O que transforma um jogo de futebol em Copa do Mundo? A pergunta parece simples, mas ela carrega uma tensão que esta edição do torneio, disputada em 16 sedes distribuídas entre Estados Unidos, México e Canadá, tornou impossível de ignorar. A resposta não está nos gols de Lionel Messi nem nas corridas de Cristiano Ronaldo — está nas ruas, nas praças, nos bares com cadeiras na calçada onde torcedores de diferentes países se cruzam, discutem, celebram e, às vezes, se abraçam sem se conhecer.

Essa experiência — que qualquer torcedor que esteve na Copa da África do Sul em 2010 ou no Brasil em 2014 reconhece imediatamente — está rarefeita nesta edição. Não por acidente, mas por uma combinação de fatores estruturais que dizem muito sobre o modelo de país que sedia o torneio e sobre as escolhas da Fifa ao escolhê-lo.

16 sedes, zero praças — a fragmentação que o mapa não mostra

Nunca houve uma Copa tão geograficamente dispersa. As 16 sedes americanas, mexicanas e canadenses somam um território continental que torna qualquer convergência orgânica de torcedores uma operação logística de alto custo. Dallas e Houston, duas das principais cidades-sede nos EUA, são metrópoles construídas sobre o automóvel — não há centro histórico, não há calçadão, não há praça pública que funcione como ponto gravitacional espontâneo. Miami repete o padrão. A estrutura urbana dessas cidades foi desenhada para o deslocamento individual, não para o encontro coletivo.

Torcedores de Brasil e Argentina têm contornado esse vácuo com uma solução artesanal: marcar pontos de encontro com hora definida, negociar com a polícia local alguma margem para celebrar. É a torcida raiz tentando criar, por força de vontade, o que a cidade não oferece naturalmente. As polícias locais, segundo relatos de torcedores, têm sido razoavelmente receptivas — mas a permissividade policial não substitui a infraestrutura urbana que organiza o encontro sem precisar de autorização.

A reclamação mais recorrente entre torcedores estrangeiros, porém, não é sobre urbanismo. É sobre preço. Christian, um argentino que vive em Dallas há 25 anos, sintetizou o dilema com precisão:

"Eu vivo aqui em Dallas e paguei 2.700 dólares por um ingresso. Queria ver o jogo em pé, 'hinchar' com meus compatriotas, mas não tinha ambiente nenhum — em volta de mim só tinha gente de outros lugares com a camisa do Messi."

O relato de Christian aponta para um paradoxo caro à sociologia do esporte: o ingresso mais caro da história não comprou a experiência que ele buscava. Comprou um assento entre desconhecidos que não compartilhavam sua identidade coletiva.

O público de estrelas e o que ele revela sobre este Mundial

Há um padrão que se repete nos estádios desta Copa e que merece análise além do anedotário. Na partida entre Argentina e Jordânia, disputada em Dallas, a volta dos times para o segundo tempo foi saudada por gritos de "Meeeeessi, Meeeeessi" — mas Messi havia começado o jogo no banco de reservas, poupado porque a Argentina já tinha a classificação garantida. Um observador atento notou que os argentinos presentes, em sua maioria, não participavam do coro. Quem pedia Messi eram os não argentinos — pessoas que compraram ingresso para ver um nome, não uma seleção.

O mesmo fenômeno se repetiu nos jogos de Portugal em Houston. A maioria dos presentes estava ali para ver Cristiano Ronaldo, não para torcer por Portugal. O resultado importava menos do que a presença física do ídolo. Isso não é um julgamento moral sobre esses espectadores — é um dado estrutural sobre o perfil de público que a combinação de preços altíssimos e marketing centrado em craques produz.

A Fifa e os organizadores construíram, deliberadamente ou não, um evento que prioriza o consumidor de entretenimento premium em detrimento do torcedor tradicional. O ingresso médio para jogos com Messi ou Cristiano Ronaldo ultrapassou os 1.500 dólares no mercado secundário. A esse preço, o público que acessa o estádio tem perfil demográfico e motivação radicalmente diferentes do torcedor que viajaria de Buenos Aires ou Lisboa para acompanhar sua seleção.

Fan fests gratuitos — a ausência que o modelo de negócio explica

Em Copas anteriores, os fan fests gratuitos funcionavam como válvula de equalização social: permitiam que torcedores sem condições de pagar ingresso participassem do evento, criavam pontos de encontro orgânico entre diferentes torcidas e geravam a atmosfera de rua que é parte inseparável da experiência do Mundial. Na Copa de 2014, o fan fest de Copacabana chegou a reunir mais de 500 mil pessoas em um único jogo.

Nesta edição, a oferta de espaços gratuitos é sistematicamente insuficiente. A reclamação é recorrente entre torcedores de diferentes países. A explicação não é difícil de encontrar: fan fests gratuitos competem com a venda de ingressos e com o consumo dentro dos estádios. Num modelo em que a receita de hospitalidade e camarotes representa fatia crescente do faturamento da Fifa — que em 2022 registrou receita total de 7,5 bilhões de dólares com a Copa do Catar —, o espaço público gratuito é tratado como externalidade, não como componente do produto.

O resultado é uma Copa que funciona muito bem como produto de entretenimento de luxo e muito mal como festa popular. As duas coisas podem coexistir — mas exigem investimento deliberado na segunda, que não aparece no modelo atual.

O que a Copa nos EUA deixa como questão para a Fifa

A dispersão geográfica desta edição não é acidente administrativo — é escolha política. Sediar 16 cidades significou distribuir retorno econômico por um território maior, reduzir resistências locais e ampliar a base de patrocinadores regionais. O custo foi pago pela experiência coletiva do torcedor.

Pesquisas de audiência televisiva já apontavam, antes do torneio, que o público americano tem baixa identificação com futebol como identidade cultural — ao contrário do que ocorre na América do Sul ou na Europa. A Copa nos EUA foi vendida como oportunidade de converter esse público. A estratégia de conversão escolhida foi o marketing de estrelas: Messi, Cristiano Ronaldo, Kylian Mbappé. Funcionou para encher estádios com espectadores de alto poder aquisitivo. Não funcionou para criar a experiência que faz o futebol diferente de qualquer outro espetáculo.

O torcedor raiz — aquele que vai à Copa para estar com sua torcida, não para ver uma celebridade — ficou como convidado de segunda classe num evento que ele ajudou a construir culturalmente ao longo de décadas. Christian, o argentino de Dallas, pagou 2.700 dólares para sentar entre desconhecidos. Essa conta não fecha.

A Copa do Mundo de 2030, que será disputada em seis países de três continentes, já anuncia dispersão ainda maior. A Fifa tem até lá para decidir se quer ser anfitriã de um festival ou gerenciadora de uma rede de arenas de entretenimento premium. São projetos diferentes, com públicos diferentes e com legados sociais radicalmente distintos. Uma receita sem os ingredientes certos pode parecer elaborada no cardápio — mas chega à mesa sem sabor.