou, sim. Falei com ele, mas já superou. Goleiro tem de ser assim, foi isso que sempre me levou para a seleção: errava, admitia e sabia onde tinha errado. E virava a página — a posição tem isso, devemos estar preparados", garantiu Taffarel.

O que a história dos goleiros brasileiros revela sobre falhas e convocações

O levantamento que o SportNavo fez sobre os goleiros titulares da Copa do Mundo confirma o argumento de Taffarel com precisão cirúrgica. Emerson Leão, titular em 1978, sofreu críticas pesadas no Campeonato Brasileiro antes da competição. Dida, dono do gol em 2006 na Alemanha, havia cometido falhas graves pelo Milan na temporada 2005/06 — e ainda assim liderou o Brasil até as quartas de final, onde a Seleção perdeu para a França por 1 a 0, gol de Zidane. Júlio César, herói de 2010 com defesas decisivas na África do Sul, foi responsabilizado por pelo menos dois gols evitáveis no torneio. Errou.

Furou.

E continuou titular. A posição de goleiro na Seleção Brasileira nunca foi ocupada por quem não falhou — foi ocupada por quem melhor administrou o erro dentro de um ciclo de regularidade. Bento, convocado ao longo de todo o ciclo com Ancelotti e presente na pré-lista de 55 nomes divulgada pela CBF, se enquadra nessa categoria: o erro contra o Al-Hilal foi pontual num campeonato em que o arqueiro acumulou atuações sólidas pelo Al-Nassr.

Bento na hierarquia de Ancelotti e o que muda com a lista de segunda-feira

A convocação oficial dos 26 jogadores da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2026 — que será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México — será anunciada por Carlo Ancelotti na próxima segunda-feira, dia 18 de maio. Alisson, do Liverpool, e Ederson, do Manchester City, são os nomes intocáveis na posição. A disputa real é pela terceira vaga, onde Bento enfrenta a concorrência de Hugo Souza, do Corinthians, John, do Nottingham Forest, e Weverton, do Grêmio, este último com menor probabilidade segundo fontes ligadas à comissão técnica.

A falha no clássico saudita, portanto, não alterou a equação — Taffarel já conversou com Bento e sinalizou que o episódio está encerrado internamente. Como num quarteto de jazz em que o músico erra uma nota no meio do improviso e segue tocando sem perder o compasso, a qualidade do conjunto é o que define se ele volta ao palco na noite seguinte. A nota errada ficou na Arábia Saudita; o palco, em julho, é nos Estados Unidos.