US$ 300 milhões distribuídos em dois trimestres consecutivos — esse é o número que resume, com precisão cirúrgica, o que a TKO Group Holdings se tornou desde que fundiu o UFC e o WWE sob o mesmo guarda-chuva corporativo. O pagamento mais recente, de US$ 150 milhões em dividendos para o segundo trimestre de 2026, sai no dia 30 de junho aos detentores de ações Classe A, a US$ 0,79 por papel. Não é acidente nem sorte de mercado. É arquitetura financeira deliberada, construída tijolo a tijolo ao longo de anos de negociações bilionárias.

A engenharia dos contratos que sustentam o dividendo

Quem ainda acredita que o UFC vive de pay-per-view e de ingressos vendidos na bilheteria do T-Mobile Arena em Las Vegas precisa atualizar o mapa. O contrato mais transformador da história recente da empresa foi o acordo de sete anos com o Paramount, avaliado em US$ 7,7 bilhões, que migrou as transmissões do ESPN para o Paramount+ e eliminou o modelo de pay-per-view — todos os eventos agora estão incluídos na assinatura da plataforma, sem custo adicional. Esse movimento, que em 2023 parecia arriscado para muitos analistas, consolidou uma base de receita previsível e recorrente que qualquer CFO de empresa de capital aberto sonha em apresentar ao conselho.

Mas a TKO não parou no UFC. O Monday Night Raw da WWE migrou para a Netflix, e os premium live events do wrestling foram para o ESPN Unlimited, o novo serviço de streaming da Disney. A empresa construiu, em menos de três anos, uma presença simultânea nas três maiores plataformas de streaming do planeta. Com essa diversificação, a receita projetada para 2026 oscila entre US$ 5,675 bilhões e US$ 5,775 bilhões — números que colocam a TKO no mesmo patamar de ligas esportivas consolidadas há décadas.

"Uma empresa que consegue distribuir US$ 150 milhões por trimestre enquanto ainda está expandindo seus contratos de mídia não está apenas gerando caixa — está sinalizando ao mercado que o crescimento tem piso, não teto", observou um analista financeiro especializado em entretenimento esportivo ao comentar os resultados da TKO.

A Zuffa Boxing e o dinheiro saudita que ninguém discute

Há um terceiro fluxo de receita que costuma passar despercebido nas análises superficiais sobre a TKO: a Zuffa Boxing, operada por Dana White e pelo presidente da WWE, Nick Khan. O financiamento da promoção de boxe vem integralmente da Sela, braço de investimentos do governo saudita. A Zuffa Boxing já garantiu transmissões no Paramount nos Estados Unidos e fechou recentemente um contrato com a Sky Sports no Reino Unido — dois mercados de altíssimo valor publicitário. A Arábia Saudita, que já domina o golfe via LIV Golf e atrai lutas de boxe com bolsas estratosféricas, agora tem presença direta dentro da estrutura corporativa da maior organização de MMA do mundo. Isso não é patrocínio. É participação estratégica.

Há quem argumente que essa dependência do capital saudita representa um risco de imagem para a TKO, dado o histórico de críticas às práticas do regime. O contra-argumento dos executivos da empresa é pragmático e documentado: a Sela financia a Zuffa Boxing sem interferência editorial nas transmissões, e os contratos com Paramount e Sky Sports foram fechados de forma independente. O risco reputacional existe, mas o mercado financeiro, por ora, prefere olhar para os US$ 150 milhões depositados na conta dos acionistas a cada trimestre.

O evento da Casa Branca e o paradoxo do prejuízo calculado

Existe uma anomalia interessante no calendário financeiro da TKO para este mês de junho. O card do UFC marcado para o dia 14, realizado no gramado sul da Casa Branca em Washington, deve gerar um prejuízo de ao menos US$ 30 milhões — os custos totais do evento ultrapassam US$ 60 milhões, e as receitas com patrocínios e endorsements devem cobrir apenas metade disso. Dana White, Mark Shapiro e os demais executivos da TKO já admitiram publicamente que o evento não é rentável no curto prazo.

Mas aqui está o ponto que os críticos do evento ignoram: uma organização que projeta US$ 5,7 bilhões em receita anual pode absorver um prejuízo de US$ 30 milhões como custo de marketing institucional — especialmente quando o cenário é o gramado da Casa Branca, transmitido pelo Paramount+ para milhões de assinantes. O alcance de mídia gerado por um único evento nesse endereço supera, em visibilidade, qualquer campanha publicitária que a TKO poderia comprar no mercado aberto. O prejuízo é real; o retorno de imagem, também.

O que os lutadores recebem enquanto os acionistas embolsam US$ 150 mi

A distribuição de US$ 300 milhões em dividendos em dois trimestres consecutivos inevitavelmente reacende o debate sobre a fatia que chega aos atletas. O UFC foi condenado em 2024 a pagar US$ 375 milhões em um acordo antitruste que reconhecia práticas de restrição salarial — um processo que durou anos e envolveu dezenas de lutadores. Mesmo após o acordo, a parcela dos atletas na receita total da organização segue sendo uma das mais baixas entre as grandes ligas esportivas americanas, estimada por pesquisadores independentes em torno de 18% a 20%, contra 48% a 50% na NFL e na NBA. Os dividendos pagos aos acionistas em 2026 já superam, em valor absoluto, o fundo total destinado a lutas de menor visibilidade no mesmo período. Esse desequilíbrio estrutural permanece o ponto mais vulnerável do modelo de negócios da TKO — e o próximo pagamento de dividendos, previsto para setembro, tornará essa conta ainda mais difícil de ignorar.