Todo mundo sabe que Endrick assinou com o Real Madrid e que em julho de 2024 deixou o Palmeiras rumo à Europa. O que pouca gente parou para calcular é o tamanho do arquivo que ele construiu antes de embarcar — dois gols em dois dos estádios mais icônicos do planeta, em oito dias, aos 17 anos, pelo Brasil. Esse é o ponto de partida desta história.

O vestiário que Dorival herdou e o garoto que ninguém esperava titular

Quando Dorival Júnior assumiu a Seleção Brasileira, o vestiário carregava o peso de uma eliminação nas quartas da Copa de 2022 para a Croácia e uma sequência de resultados instáveis sob Fernando Diniz. Bruno Guimarães, em coletiva em Londres antes do amistoso contra a Inglaterra, foi direto ao comparar os dois treinadores:

"O Diniz gosta de colocar praticamente todo o time do lado da bola. O Dorival já gosta de explorar os pontas no mano a mano, jogar em profundidade. Com o professor Dorival, faço coisas que pratico mais no dia a dia no Newcastle."
Era um vestiário em transição de identidade — e Endrick não começou nenhum dos dois amistosos como titular. Dorival foi categórico antes do jogo contra a Espanha: "Se ele começa como titular? Aí eu ficaria com só 10 opções restantes. O Endrick não inicia como titular. Com certeza, dará muitas alegrias à torcida madrilenha." O técnico sabia exatamente o que tinha na reserva.

Enquanto isso, outro peso pairava sobre o grupo. Vinicius Júnior, em coletiva na véspera do duelo no Bernabéu, se emocionou ao falar sobre o racismo que sofre na Espanha:

"É cada vez mais triste. Cada vez eu tenho menos vontade de jogar. Já fiz tantas denúncias e ninguém é punido, nenhum clube é punido. Se fosse só por mim e pela família, não sei se continuaria."
Dorival respondeu ao lado dele com firmeza: "Se houve um crime, se constatado pela justiça, ele tem que ser punido em todos os sentidos, doa a quem doer." O ambiente emocional da delegação brasileira naquela semana era denso — e foi nesse contexto que Endrick entrou em campo.

Nove minutos em Wembley, depois o Bernabéu — o que os gols significam em números

No sábado, 23 de março de 2024, Endrick entrou aos 71 minutos do segundo tempo contra a Inglaterra. Aos 80, após defesa de Pickford em finalização de Vinicius Jr., ele empurrou o rebote para a rede: 1 a 0, vitória brasileira na estreia de Dorival. Com aquele gol, tornou-se o jogador mais jovem a marcar no Estádio de Wembley por clube ou seleção — e o quarto mais novo a marcar pela Seleção principal, atrás apenas de Pelé, Edu e Ronaldo. Nove minutos em campo. Um gol. Capa dos principais jornais europeus no dia seguinte.

O vestiário que Dorival herdou e o garoto que ninguém esperava titular Todo mund
O vestiário que Dorival herdou e o garoto que ninguém esperava titular Todo mund

O jornal espanhol Marca sintetizou: "17 anos. Wembley. E 9 minutos em campo. Três conceitos que definem a ascensão de Endrick no futebol europeu." O comentarista inglês Joe Cole, no Channel 4, foi além e comparou o formato físico e a alegria em campo ao de Romário. Três dias depois, no Santiago Bernabéu, o Brasil foi a 2 a 0 para a Espanha no primeiro tempo — pênalti de Rodri e golaço de Dani Olmo. Dorival voltou para o segundo tempo com substituições em bloco. Endrick entrou, e em poucos minutos aproveitou sobra de escanteio para empatar: 2 a 2. Na comemoração, o garoto de 17 anos apontou para os pais na arquibancada do estádio do Real Madrid — o clube que seria dele em semanas.

O que para o argentino é uma obsessão coletiva com a camisa 10, para o português é a elegância técnica do meia-atacante de toque curto — e o Brasil historicamente oscilou entre esses dois polos. Endrick rompe esse eixo: é um centroavante de área, de rebote e de raça, mais próximo do Romário citado por Joe Cole do que do Neymar de dribles ou do Vini Jr. de velocidade. Isso não é pouca coisa num momento em que a Seleção busca reequilibrar sua identidade ofensiva.

O que Dorival decide agora com esse ativo nas mãos

Após o empate em 3 a 3 no Bernabéu — igualado por Lucas Paquetá de pênalti nos acréscimos —, Dorival foi preciso na avaliação da data Fifa:

"Saímos do Brasil há 10 dias e tenho certeza que poucos acreditavam naquilo que acabou acontecendo."
O técnico tem em mãos um ativo que ainda não pode usar em dose máxima — Endrick retornou ao Palmeiras para a semifinal do Paulistão contra o Novorizontino antes de se transferir definitivamente ao Real Madrid em julho. A janela de uso pelo clube paulista se encerrou ali, e a Seleção só voltaria a contar com ele após a adaptação europeia.

Os próximos compromissos já estavam definidos: México em 8 de junho, Estados Unidos quatro dias depois, e depois a Copa América. Endrick declarou, sem rodeios, o que espera desse ciclo: "O Vini também falou para a gente voltar a colocar o Brasil no topo, de onde ele nunca deveria ter saído. O que não vai faltar é raça, não vai faltar determinação, não vai faltar garra." São palavras de quem ainda tem 17 anos e já sabe o peso que carrega.

A decisão tática que Dorival precisa tomar não é se Endrick joga — é quando e como integrá-lo a um time que ainda encontra sua forma. Com dois gols em dois amistosos de alto nível, o jovem não pediu espaço: ele ocupou. Como um acorde final que resolve uma melodia que estava suspensa há quatro compassos — a resposta estava ali o tempo todo, só esperava o momento certo para soar.